Números comprovam que Pantanal incomodou a Globo mais que Os Dez Mandamentos; veja

Em 2008, o SBT lançou uma reprise que pegou muita gente de surpresa. Pantanal, novela de Benedito Ruy Barbosa produzida pela extinta Manchete em 1990, voltou ao vídeo através da emissora de Silvio Santos. E em horário nobre.

Grande sucesso quando apresentada pela primeira vez, tendo inclusive levado a Globo a modificar sensivelmente sua programação noturna, inegavelmente Pantanal marcou a teledramaturgia brasileira. Tanto por esse feito histórico, quanto pela qualidade de sua história, dos desempenhos do elenco e da direção inspirada e sensível de Jayme Monjardim e equipe.

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Pantanal foi “arma secreta” do SBT

Na época, o SBT disputava ainda mais acirradamente do que hoje o segundo lugar na audiência com a Record. E resolveu exibir Pantanal na faixa das 22h, assim que terminasse a novela das 21h da Globo – na ocasião, A Favorita. Semanas antes começaram a ser exibidas nos intervalos da programação chamadas com populares respondendo a uma enquete a respeito da novela mais marcante de suas vidas. Entre as indicadas, diversas atrações da Globo, como Tieta e Que Rei Sou Eu?.

A divulgação falava ainda numa “arma secreta” do canal, que seria exibida em breve. Para despistar, citava também a novela Revelação, de Iris Abravanel, então em produção, como podendo ser a carta guardada por Silvio na manga.

Em 9 de junho de 2008, foi revelado o segredo. A “arma secreta” do SBT não era outra senão Pantanal, arrematada num leilão da massa falida da Manchete. Os profissionais da produção foram convocados pela emissora a receberem valores referentes a seus direitos. Todavia, Benedito Ruy Barbosa não gostou da iniciativa e pôs-se a mover um processo contra Silvio Santos. A própria Globo também se manifestou a respeito. Havia adquirido os direitos sobre a história e pretendia fazer uma nova versão na época.

“… Troque de canal e veja Pantanal”

Nos primeiros dias, a reprise de Pantanal era anunciada apenas citando o horário, 10 da noite. Mas como esse horário dificilmente era seguido, já que a estratégia era colocar a novela no ar apenas quando a da Globo terminasse, isso foi deixado claro. Posteriormente a seguinte frase passou a ser dita em chamadas no decorrer da programação do SBT: “Quando terminar a novela da Globo, A Favorita, troque de canal e veja Pantanal.”

Qual era a trama central de Pantanal?

Claudio Marzo
José Leôncio (Claudio Marzo) em Pantanal (Reprodução)

A novela contava a trajetória de uma família de boiadeiros e criadores de gado, os Leôncio, desde os anos 1940 até aquele 1990. Eles se estabelecem na região do Pantanal e fincam raízes. José Leôncio (Cláudio Marzo/Paulo Gorgulho), o patriarca, jamais se esqueceu de seu pai, Joventino (também Marzo). Este desapareceu no Pantanal, há mais de 20 anos. Tanto que deu o nome dele a seu filho (Marcos Winter), fruto do infeliz casamento com a carioca Madeleine (Ítala Nandi/Ingra Liberato).

Criado no Rio de Janeiro, longe do pai e cercado pela mãe, pela avó Mariana (Nathalia Timberg) e a tia Irma (Elaine Cristina/Carolina Ferraz), Jove, como é chamado, em nada lembra o meio-irmão Tadeu (Marcos Palmeira). Este é filho de José Leôncio com a empregada da fazenda, Filó (Jussara Freire/Tânia Alves), ex-prostituta. Mas Jove acaba indo para o Pantanal viver com o pai, e depois dele vai a família toda. Notadamente, após a morte de Antero (Sérgio Britto), o avô, marido de Mariana.

Jove se apaixona pela selvagem Juma Marruá (Cristiana Oliveira), que o tem de linda, tem de arisca. A moça se transforma em onça e defende sua honra e suas terras com ferocidade. Mas se rende ao amor do rapaz da cidade, que a encanta. Já Tadeu, por sua vez, se interessa por Guta (Luciene Adami), também muito bonita, filha de um fazendeiro vizinho, Tenório (Antônio Petrin).

No decorrer da história, surge um terceiro filho de José Leôncio. É José Lucas (Paulo Gorgulho), fruto de um caso passageiro. O personagem foi criado para que Gorgulho, sensação na primeira fase, pudesse voltar à novela.

Números comprovam que Pantanal incomodou a Globo muito mais que Os Dez Mandamentos; veja

Os longos capítulos da reprise de Pantanal
Marcos Winter, Cláudio Marzo e Marcos Palmeira em Pantanal (Divulgação)
Marcos Winter, Cláudio Marzo e Marcos Palmeira em Pantanal (Divulgação)

Especialmente nos primeiros capítulos, Pantanal chegava a cerca de duas horas no ar. E sem intervalos comerciais. Uma série de motivações pode ser considerada. Ainda mais com perspectiva de ter que tirar a novela do ar, ainda que adquirida sem tropeços. Fidelizar a audiência que sintonizava o SBT para ver Pantanal era outro motivo. Ainda, testar se essa reapresentação com tudo para dar certo não se revelaria um tiro no pé.

Quase 20 anos depois de produzida e já em sua terceira exibição, Pantanal mais uma vez fez bonito nos números. De tal forma que voltou a incomodar a Globo, que perdia audiência considerável para sua linha de shows, após as 22h. Nas quartas-feiras, Pantanal entrava mais cedo, junto com o futebol. E chegou a atingir a casa dos 20 pontos em determinados capítulos, com média de 15. A reprise teve 187 capítulos e terminou em 13 de janeiro de 2009.

Certamente a Globo deve ter se arrependido de não ter produzido a novela. Chegou a iniciar preparativos em 1984, para o horário das 18h. Mas o mau tempo na região à época da visita para reconhecimento foi esquecido por Benedito e com isso não houve argumentos para convencer a emissora. Transferindo-se para a Manchete com a garantia de tirar do papel sua novela e exibi-la no horário nobre, como ocorreu, o autor mudou de status na TV brasileira. E sua volta à Globo, em 1993, foi em grande estilo.

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