Remy (Vladimir Brichta) em Segundo Sol
Remy (Vladimir Brichta) em Segundo Sol (Divulgação/ TV Globo)

A nova novela global das 21h, Segundo Sol, de João Emanuel Carneiro, estreia na próxima segunda-feira e já tem causado polêmica em razão de seu elenco quase inteiramente constituído de brancos, um contrassenso em se tratando de uma história ambientada no estado da Bahia, de população predominantemente negra. Enquanto a novela não estreia e não se aparam arestas como esta, vamos relembrar outras novelas cujas histórias também foram ambientadas na Bahia.

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Em 1970, após assinar com pseudônimo sua estreia na TV, A Ponte dos Suspiros (1969), baseada na obra de Michel Zevaco, o dramaturgo Dias Gomes escreveu Verão Vermelho, que inovava ao localizar sua trama na Bahia e tratar de temas nacionais. O centro da história, dirigida por Walter Campos nos primórdios da faixa das 22h da Globo, era a infelicidade do casamento de Adriana (Dina Sfat) e Carlos (Jardel Filho), acentuado pela presença de Flávio (Paulo Goulart), um médico que teve cassados seus direitos de clinicar e vive agora como uma espécie de curandeiro. Após vários anos de histórias chorosas, muitas delas ambientadas em paisagens distantes e alheias ao povo brasileiro, Dias escolheu para cenário de sua primeira investida “nacional” sua terra natal, dando vez aos problemas do Brasil, à cultura popular da Bahia e seu sincretismo religioso.

Ritmos e temperos baianos tomam conta da festa de Segundo Sol

Jardel Filho e Dina Sfat em Verão Vermelho (Reprodução/TV Cultura)

Jardel Filho e Dina Sfat em Verão Vermelho (Reprodução/TV Cultura)O mesmo Dias Gomes escreveria em 1973 uma das maiores novelas brasileiras, primeira produzida em cores por aqui, primeira a ser exportada em sua versão original a ser dublada nos países compradores e que ainda hoje influencia atores e autores: O Bem-amado, com direção de Régis Cardoso e supervisão de Daniel Filho. Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) era o prefeito da cidade de Sucupira, no litoral da Bahia, e se elegera com a grande promessa de construir e inaugurar o cemitério próprio do município. Só que, numa das muitas sacadas inteligentes e críticas do autor, em Sucupira ninguém morre, mesmo com tentativas de suicídio do farmacêutico Libório (Arnaldo Weiss), um grande tiroteio na praça, a presença do cangaceiro matador Zeca Diabo (Lima Duarte) e Ernesto (André Valli) indo convalescer na casa de suas primas, as irmãs Cajazeira – Dorotéa (Ida Gomes), Dulcinéa (Dorinha Duval) e Judicéa (Dirce Migliaccio). Ninguém morrer e isso impossibilitar a inauguração de um cemitério, em pleno Nordeste, região com índices sociais baixos e de mortalidade altos, era no mínimo irônico… Ponto para o autor. Destaque para cenas gravadas em Salvador, onde a filha de Odorico, Telma (Sandra Bréa), e seu par romântico Juarez (Jardel Filho), moravam no começo da história, e para onde o prefeito viajara a fim de providenciar alguns “trabalhos” pelos terreiros, garantindo assim seu êxito nas eleições.

A Ilhéus dos anos 1920, com vida totalmente baseada na cultura do cacau e seus ditames, foi reconstruída com esmero numa cidade cenográfica planejada por Mário Monteiro para as gravações de Gabriela (1975), novela de Walter George Durst baseada no romance Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, superprodução dirigida por Walter Avancini que comemorou os 10 anos de operações da Rede Globo. A história da sensual retirante Gabriela (Sônia Braga), que enlouquece de amor o comerciante Nacib (Armando Bogus), o “moço bonito”, como ela chamava, integrava um todo maior, que era o retrato da vida da cidade no coronelismo, sob a égide do velho Coronel Ramiro Bastos (Paulo Gracindo), quase centenário, e seu poderio contestado pela renovação simbolizada por Mundinho Falcão (José Wilker), apaixonado por sua neta Jerusa (Nívea Maria).

Em 2012, o mesmo romance de Jorge Amado serviu de base a uma nova adaptação, agora feita por Walcyr Carrasco com direção geral de Mauro Mendonça Filho. Juliana Paes deu vida a Gabriela; Humberto Martins foi Nacib; Antonio Fagundes, o Coronel Ramiro; Mateus Solano, Mundinho; e Luiza Valdetaro, Jerusa.

A cidade de Xique-Xique e a Chapada Diamantina em meados do século 19: era esse o cenário de Maria, Maria, novela de Manoel Carlos escrita a partir do romance Maria Dusá, de Lindolfo Rocha. Dirigida por Herval Rossano, a novela foi exibida em 1978 às 18h e trazia como personagens centrais duas jovens idênticas, que eram irmãs e não sabiam disso, interpretadas por Nívea Maria naquele que a atriz considera um de seus melhores momentos na TV. Enquanto Maria Alves era uma jovem esfomeada que o tropeiro Ricardo Valeriano Brandão (Cláudio Cavalcanti) conhecera em pleno sertão e cujos pais a venderiam em troca de comida, a bela e refinada Maria Dusá era cortejada por todos os homens da cidade por sua beleza e fortuna.

Após sair da Globo em meio às polêmicas e dificuldades de Os Gigantes (1979/80), Lauro César Muniz foi para a Rede Bandeirantes desenvolver um interesse projeto: Rosa Baiana (1981), com a qual a emissora da família Saad resolveu enfrentar a líder no horário das 20h. Gravada na Bahia apenas em locações, sem utilização de estúdios, a novela contava a história da lutadora personagem-título (Nancy Wanderley), que fora abandonada pelo marido Edmundo Lua Nova (Rafael de Carvalho), cuja volta esperava, e vivia às voltas com os muitos problemas dos sete filhos – Agenor (Gianfrancesco Guarnieri), Bráulio (Maurício do Valle), Ivan (Edgard Franco), Neide (Ana Maria Magalhães), Walter (Raymundo de Souza), Cláudia (Tânia Regina) e Edinho (Taumaturgo Ferreira). A direção foi de David José, substituído depois por Antonino Seabra, Waldemar de Moraes e Sérgio Galvão.

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O autor mais adaptado pela nossa teledramaturgia, Jorge Amado voltou à cena em 1981, novamente pelas mãos de Walter George Durst, com Terras do Sem Fim, junção de três romances seus – o escolhido para batizar a novela, mais São Jorge dos Ilhéus e Cacau. Infelizmente, o horário escolhido pela Globo para o projeto (18h) não se revelou acertado, o autor e o diretor Herval Rossano não se entenderam e a história da disputa dos coronéis Sinhó Badaró (Carlos Kroeber) e Horácio da Silveira (Jonas Mello) pela liderança política no interior da Bahia não rendeu os resultados esperados e possíveis. Em meio à disputa, dois grandes romances: o do falso engenheiro João Magalhães (Cláudio Cavalcanti) com Donana (Nívea Maria), filha do Sinhô Badaró; e o caso do médico Virgílio (Paulo Figueiredo) com Ester (Sura Berditchevsky), a jovem segunda mulher do Coronel Horácio.

A cidade de Resplendor, em plena Chapada Diamantina, era o palco dos conflitos de Pedra Sobre Pedra (1992), novela de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares com direção geral de Paulo Ubiratan. O domínio político é disputado por Murilo Pontes (Lima Duarte) e Pilar Batista (Renata Sorrah), que não superaram o romance que viveram no passado, quando foram separados por uma grande intriga que levou a moça a acreditar que Murilo era o pai da criança que sua amiga Eliane (Luciana Braga) esperava – uma menina que também recebeu o nome de Eliane (Carla Marins). Anos depois, o romance dos filhos dos dois, Leonardo Pontes (Maurício Mattar) e Marina Batista (Adriana Esteves), atravessa uma série de percalços. As conquistas do “retratista” Jorge Tadeu (Fábio Jr.) e o realismo fantástico presente em suas aparições sobrenaturais depois de ter sido assassinado, bem como a relação que Sérgio Cabeleira (Osmar Prado) tinha com a Lua, marcaram o público.

A zona cacaueira no interior da Bahia foi o cenário de Renascer (1993), de Benedito Ruy Barbosa, novela dirigida por Luiz Fernando Carvalho com a qual o autor voltava à Globo enfim reconhecido, após o sucesso de Pantanal (1990) na Rede Manchete. Pela primeira vez Benedito escrevia para o horário das 20h (hoje 21h) da emissora líder, e contou aqui a história do fazendeiro José Inocêncio (Antonio Fagundes), desde a juventude (Leonardo Vieira), quando se casou com Maria Santa (Patrícia França) e se estabeleceu numa terra hostil e perigosa, até a atualidade, quando disputava com o filho mais novo, João Pedro (Marcos Palmeira) – que ele detestava por considerá-lo culpado pela morte de sua mãe, no nascimento –, o amor da jovem Mariana (Adriana Esteves), que na verdade se aproxima do coronel inicialmente com a intenção de se vingar pela morte de seu avô Belarmino (José Wilker), cujo responsável ela acredita ser José Inocêncio.

A Rede Manchete investiu numa ambiciosa empreitada que reativava seu departamento de teledramaturgia, em 1995, com Tocaia Grande, adaptação de Walter George Durst de mais um romance de Jorge Amado. Inicialmente dirigida por Régis Cardoso, substituído depois por Walter Avancini – reunindo assim a dupla de Gabriela –, a novela contava a história dos habitantes do povoado de Tocaia Grande, surgido das disputas sangrentas da região cacaueira e da disputa entre os coronéis Boaventura (Carlos Alberto) e Daltro (Leonardo Villar). Junto a eles existe o jagunço Natário (Roberto Bonfim), que dá origem ao povoado e desafia o poderio dos coronéis, almejando tornar-se um deles. A prostituta Júlia Saruê (Tânia Alves) também é personagem importante da história, bem como os filhos que abandonara no passado e que se veem diretamente ligados à briga dos coronéis.

E mais uma vez Jorge Amado serviu de base a uma novela das 20h, em 2001, quando Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares ergueram a trama de Porto dos Milagres, dirigida por Marcos Paulo e Roberto Naar, a partir do romance Mar Morto e da novela literária A Descoberta da América pelos Turcos. O nome da novela é o mesmo da cidade litorânea onde a história se passa, governada pelo inescrupuloso Félix Guerrero (Antonio Fagundes), cuja esposa Adma (Cássia Kiss) dera fim no passado ao cunhado Bartolomeu, irmão gêmeo de Félix, para que eles se apossassem de sua fortuna. Bartolomeu tivera um filho com a prostituta Arlete (Letícia Sabatella): Guma (Marcos Palmeira). Protegido por Iemanjá, a quem fora consagrado quando Frederico (Maurício Mattar) o encontrara num cesto no mar, Guma exerce liderança sobre os pescadores e é uma pedra no sapato de Félix, sem que os dois saibam do parentesco que os une.

Dividida em duas fases e contando uma grande história de rivalidade entre duas famílias cujos herdeiros (é claro) se apaixonam, Velho Chico (2016), de Benedito Ruy Barbosa com direção de Luiz Fernando Carvalho e Carlos Araújo, representou o respiro temático, geográfico e poético que o horário das 21h da Globo pedia após uma sucessão de histórias urbanas e de temáticas semelhantes no que tocava à abordagem dos problemas da violência das grandes metrópoles. Na pequena (e fictícia) Grotas de São Francisco, interior baiano, a família do Coronel Afrânio de Sá Ribeiro (Rodrigo Santoro na primeira fase e Antonio Fagundes na segunda) e a do Capitão Evaristo Rosa (Rodrigo Lombardi) iniciam uma grande disputa que atrapalha a união amorosa de seus descendentes, Maria Tereza (Júlia Dalavia, depois Camila Pitanga), a filha do coronel, e Santo (Renato Góes, depois Domingos Montagner), filho de Belmiro (Chico Diaz), cuja família fora acolhida pelo capitão e sua esposa Eulália (Fabíula Nascimento). A problemática da região e o resgate do Rio São Francisco serviam de pano de fundo para a história, de grande qualidade artística, que infelizmente ficou marcada pela morte de Domingos Montagner em 15 de setembro de 2016, poucos dias antes da exibição do último capítulo.

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