A novela Máscaras deu início à fase ruim da Record em novelas
A novela Máscaras deu início à fase ruim da Record em novelas (Divulgação/Record)

Depois do desastre em repercussão e audiência que Metamorphoses (2003) representou, a Record resolveu se repaginar e fazer novela como uma grande produtora. Começou com o simples, seguindo a receita de um sucesso histórico da teledramaturgia brasileira e mundial: A Escrava Isaura (2004). A releitura foi um êxito de audiência na faixa das 19h.

O resultado empolgou também os executivos da emissora, que resolveram continuar apostando em clássicos da literatura para realizar suas novelas. Foi aí que vieram as elogiadíssimas pela crítica Essas Mulheres (2005) e Cidadão Brasileiro (2005).

A essa altura do campeonato, a emissora da Barra Funda já tinha em seu departamento de recursos humanos os contratos de gente importante e talentosa, que fora da Globo, como os dos autores Marcílio Moraes e Lauro César Muniz; responsáveis mais tarde por alguns dos maiores êxitos que se tem notícia do departamento de drama da emissora.

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Terminado esse começo bem-sucedido com as tramas de época, o canal investiu em Prova de Amor (2005), escrita por Tiago Santiago e inspirada também nos grandes contos, porém, realizada na era contemporânea.

Com a Globo acomodada em suas novelas de humor das 19h, a trama protagonizada por Lavínia Vlasak e Marcelo Serrado foi um sucesso incrivelmente inesperado, tanto que precisou ser espichada pra maximizar os ganhos.

Será que começou aí a mania da Record de esticar suas novelas e construir barrigas maiores do que a da Grávida de Taubaté? Enfim, o fato é que os números de audiência e aceitação de Prova de Amor serviram para o mercado entender que, sim, era possível construir uma tradição de novelas poderosas fora da Globo.

A Record deu pistas para todos acharem isso. Com a novela de Santiago, fundou seu Projac, o falecido Recnov, que hoje está sob controle da produtora Casablanca. Alguns anos mais tarde, anunciou com tudo o que tem direito no marketing a ampliação dos estúdios, com uma estrutura que a colocaria como a segunda rede mais poderosa do país, uma das mais importantes da América Latina.

Com seu complexo no Rio de Janeiro, foi simples compreender que havia ali uma disposição para gerar conteúdo nacional de qualidade e isso aconteceu. Novelas como Vidas em Jogo, de Cristianne Fridman; Poder Paralelo, de Lauro César Muniz; Amor e Intrigas, de Gisele Joras foram muito bem realizadas e garantiram a vice-liderança sem sustos.

Contudo, algumas produções não tiveram a mesma sorte. Com uma grade voadora, olhando sempre para a Globo e apostando no comodismo tradicional do SBT, a Record passou a perder audiência, muita audiência.

Uma série de investimentos errados jogou o cômico slogan A Caminho da Liderança no lixo. Um sonho distante que nunca alcançou e que, tudo indica, não conseguirá falar de boca cheia tão logo.

Essas novelas, que vamos abordar na coluna Vale a Pena, do Observatório da Televisão, não são todas artisticamente ruins, mas contribuíram em audiência para fazer o povo esquecer que ali na Record havia uma opção em telenovelas.

Muito da responsabilidade é de quem comandava o canal na época de cada trama, que, provavelmente, não estava interessado em alcançar a liderança, realmente. Confira.

PROMESSAS DE AMOR (2009): Essa foi uma novela que, de cara, não prometia muito, né? Depois de saturar o público com a saga interminável Caminhos do Coração e Os Mutantes, a Record resolveu cortar o orçamento da terceira parte e a solução para o escritor Tiago Santiago foi apostar em uma trama água com açúcar que, óbvio, não deu certo. A diferença de investimento em recursos e a falta de sustância no roteiro eram flagrantes. Resultado? A trama terminou sem repercussão e o escritor mudou de emissora. Nunca mais escreveu nada na Record. Vale lembrar que as duas fases anteriores chegaram a assustar a Globo.

MÁSCARAS (2012): Essa produção foi responsável por jogar a emissora na maior crise recente de sua teledramaturgia. Claro, a Record tem muita responsabilidade por não saber promover, programar suas atrações e valorizar seus artistas. Mas a história moderna de Máscaras foi apontada como confusa por quem assistia. Tecnicamente, uma das telenovelas mais interessantes da Record, porém, ainda assim foi preciso mexer no roteiro para deixá-la mais compreensível. Nenhuma mudança funcionou como se esperava. A novela não alcançou nem a vice-liderança no ranking de audiência. No final, o elenco acreditou que a imprensa foi muito dura com a trama e mandou um recado no último capítulo.

PECADO MORTAL (2013): Essa foi a estreia de escritor Carlos Lombardi na Record. A expectativa era enorme para ver mais um global escrevendo para o canal dos bispos. A esperança era mesmo de que houvesse uma alternativa interessante à Globo. Porém, tudo virou frustração. Nem tanto por causa da novela, que seguiu o estilo de Lombardi, com texto ágil, homens sem camisa e uma realização técnica belíssima. Um gênio da programação, então, resolveu colocar a novela na faixa das 21h, a principal da líder de audiência. Originalmente, Pecado Mortal ia ao ar depois das 22h. A decisão foi definitiva para o fracasso em termos de audiência. Não havia mais nada a se fazer, já que o que vinha antes e o que era programado depois também na atraia o telespectador.

BALACOBACO (2012): Depois da sofisticada Máscaras, que ninguém entendeu nada, a Record resolveu mudar o jogo encomendando a Gisele Joras uma trama extremamente popular, leia-se carioca. Com subúrbio, texto leve, divertido e personagens que representariam o povo, Balacobaco passou despercebida. A novela até que foi bem realizada, mas com uma programação capenga, ninguém lembrou de sintonizar na Record para assistir ao folhetim.

VITÓRIA (2014): Essa parecia que ia ser um novelão, com sofisticação e simplicidade. Cristinne Fridman vinha de um enorme sucesso na emissora, então, a torcida para que o texto pegasse era grande. Mas não foi isso o que aconteceu. Vitória trouxe tramas fortes, como a do neonazismo no Brasil e nem isso encantou o público. A novela costumeiramente ficou abaixo dos 10 pontos de audiência, seguindo a tendência de sua antecessora, Pecado Mortal.

DONA XEPA (2013): Uma novela popular que tinha tudo para dar certo, porém, escolhida para o momento errado fracassou sem pena nem glória na Record. A versão de Gustavo Reis não cativou o público que também não se viu representado na novela. A trama nem chegou a ter 100 capítulos, algo muito incomum para as produções da emissora. A reprise vespertina em 2015 confirmou que a novela não foi bem realizada e terminou antes mesmo do esperado. Para piorar, a novela foi até exportada para o Chile, onde foi exibida na TVN. A novela foi tirada do ar por rejeição dos telespectadores. Uma novela para esquecer.

APOCALIPSE (2017): Depois de vários fracassos com tramas contemporâneas, a Record achou no universo bíblico seu caminho para a teledramaturgia. A emissora se deu bem com Os Dez Mandamentos, um ponto comprovado ser bem fora da curva, em 2015. Com o tempo, os telespectadores se cansaram de tanta novela épica e veio, então, Apocalipse, uma novela contemporânea e bíblica. A expectativa era enorme sobre o texto, sobre os efeitos especiais e sobre o investimento, já que a Record nunca poupou recursos ao contar histórias bíblicas. A trama estreou com uma história confusa e pouco atrativa. Para piorar, a emissora passou a censurar a autora Vivian de Oliveira, e Cristiane Cardoso, filha do dono do canal, interveio diretamente no texto, que ganhou um tom doutrinador a partir do que acredita a Igreja Universal do Reino de Deus. Resultado: os telespectadores não compraram a história, desistiram e nunca mais voltaram. Apocalipse é a primeira bíblica da Record que não alcança os dois dígitos e fica em terceiro lugar na audiência. Um vexame.

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