Jeiza (Paolla Oliveira) de A Forca do Querer
Jeiza (Paolla Oliveira) de A Força do Querer (Divulgação/TV Globo)

A posição da mulher na sociedade não é uma questão de hoje. Mas em tempos nos quais o termo feminismo tem sido utilizado mais largamente – e nem sempre da melhor forma – a televisão e a telenovela têm tentado acompanhar as mudanças e inserir o assunto da melhor maneira e de acordo com as modificações ocorridas (ou necessárias) na vida real. Talvez o maior exemplo recente de personagem que foge ao estereótipo feminino na dramaturgia tenha sido o da policial Jeiza (Paola Oliveira) de A Força do Querer (2017), que tanto combatia o crime com destreza, competência e dedicação quanto vivia um tumultuado romance com o ciumento e machista Zeca (Marco Pigossi). Como se não bastasse, ela também era lutadora de MMA, sem que isso prejudicasse em nada sua feminilidade.

No decorrer do tempo, a figura da mulher foi sendo mostrada pela dramaturgia como muito mais do que alguém que poderia ou deveria simplesmente viver uma vida abnegada cuidando de casa, marido e filhos. Já nos anos 1970 Janete Clair escreveu uma série de personagens femininas fortes e determinadas em suas novelas e que não correspondiam ao estereótipo da mocinha chorona e sofredora: merecem lembrança a Chica Martins (Dina Sfat) de Fogo Sobre Terra (1974), com seus sonhos de ascensão social na pequena Divineia, onde se passava a história; a Lucinha (Betty Faria) de Pecado Capital (1975/76), que de operária de subúrbio sonhava ser modelo famosa e conseguiu ter uma carreira de sucesso, e não ser apenas a esposa de Carlão (Francisco Cuoco) ou de Salviano (Lima Duarte); a Lili (Elizabeth Savalla) de O Astro (1977/78), de modos levemente masculinizados, que trabalhava como taxista enquanto a mãe Consolação (Eloísa Mafalda) a desejava vendedora de butique e depois foi ajudar o cunhado Neco (Flávio Migliaccio) em sua barbearia; a cobradora de ônibus Maria Faz-favor (Aracy Balabanian) de Coração Alado (1980/81), batalhadora ludibriada pelo fala-mansa Von Strauss (Jardel Filho); e a caminhoneira Gisa (Tamara Taxman) de Sétimo Sentido (1982). Uma vasta galeria. Numa entrevista de 1982 a Leda Nagle, Janete declarou: “Essa sempre foi uma temática muito forte nas minhas novelas. Eu fui uma das primeiras novelistas que colocaram a mulher com uma atividade participante dentro da sociedade, trabalhando. Você pode analisar todas as minhas novelas, desde a minha primeira novela na televisão: a mulher é ativa, ela é participante.”

Nos 89 anos de Hebe Camargo, relembre a trajetória da Rainha da Televisão Brasileira


Em 1983 Silvio de Abreu desenvolveu toda uma história a partir da dualidade entre homens e mulheres e deu a esse absurdo tão em voga na época – e mesmo hoje – uma abordagem pelo viés da comédia para escrever Guerra dos Sexos, um de seus maiores sucessos. Através da briga entre os homens e as mulheres pelo comando da cadeia de lojas Charlô’s, disputado pelos primos Charlô (Fernanda Montenegro) e Otávio (Paulo Autran), o autor levantou diversas questões que colocavam em xeque a por tantos alegada “inferioridade” da mulher em relação ao homem. Roberta (Glória Menezes), na mesma novela, enfrentava dura oposição em sua confecção, a Ravello Sport, após a morte do marido Vitório (Carlos Zara), já que os funcionários homens não aceitavam ser liderados por uma mulher, fosse ela viúva do patrão ou não. A história era conduzida desde o princípio colocando as mulheres como as personagens pelas quais o público deveria torcer.

Comportamentos que fogem daquilo que “é esperado da mulher” também foram abordados e geraram discussão. Gabriela (Sônia Braga em 1975 e Juliana Paes em 2012), personagem-título da novela baseada na obra de Jorge Amado – adaptada por Walter George Durst na primeira versão global e por Walcyr Carrasco na segunda) pode ser considerada por muitos uma “vagabunda” ou “leviana” em razão de seu comportamento sexual, mas ela era na verdade uma jovem mulher criada fora dos ditames morais da sociedade “de boa moral e bons costumes” e não via mal algum em manter relações sexuais com os homens que a agradassem. Da mesma novela era Malvina (Elizabeth Savalla em 1975 e Vanessa Giácomo em 2012), filha de coronel do cacau, que desafiava a moral da Ilhéus dos anos 1920 e fugia com o amado. Em O Casarão (1976), de Lauro César Muniz, Carolina (Renata Sorrah) não queria ter o mesmo fim da avó de quem herdara o nome (Yara Cortes), casada com um homem que não amava por toda uma vida, e desejava se separar de Estêvão (Armando Bogus) para se unir a Jarbas (Paulo José).

Lígia (Betty Faria), de Água Viva (1980), de Gilberto Braga, chegou mesmo a influenciar as telespectadoras, especialmente em Portugal, em razão de sua postura corajosa e certa do que quer ao lutar tanto por sua felicidade no amor quanto pelo sucesso de seu empreendimento, uma loja de roupas que abriu. Da mesma novela, a rica Stella Fraga Simpson (Tônia Carrero) não precisava se preocupar com trabalho, mas dava seu recado com suas atitudes bastante desafiadoras, dentre as quais se envolver amorosamente com rapazes bem mais jovens e fazer topless na praia. A Jaci (Wanda Stefânia) de Cavalo Amarelo (1980), novela de Ivani Ribeiro, precisou recorrer a um disfarce de homem para trabalhar e cuidar do pai doente, Roque (Aldo César), mas seu segredo atrapalhava a concretização do amor que sentia por Zeca (Kito Junqueira), o filho bastardo do Sr. Maldonado (Rodolfo Mayer).

A personagem-título de Sinhá-Moça (Lucélia Santos na versão de 1986, atualmente em reprise no Canal Viva, e Débora Falabella em 2006), de Benedito Ruy Barbosa, era uma típica filha de um grande fazendeiro de café que desperta as atenções do melhor partido da cidade. Mas ela era uma ferrenha abolicionista, assim como o rapaz, e o casal se unia em seu amor e na luta pela abolição da escravatura. A jornalista Solange (Lídia Brondi) em Vale Tudo (1988), de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, prescindia de um marido, e mesmo de uma relação amorosa estável, para ser mãe por meio de uma “produção independente”. Tieta (Betty Faria), a personagem que dava nome à novela de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares inspirada em Jorge Amado, era transgressora em muitos sentidos: vivia plenamente sua vida sexual desde quando jovem e solteira (o que nunca deixou de ser), sustentou a família toda no Nordeste trabalhando como prostituta (depois cafetina) em São Paulo, voltou para a cidade natal para se vingar da população que a havia humilhado usando da própria hipocrisia e falsidade dos locais e se envolveu amorosamente com o sobrinho Ricardo (Cássio Gabus Mendes), que era seminarista.

Helena (Maitê Proença) em Felicidade (1991/92), de Manoel Carlos, tinha uma filha, Bia (Tatyane Goulart), que resolvia criar sem a ajuda do pai da menina, Álvaro (Tony Ramos), e dos seus próprios pais, Ataxerxes (Umberto Magnani) e Ametista (Ariclê Perez). Catarina (Adriana Esteves) havia jurado nunca se casar nem ser dominada por qualquer homem em O Cravo e a Rosa (2000/01), de Walcyr Carrasco e Mário Teixeira. Ela participava ativamente das lutas feministas dos anos 1920 e era conhecida como “A Fera” devido a seu comportamento hostil em relação aos homens que tentavam cortejá-la. Letícia (Paola Oliveira) em Ciranda de Pedra (2008), de Alcides Nogueira com base no romance de Lygia Fagundes Telles, só pensava em sua carreira de tenista e não se preocupava nem um pouco com as ideias de casamento e filhos. Griselda (Lília Cabral) trabalhava como “marido de aluguel” consertando encanamentos e instalações elétricas com problemas em Fina Estampa (2011/12), de Aguinaldo Silva.

Essas são apenas algumas das muitas personagens femininas que ao longo de décadas de teledramaturgia representaram a luta diária da mulher por afirmação num mundo onde tudo desde sempre foi pensado contra ela e em favor do homem. Neste Dia Internacional da Mulher, e em todos os outros 364 do ano, em todos os anos, os merecidos cumprimentos e agradecimentos. Como já disse Erasmo Carlos, “Dizem que a mulher é um sexo frágil/Mas que mentira absurda…”