Machucada pela vida, Clara (Regiane Alves) senta a mão na cara da vilã Melânia (Glauce Graieb), em Fascinação
Machucada pela vida, Clara (Regiane Alves) senta a mão na cara da vilã Melânia (Glauce Graieb), em Fascinação (Reprodução)

Quem vê Walcyr Carrasco acumulando sucessos na Globo nem se recorda tanto de suas novelas fora da emissora carioca. Os bons números de audiência de O Outro Lado do Paraíso não surpreendem, já que a sequência de grandes êxitos do escritor só aumenta.

Aparentemente, Walcyr tem o dom de tratar de assuntos que vão do batido ao novo e alcançar grandes resultados de audiência e repercussão. Suas comédias românticas e repletas de clichês, como Êta Mundo Bom, e os dramas polêmicos, como Verdades Secretas, são exemplos disso.

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E quando a novela não começa bem, ele apresenta uma qualidade invejável de virar o jogo, consertar os pontos negativos e aumentar todo o prestígio da sua obra. Foi assim com Sete Pecados e Morde & Assopra, ambas das 19h.

Antes de pertencer à maior emissora do país, ele já se mostrava um autor diferenciado e escreveu grandes produtos para a televisão brasileira. Xica da Silva, por exemplo, se tornou um clássico da teledramaturgia brasileira. Algo dificílimo de acontecer fora da Globo.

Porém, na coluna Vale a Pena, de hoje, o Observatório da Televisão relembra uma saudosa novela de Walcyr do período pré-Globo. A trama foi produzida e levada ao pelo SBT e praticamente carimbou o passaporte de Carrasco para a maior a produtora de novelas do país.

Fascinação, protagonizada por Clara (Regiane Alves) e Carlos Eduardo (Marcos Damigo) e antagonizada por Alexandre (Heitor Martinez) e Melânia (Glauce Graieb), é uma telenovela de roteiro original, com personagens muito bem definidos como bons ou maus, seguindo a cartilha clássica do folhetim francês.

Clara é uma moça de família pobre que se apaixonada pelo ricaço Carlos Eduardo. A mãe dele, Melânia, uma megera, não gostou nada do romance e, além de pisar com gosto na protagonista, deu um jeito de separar os pombinhos. Quer sentir o nível de tensão entre a mocinha e a vilã? Apenas assista.

Antes, porém, Carlos Eduardo pediu Clara em casamento, que, inocentemente, se entregou a ele, engravidou, e, então, o estrago já está feito. Capaz de tudo, Melânia contratou Alexandre para se passar pelo pai do bebê e acabar como respeito que o filho tinha por Clara.

Para piorar, inconformado, o pai de Clara a expulsou de casa, empurrando-a diretamente para as garras de Alexandre. O mau-caráter a levou para um bordel e a obrigou a se prostituir. Pobre Clara! Assista ao drama.

Nem no enterro do pai, Clara teve sossego: foi humilhada. Veja.

Um dos personagens-chave é Berenice (Samantha Monteiro). Ela é uma mulher milionária, que com um conselho de Germana, a governanta da mansão da família de Carlos Eduardo, virou alvo do interesse de Melânia, que deu um jeito de casar o filho com ela.

Berenice é influenciável e apaixonada. Perfeita para o golpe financeiro da vilã. Spoiler: Frágil, ela se afogou no próprio drama e morre. Relembre, abaixo, a cena em que ela descobre que foi manipulada o tempo todo.

Depois de muito sofrimento e uma estupenda resignação, Clara dá a volta por cima. E um desses momentos épicos dessa virada, é esse, aqui. Detalhe que, nesta cena, aparece Dona Querubina, feita pela inesquecível Lia de Aguiar.

Ambientada nos anos 30, a produção foi ao ar em 1998 com baixo investimento e alta expectativa do SBT. O objetivo era conta uma história simples e enfrentar Torre de Babel, da Globo, no horário das 20h50.

Para se ter uma ideia, a emissora de Silvio Santos arquitetou a grade de programação de modo a estrear Fascinação no mesmo dia do primeiro capítulo da novela concorrente.

Vale pontuar que os diretores do SBT não consideraram que a sua aposta para o horário nobre custava cinco vezes menos que a superprodução da Globo, que teve até um shopping center explodido.

Fascinação foi uma novela concebida para ser de baixo-custo, seguindo o modelo mexicano. Não havia sequer cidade cenográfica. A maior parte das cenas foi realizada em estúdio, o que na prática não atrapalhou os resultados da novela.

Naquela época, Silvio Santos, o dono do SBT, estava empolgado com os resultados das novelas da Televisa e com seu modelo de produção eficientemente barato e pronto para a exportação.

Como parâmetro do que significou o investimento financeiro em Fascinação, Chiquititas, produzida na mesma época, na Argentina, em parceria com a Telefe, custava pouco mais que o dobro por capítulo, R$ 45 mil.

Por conta disso, até mesmo a opção foi por uma trama romântica e menos sensualizada, como Xica da Silva, por exemplo. A ideia era seguir o “padrão Rosalinda”, com muito mais ternura e crença em um mundo perfeito de amor.

Toda essa economia, claro, culminou em longas jornadas de trabalho. Além degastar pouco, o SBT quis gravar tudo o mais rápido possível. As equipes técnica e artística passavam cerca de 12 horas por dia trancafiados nos estúdios da Anhanguera.

A novela subiu a audiência do SBT aos dois dígitos, com números melhores na reta final. Antes, o canal marcava metade do resultado de Fascinação com a exibição de telejornais. Não foi um sucesso epopeico, no entanto, sinalizou o caminho para garantir a vice-liderança no horário.

Para encerrar, a trilha sonora de Fascinação, primeira telenovela de Regiane Alves e Mariana Ximenes (Emília), chamou atenção já na abertura, com Nanna Caymmi interpretando Fascinação. Tem ainda Elis Regina (Carinhoso), Gal Costa (Inquietação), Elba Ramalho (La vie en rose) e Jair Rodrigues (Boa noite amor).

Relembre a bela abertura.