Nos 90 anos de Fernanda Montenegro, a homenagem do #TBTdaTelevisão

No próximo dia 16, Fernanda Montenegro completará 90 anos de idade. Sua vitoriosa carreira, iniciada no rádio na década de 1940, encontrou na televisão e no teatro a dimensão para um raro talento para interpretar. Além das muitas narrações que ela é convidada a fazer, tanto para comerciais quanto para vídeos institucionais. O #TBTdaTelevisão faz nesta semana um panorama da carreira de Fernanda Montenegro na teledramaturgia. Com toda a certeza, ela merece.

Nos anos 1950 e 1960, Fernanda Montenegro brilhou nos teleteatros

Antes da telenovela, especialmente quando se tornou diária, passar a ser a vedete da programação nas emissoras de televisão, eram os pomposos teleteatros que exibiam o que se queria apresentar de melhor e mais esmerado em termos de ficção na telinha. Fernanda Montenegro foi a primeira atriz contratada pela TV Tupi do Rio de Janeiro, já à época de sua inauguração, em 1951. Até meados dos anos 1960, mesmo que a certa altura já não mais como artista do elenco da casa, Fernanda integrou o elenco de centenas (sim, centenas, você não leu errado) de teleteatros nas emissoras carioca e paulista da Tupi.

O Grande Teatro Tupi apresentou ao público adaptações do melhor teatro e da melhor literatura universais. Geralmente os programas eram levados ao vivo nas noites de segunda-feira, que era quando os grupos teatrais tiravam folga dos palcos. Ao contrário de hoje em dia, naquele tempo as peças eram levadas de terça a domingo, não raro com duas ou mesmo três sessões nos finais de semana. Só para ilustrar, Manoel Carlos, autor de Por Amor, Mulheres Apaixonadas e tantos outros sucessos, foi o responsável pelo texto de diversos programas.

Sob a direção de Sérgio Britto e por vezes tendo-o também como colega em cena, Fernanda Montenegro atuou ao lado de nomes como seu marido Fernando Torres, Nathalia Timberg, Ítalo Rossi, Francisco Cuoco, Zilka Salaberry, Aldo de Maio e Cláudio Cavalcanti. Era o mesmo grupo do Teatro dos Sete, que se apresentava unido nos palcos e nos estúdios. Nos anos 1960, o programa de teatro ganhou outros títulos conforme mudou de emissora e de patrocinador. Em 1965 a TV Globo abrigou o grupo.

Na década de 1960, as telenovelas e Fernanda Montenegro enfim se encontram

Fernanda Montenegro fez sua primeira novela em 1963, na TV Rio. Escrita por Nelson Rodrigues, A Morta Sem Espelho causou celeuma com a Censura devido a seu texto ser de quem era, e por isso passou das 19h para perto das 23h. Se o horário é proibitivo para muitos espectadores hoje, imagine na ocasião. Na mesma emissora a atriz esteve em Sonho de Amor e Vitória. Essas duas novelas foram exibidas em São Paulo pela TV Record, mas em horário vespertino.

Em 1966, uma experiência na TV Tupi: adaptada por Talma de Oliveira de original de Caridad Bravo Adams, Calúnia uniu pela primeira e única vez Fernanda Montenegro e Sérgio Cardoso. Conta-nos Ismael Fernandes em seu Memória da Telenovela Brasileira, livro básico para todo noveleiro que se preze, que em determinada cena Sérgio deu em Fernanda um tapa na cara com tanta vontade que quase lhe destroncou o pescoço. A saber, o mesmo original de Adams teve uma versão mexicana exibida pelo SBT em 2000 com o nome de A Mentira.

Na TV Excelsior, entre 1967 e 1970 Fernanda Montenegro participou das novelas Redenção, A Muralha e Sangue do Meu Sangue. Depois disso, apenas em 1979 voltou ao gênero, já na Rede Bandeirantes, como a Ingrid de Cara a Cara. Nesse ínterim, praticamente se dedicou apenas a filmes e peças. Ademais, rara aparição da atriz no vídeo ocorreu em 1973 como a Medeia do Caso Especial de mesmo nome, adaptado para a Globo por Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, da tragédia grega de Eurípedes. Em 1976 ela também esteve num especial da Rede Tupi,O Gesto, a Festa, a Mensagem – Dois Mil Anos de Teatro. Com texto de Millôr Fernandes e Flávio Rangel e direção do segundo, o espetáculo reuniu atores de primeira categoria para lançar a coleção Teatro Vivo, da Abril Cultural, com textos clássicos da dramaturgia universal.

Dos anos 1980 em diante: personagens marcantes em novelas de sucesso

Fernanda Montenegro como Chica Newman em Brilhante (Divulgação/TV Globo)
Fernanda Montenegro como Chica Newman em Brilhante (Divulgação/TV Globo)

Desde 1981, quando foi Sílvia Toledo em Baila Comigo, de Manoel Carlos, Fernanda Montenegro fez diversas novelas, todas na Globo, além de algumas minisséries e unitários. De cara emendou duas novelas das 20h na casa: após Sílvia ela foi a Chica Newman em Brilhante, de Gilberto Braga. Grande vilã da história, Chica escolhia Luiza (Vera Fischer) como grande desafeto após a moça se recusar a se casar com seu filho, Inácio (Dênis Carvalho). O rapaz era homossexual e mãe sabia disso, claro. Mas se negava a aceitar o fato e queria fazer de Inácio o que convinha à posição pública da rica família. A Charlô de Guerra dos Sexos (1983) uniu pela primeira e única vez Fernanda e Paulo Autran, numa comédia centrada na dualidade homem X mulher e numa grande disputa por um patrimônio milionário.

A família Alcântara em Guerra dos Sexos: Felipe (Tarcísio Meira), Juliana (Maitê Proença), Analu (Ângela Figueiredo), Charlô (Fernanda Montenegro) e Otávio (Paulo Autran)
A família Alcântara em Guerra dos Sexos: Felipe (Tarcísio Meira), Juliana (Maitê Proença), Analu (Ângela Figueiredo), Charlô (Fernanda Montenegro) e Otávio (Paulo Autran)

A Naná de Cambalacho (1986) foi outro momento interessante na carreira de Fernanda, sem dúvida. Ela e seu amigo Jerônimo, o Jejê (Gianfrancesco Guarnieri), aplicavam pequenos golpes nos incautos. Só que ela não imaginava ser herdeira do milionário Antero Souza e Silva (Mário Lago). Este fora morto por sua esposa mau-caráter Andreia (Natália do Valle), que desejava ficar com tudo para si. Só para ilustrar, Charlô e Naná foram criações de Silvio de Abreu, amigo e parceiro de muitos trabalhos da atriz.

Nos anos 1990, de feiticeira a Compadecida

A década de 1990 foi intensa para Fernanda Montenegro na televisão. No próprio ano de 1990 a atriz pôde ser vista em três trabalhos diferentes. Um foi o especial Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira. Nos primeiros capítulos de Rainha da Sucata, outra novela de Silvio, a atriz foi Salomé, amante de Onofre (Lima Duarte). Fechando o trio, a Vó Manuela de Riacho Doce, minissérie escrita a partir do romance de José Lins do Rego. Aguinaldo Silva e Ana Maria Moretzsohn assinaram o texto, centrado numa aldeia de pescadores do Nordeste liderada pela malvada anciã.

Um papel atrás do outro

Gilberto e Fernanda se reencontraram em 1991, quando ele criou para ela a cafetina Olga Portela de O Dono do Mundo. A novela enfrentou problemas de receptividade, mas Olga foi sempre uma de suas melhores personagens. Mesmo quando passou a responder também pela função de verdadeira mãe do crápula maior do enredo, Felipe (Antonio Fagundes). Em 1993, dose dupla de Fernanda. Outra cafetina, desta vez na Bahia, na novela Renascer: Jacutinga abrilhantou a história de Benedito Ruy Barbosa. A atriz também foi Madalena em O Mapa da Mina, canto de cisne de Cassiano Gabus Mendes, às 19h.

Fernanda Montenegro foi a protagonista de Zaza
Fernanda Montenegro foi a protagonista de Zazá (Divulgação/TV Globo)

Outra matriarca foi a Quita Campolargo de Incidente em Antares (1994), baseada no romance de Erico Verissimo. Posteriormente, Fernanda foi a personagem-título de Zazá, novela de Lauro César Muniz, em 1997. Marisa Dumont, seu nome verdadeiro, se dizia filha do Pai da Aviação, Alberto Santos Dumont. E pretendia marcar presença no cenário mundial do setor com a construção de um moderno avião atômico. Todavia, o vilão Silas Vadan (Ney Latorraca), seu homem de confiança na empresa, poderia colocar tudo a perder.

Em 1999, Fernanda Montenegro surgiu em cena como Nossa Senhora na adaptação de O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Guel Arraes contou a história dos espertos João Grilo (Matheus Nachtergaele) e Chicó (Selton Mello). Sobreviventes da aspereza sertaneja, eles se valem da inteligência para um mínimo de sucesso na vida. Morto pelo cangaceiro Severino (Marco Nanini), João Grilo é salvo do fogo do inferno pela intercessão da Compadecida.

Na década de 2000, Fernanda virou meme quando o termo nem existia ainda

Lulu de Luxemburgo foi a personagem de Fernanda em As Filhas da Mãe, de Silvio de Abreu, em 2001. Ou melhor, A Incrível Batalha das Filhas da Mãe no Jardim do Éden. Ela era a “mãe” do título, e as “filhas” eram Tatiana (Andréa Beltrão), Alessandra (Bete Coelho) e Ramona (Cláudia Raia), a saber. No ano seguinte, Fernanda foi Luiza, a nonna de Maria (Priscila Fantin) em Esperança, iniciada por Benedito Ruy Barbosa e concluída por Walcyr Carrasco.

Bia Falcão (Fernanda Montenegro) de Belíssima (Divulgação/TV Globo)
Bia Falcão (Fernanda Montenegro) de Belíssima (Divulgação/TV Globo)

Escrita por Silvio de Abreu, a novela Belíssima (2005/06) deu a Fernanda Montenegro uma de suas personagens mais memoráveis para os telespectadores. Bia Falcão arquitetou um plano para se apossar do patrimônio da própria neta, Júlia (Glória Pires). E para isso aproveitou-se da fragilidade emocional dela. Bia virou meme quando nem se usava a expressão para indicar algo que viraliza na internet. “Pobreza pega! Pega feito sarna!” Pouco antes a atriz deu vida à Madrasta e à Dona Cabeça nas duas jornadas de Hoje É Dia de Maria, projeto de Luiz Fernando Carvalho com base no texto teatral de Carlos Alberto Soffredini.

Outro trabalho que merece lembrança é a Iraci de Queridos Amigos (2008), minissérie de Maria Adelaide Amaral. Mãe de Bia (Denise Fraga), moça fragilizada em virtude de ter sido violentada no DOI-Codi durante a ditadura militar, Iraci a coloca contra a parede sempre. No entanto, isso não a impede de confrontar o torturador da filha quando tem a oportunidade. E também de mostrar que pode não parecer, mas ama Bia e lamenta por seu destino.

Nos anos 2010, além das novelas, o Emmy para Fernanda Montenegro com um especial que virou série

Bete Gouveia foi mais uma matriarca entregue a Fernanda Montenegro por Silvio de Abreu, em 2010. Passione a apresentou como a mãe que não sabia que seu filho Totó (Tony Ramos), separado dela há 50 anos, estava vivo e tinha filhos e um neto. Em 2012, Fernanda foi a Dona Picucha em Doce de Mãe. O especial de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo originou uma série exibida em 2014. E que conferiu à atriz a indicação ao Emmy Internacional, do qual saiu vencedora. Foi a primeira brasileira a conseguir tal feito.

Recentemente, um papel polêmico e uma “vovó assassina”

Também em 2015 foi exibida a novela Babilônia, de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga. Bastante controvertida, já em seu primeiro capítulo a trama mostrou um beijo do casal formado por Teresa (Fernanda) e Estela (Nathalia Timberg). Os dois trabalhos mais recentes da atriz na televisão foram em novelas de Walcyr Carrasco. O Outro Lado do Paraíso (2017/18) a apresentou como Mercedes, sábia “bruxa do bem” do interior do Tocantins. Na atual A Dona do Pedaço, Fernanda participou da primeira semana como Dulce Ramirez. Era a avó da protagonista Maria da Paz (Juliana Paes). E também matriarca de um clã de matadores de aluguel do qual ela mesma era uma das mais perigosas figuras.

Fernanda Montenegro não é uma; é uma infinidade de mulheres de diferentes épocas, vivências e sentimentos. Sua carreira de sete décadas faz com que ela não precise mais provar nada a ninguém. De maneira que, se não é a maior atriz do Brasil como não falta quem a considere, tampouco pode ser ignorada quando o assunto são talentos incríveis que conquistam admiração e respeito de gerações de espectadores. Diante de tudo que Fernanda representa, o #TBTdaTelevisão só tem a agradecer e reverenciá-la.