As habituais ricas e elegantes em papéis de pobre na TV, assim como Sílvia Pfeifer em Topíssima, no #TBTdaTelevisão

Na novela Topíssima, atração das 19h45min na Record TV, Sílvia Pfeifer interpreta Mariinha, mãe do mocinho Antônio (Felipe Cunha). Eles são moradores do Vidigal, no Rio de Janeiro, e lutam com dificuldade pela sobrevivência. Mariinha cozinha e cuida de um pequeno estabelecimento comercial, ao passo que o filho é taxista. Com toda a certeza, a escalação de Sílvia para esse papel pegou muita gente de surpresa. Desde sua estreia em 1990, a atriz se configurou num símbolo da riqueza e da elegância na televisão. Isso se deve em parte a seu porte, sua beleza e seu histórico de modelo. Vamos recordar essa semana no #TBTdaTelevisão outras atrizes que, assim como Sílvia Pfeifer em Topíssima, costumam interpretar personagens ricas. Mas surpreenderam ao viver pobres inusitadas da teledramaturgia.

Glória Menezes: duas vezes entre as pobres inusitadas da teledramaturgia

Os telespectadores se habituaram a ver Glória Menezes em personagens ricas. Ou ao menos remediadas, sem dificuldades para sobreviver. Mas em pelo menos duas ocasiões depois dessas características se consagrarem nos papéis dados a Glória, a atriz surpreendeu vivendo pobretonas. Janete Clair deu a ela a inesquecível Ana Preta, de Pai Herói (1979). Embora fosse proprietária de uma casa de gafieira, a Flor de Lys, Ana não nadava em dinheiro. Morava em Nilópolis, na Baixada Fluminense, com a filha Geni (Sônia Regina) e seu pai, Seu Nestor (Dionísio Azevedo). Geni era filha do bandido Bruno Baldaracci (Paulo Autran), que ocultava seu mau caráter numa cadeia de lojas e numa imagem de católico temente a Deus. Ana Maria, era esse seu nome, se apaixonou perdidamente por André (Tony Ramos), rapaz do interior que era filho de Gilda (Maria Fernanda), a esposa de Baldaracci.

Outro personagem de Glória Menezes na categoria “pobretona” foi a Rosemere de Brega & Chique (1987), de Cassiano Gabus Mendes. Ela também vivia com o velho pai, Lourival (Fábio Sabag), e tinha uma filha de seu amante. O pai de Márcia (Fabiane Mendonça) era Mário, ou melhor, Herbert Alvaray (Jorge Dória). Casado com Rafaela (Marília Pêra), Herbert usava a identidade de Mário em suas relações com Rosemere. Ao dar um golpe e forjar a própria morte, ele sumiu do Brasil. Posteriormente retornou, agora com o nome de Cláudio (Raul Cortez), totalmente mudado, e tornou a se envolver com as duas mulheres.

Beatriz Segall: em três ocasiões, a eterna Odete Roitman engrossou a lista das pobres inusitadas da teledramaturgia

Com toda a certeza, Beatriz Segall é um dos maiores sinônimos de riqueza e requinte em nossa teledramaturgia. Todavia, a consagrada atriz, falecida em 2018, também viveu uma pobretona em novelas. Aliás, não uma, mas três. Nos anos 1980, Beatriz deu vida a três mulheres bastante humildes, muito ao contrário do que estamos acostumados a vê-la encarnando. A primeira foi na Rede Bandeirantes, em Os Adolescentes (1981/82), de Ivani Ribeiro e Jorge Andrade. Iracema era uma costureira pobre, mãe de Leonel (José Parisi Jr.) e (Hugo Della Santa). O marido Diogo (Jairo Arco e Flexa) a havia abandonado, mas ressurgiu no decorrer da novela para atrapalhar o romance de Iracema com um fazendeiro rico, Joaquim (Fábio Cardoso).

Na novela global Champagne (1983/84), de Cassiano Gabus Mendes, Beatriz Segall interpretou Eunice. Mãe de Ely (Lúcia Veríssimo), que disputava Nil (Tony Ramos) com (Louise Cardoso), ela era uma dona de casa comum, casada com Camilo (Luís Carlos Arutin). Eles abrigavam em casa o inquilino Farid (Armando Bogus), que não dava certo em nenhum emprego. Em virtude de quase nunca ser lembrada para personagens assim, a atriz gostou muito de interpretar a personagem, que fazia comida numa cozinha pobre em panelas baratas e lavava roupa no tanque.

O terceiro exemplo foi na Rede Manchete, em 1987/88. Lucélia Santos interpretava a personagem-título de Carmem, novela de Glória Perez. Beatriz era sua mãe, a banqueteira Alzira. Viúva, ela havia passado por uma boa fase quando mais jovem, mas já envelhecida tinha dificuldades. Ao contrário das anteriores, essa mulher humilde não deu à intérprete maiores oportunidades em cena. Logo após o término da novela, a atriz declarou ao Jornal do Brasil ter sido Alzira seu pior papel até ali.

Fernanda Montenegro

Em Cambalacho (1986), Silvio de Abreu deu a Fernanda Montenegro uma de suas personagens mais lembradas. E também mais inusitadas diante do que ela fazia na televisão, e faz até hoje na maioria das oportunidades. Leonarda Furtado, ou Naná, era uma tremenda “cambalacheira”, armando diversos golpes ao lado do amigo Jerônimo, o Jejê (Gianfrancesco Guarnieri). No entanto, a intenção dos dois era boa e eles não enriqueciam com os apliques. Todo o dinheiro obtido era revertido, a saber, para os gastos que Naná tinha com os muitos filhos adotivos que abrigava em sua casa. Sem qualquer refinamento, Naná enriqueceu no decorrer da novela. Ela era filha do milionário Antero Souza e Silva (Mário Lago), que morreu e deixou-lhe tudo. Para revolta da jovem e ardilosa viúva Andreia (Natália do Valle).

Nathalia Timberg

Outra das chamadas pobres inusitadas da teledramaturgia foi Nathalia Timberg. Especialmente em três novelas a atriz, que completou essa semana 90 anos e foi tema do nosso #TBTdaTelevisão anterior, interpretou personagens que entram na categoria “pobres inusitadas da teledramaturgia”. Em virtude de ser ela a intérprete, claro. Um dos atuais cartazes do Canal Viva, Porto dos Milagres (2001) tem Nathalia como Ondina, empregada dos Guerrero desde os tempos do falecido Bartolomeu (Antonio Fagundes). Ela sabe que o grande herdeiro de todo o patrimônio é Guma (Marcos Palmeira), filho de Bartolomeu e Arlete (Letícia Sabatella).

Na novela Corpo Santo (1987), de José Louzeiro, Nathalia viveu a humilde Tia Maria. Ela sofre muito com a morte de Simone (Christiane Torloni) no meio da história e passa a ser uma espécie de “nova mãe” para Lucinha (Sílvia Buarque). Em 1996, O Campeão, novela da Band, apresentou a atriz como Mãezinha, que explorava menores colocando-os para pedir na rua.

Cleyde Yaconis

A própria Cleyde Yaconis dizia que a televisão a havia rotulado dando-lhe quase sempre papéis de rica, chique e má. Embora nem sempre tenha sido má, rica e chique ela foi mesmo, repetidas vezes. Mulheres de Areia (1973), Ninho da Serpente (1982) e Torre de Babel (1998) são apenas alguns dos títulos que contaram com a atriz em seu elenco. No entanto, Eterna Magia (2007), uma de suas últimas novelas, deu a Cleyde a oportunidade de viver uma mulher pobre. Dona Chica morava na fictícia Serranias e não exatamente uma miserável. Aliás, toda sua família trabalhava muito e eles viviam dignamente. Todavia, ante o resto da carreira da atriz na televisão a personagem foi uma das mais pobres, economicamente falando, ou mesmo a campeã no quesito. O que a habilita a estar entre as pobres inusitadas da teledramaturgia.

Dona Chica havia sido professora de piano da protagonista Eva Sullivan (Malu Mader), e era avó do par de Eva, Conrado (Thiago Lacerda). Costurava e bordava com apuro e era afeita a ditados bastante espirituosos com os quais expressava sua sabedoria e experiência de vida. Só para exemplificar, “A panela leva o fogo, mas a pipoca é que pula!”.