30 anos de Tieta: lembrança do #TBTdaTelevisão nesta semana

Em 14 de agosto de 1989, portanto, há 30 anos, a Rede Globo estreou em seu horário nobre um de seus grandes sucessos: Tieta. O romance de Jorge Amado Tieta do Agreste, publicado em 1976, deu origem à novela escrita por Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares. O #TBTdaTelevisão desta semana celebra os 30 anos de Tieta, um marco da teledramaturgia brasileira.

Uma mulher nascida para chocar a família e balançar a vida de toda uma cidade

Protagonizada por Betty Faria, a trama conquistou o Brasil por conta de seus personagens, costumes, bordões, figurinos e trilha sonora. (Divulgação)

Antonieta, ou Tieta (Cláudia Ohana na primeira fase, Betty Faria na segunda), é uma mulher bonita, atraente, a “cabrita” desejada por todos os homens de Santana do Agreste. Desfruta plenamente sua sexualidade, com um mascate (José de Abreu) e com um forasteiro de melhor condição social, Lucas (Herson Capri). Só que ela desperta a inveja e a ira da irmã mais velha, Perpétua (Adriana Canabrava/Joana Fomm). Esta coloca o pai, Zé Esteves (Sebastião Vasconcelos), contra Tieta, ao falar para ele sobre as atitudes “indecentes” da moça.

Zé Esteves escorraça a filha da cidade diante de toda a população. Ela jura vingança pela humilhação. Embora ressentida, Tieta logo começou a mandar dinheiro para a família, e assim foi durante 20 anos, até seu retorno à cidade. Nesse ínterim, ela se estabeleceu em São Paulo como prostituta e depois cafetina. Só que para a cidade Tieta se casou com um industrial riquíssimo e ficou viúva.

A morta mais viva do que nunca: Tieta volta a Santana do Agreste

O retorno de Tieta se dá numa situação inusitada. Exuberante, ela contrasta com o tom sem graça dos conterrâneos e invade a igreja do Padre Mariano (Cláudio Corrêa e Castro) durante uma missa em sua memória. Sua família a teve em conta de morta, já que o sagrado cheque de todo mês não havia chegado. O forte apelo sexual de sua figura, agora ampliado pelos anos de ausência e pela maturidade que a manteve bonita, mais sua condição de rica e liberada, fizeram de Tieta uma figura tratada a pão-de-ló pela mesma cidade que nada fez por ela quando o pai a escorraçou. Especialmente Perpétua, que a odeia, mas não vê nada de mais em bajulá-la para obter vantagens.

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse de Tieta

Era como se intitulavam os quatro grandes amigos Ascânio (Reginaldo Faria), Osnar (José Mayer), Timóteo (Paulo Betti) e Amintas (Roberto Bomfim). De melhor condição entre todos, Ascânio partiu jovem para o Rio de Janeiro, a fim de estudar. Seu regresso a Santana se dá pouco antes do de Tieta. Sua esposa Helena (Françoise Forton) não se adapta à vida na cidade. Ele se apaixona por Leonora (Lídia Brondi), suposta enteada de Tieta, na verdade uma das prostitutas empregadas por ela em São Paulo. Já Osnar era o maior mulherengo da cidade, de cujo membro sexual se falava muito. A bela Carol (Luiza Tomé), amante do comerciante Modesto Pires (Armando Bogus), se apaixonava por ele.

Timóteo foi obrigado a se estabelecer com um armarinho e deixar a boemia e as mulheres de lado quando se casou com Elisa (Tássia Camargo), irmã mais nova de Tieta e Perpétua. Ela é filha de Tonha (Ingra Liberato, depois Yoná Magalhães), segunda mulher de Zé Esteves, oprimida por ele. Sonhadora e desejosa de conhecer o mundo que acompanha pelas revistas e novelas, Elisa tinha Tarcísio Meira como príncipe encantado. Tanto ela quanto Timóteo eram um pouco infelizes com o casamento, mas se amavam. Amintas era solteiro convicto, proprietário de uma loja de material de construção. No decorrer da história se envolveu com Amorzinho (Lília Cabral), uma das beatas do grupo de Perpétua. Na verdade, ela era uma viúva bastante fogosa, e acabou se libertando da influência da carola.

Nascida para chocar

Na volta a Santana do Agreste, Tieta se envolve com o sobrinho mais velho, Ricardo (Cássio Gabus Mendes). Como se não bastasse o parentesco, havia outro componente “sacrílego” no romance: a condição de seminarista do rapaz. O então cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, D. Eugênio Sales, criticou o erotismo da novela. Mas muitos dos católicos fervorosos foram também fiéis à produção. No decorrer da história, Tieta se envolve com Osnar, apaixonado por ela desde a juventude. Ao passo que Ricardo se apaixona por Imaculada (Luciana Braga). Esta foi vendida pela mãe para o Coronel Artur da Tapitanga (Ary Fontoura), prefeito da cidade, que mantinha em sua casa diversas “rolinhas”, jovens das quais obtinha prazeres sexuais e a quem dizia ensinar a ler e escrever.

O prefeito de fato era Ascânio, que também voltou à cidade após longa ausência disposto a modernizar Santana do Agreste e trazer o progresso ao local. Por isso ele pretendia explorar o potencial turístico de Mangue Seco, contra o que se colocava o Comandante Dário (Flávio Galvão), morador da região e defensor não apenas da natureza como do sossego da região. Uma grande ameaça era a fábrica de dióxido de titânio que desejava se instalar por ali. Por trás dela estava Arturzinho (Marcos Paulo), filho do coronel, que usava a identidade de Mirko Stefano.

Personagens inesquecíveis da novela

Joana Fomm
Perpétua em Tieta (Divulgação/ TV Globo)

Muitos personagens de Tieta se tornaram antológicos. Com efeito, alguns deles são os de maior destaque na carreira de seus intérpretes. Betty Faria e Joana Fomm têm em Tieta e Perpétua trabalhos seus sempre lembrados. O mesmo pode ser dito de José Mayer, Paulo Betti, Tássia Camargo, Arlete Salles, Luciana Braga, entre outros. Mirian viveu Dona Milu, mãe de Carmosina e dona de uma pensão. Seu bordão “Mistééério…”, entoado diante dos acontecimentos da vida da cidade, é repetido até hoje. Consorte era o turco Chalita, comerciante local apaixonado por Amorzinho, aquela que usava “calçola vermelha”. Sequeira interpretou o mendigo Bafo-de-Bode, sempre malcheiroso e maltrapilho, portador de grandes verdades sobre o povo hipócrita de Santana. Elias Gleizer era o Seu Jairo, cuja Marinete comunicava a cidade com o mundo.

Nos 30 anos de Tieta, os antecedentes da novela

Saudoso, Sebastião Vasconcelos deixou sua marca em Tieta como Zé Esteves
Sebastião Vasconcelos como Zé Esteves (Reprodução)

Os direitos de adaptação do romance de Jorge Amado para a televisão haviam sido adquiridos pela própria Betty Faria, que ao ler a história ficou muito interessada na personagem. Inicialmente, uma minissérie seria produzida a partir da obra literária, com texto de Doc Comparato e direção de Roberto Talma. Todavia, em 1989, para substituir O Salvador da Pátria, de Lauro César Muniz, a Globo decidiu colocar às 20h a adaptação de Tieta do Agreste. Anteriormente, o horário seria ocupado por Barriga de Aluguel, de Glória Perez. Na ocasião a novela também chegou a ser intitulada Pecado Original e teria Glória Pires no elenco, a saber. O diretor seria Reynaldo Boury, que integrou a equipe que dirigiu Tieta.

Só para exemplificar, Glória Pires, Dennis Carvalho, Sílvia Buarque e Osmar Prado foram alguns atores considerados inicialmente para o elenco da novela. No entanto, nenhum deles integrou o projeto. Além disso, Betty Faria demorou alguns capítulos a aparecer, não apenas por haver uma primeira fase como também porque a atriz precisou de um mínimo descanso. Ademais, ela participou da totalidade de O Salvador da Pátria, no papel da fazendeira Marina Sintra.

No início dos anos 1980, a cineasta Lina Wertmuller dirigiria uma versão para o cinema, com Sophia Loren no papel-título. Todavia, apenas em 1996 Tieta do Agreste chegaria à tela grande, com Sônia Braga. Marília Pêra viveu Perpétua e Chico Anysio foi Zé Esteves, sob a direção de Cacá Diegues.

Nos 30 anos de Tieta, apenas três exibições

Exibida em 33 semanas entre agosto de 1989 e março de 1990, Tieta curiosamente teve apenas duas reapresentações ao longo desses 30 anos. Diz-se “curiosamente” em virtude de seu grande sucesso e de nesse ínterim a prática de reprisar novelas que já haviam sido reprisadas ter se tornado frequente. A primeira reprise ocorreu entre setembro de 1994 e abril de 1995, no Vale a Pena Ver de Novo. Já a segunda estreou somente 22 anos depois da primeira, no Canal Viva, que exibiu Tieta de maio a dezembro de 2017. Só para ilustrar, a novela foi a primeira a ter “maratonas” do canal, com os seis capítulos da semana novamente apresentados nas noites de domingo. Em 2012 a produção foi lançada pela Globo Marcas num box com cerca de 39 horas divididas em 11 DVDs.