#TBTdaTelevisão: Os 30 anos de Que Rei Sou Eu?

Em 13 de fevereiro de 1989 a Rede Globo exibiu o primeiro dos 185 capítulos de um de seus grandes sucessos: Que Rei Sou Eu?, de Cassiano Gabus Mendes. Fábio Costa relembra a produção no #TBTdaTelevisão desta semana.

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No #TBTdaTelevisão, Avilan, sua corte, seu povo sofrido e o descalabro geral

Que Rei Sou Eu? se passava no fictício reino europeu de Avilan, em 1786. A data não foi escolhida por acaso. As muitas transformações pelas quais passava toda a Europa na ocasião, as quais desembocaram na Revolução Francesa em 1789, possibilitavam o traçado de alguns paralelos com o Brasil da segunda metade dos anos 1980. A Nova República, após 21 anos de ditadura militar e quase 30 sem eleições presidenciais diretas, era prato cheio para uma crítica contundente e bem-humorada, a exemplo da oferecida pela novela.

Jean Pierre (Edson Celulari) é o líder dos rebeldes, que estão cansados da forma como o povo de Avilan vive. Enquanto os camponeses se matam de trabalhar e morrem de fome, os ricos do reino mamam nas tetas da Coroa. Tanto a Rainha Valentine (Tereza Rachel) quanto seus conselheiros estão pouco se lixando para a desigualdade social. Apenas Bergeron (Daniel Filho), o conselheiro da Moeda, é mais sensível e preocupado. Vanoli (Jorge Dória), conselheiro do Rei; Crespy (Carlos Augusto Strazzer), o do Trabalho; Bidet (John Herbert), o dos Mares; Gaston (Oswaldo Loureiro), o das Armas; e Gérard (Laerte Morrone), o conselheiro da Alimentação, são corruptos e ambiciosos. Cabe a lembrança de que Bidet era conselheiro dos Mares de um reino que sequer era banhado por mar algum. Os conselheiros serviam a Gabus Mendes como ferramenta de sátira de figuras da nossa política como ministros de Estado e membros do Congresso.

A sórdida trama para tomar de assalto o trono de Avilan

Jean Pierre não sabe disso, mas com a morte do Rei Petrus II (Gianfrancesco Guarnieri) no começo da história, o trono pertence a ele. O rapaz é filho bastardo do monarca com um amor da juventude, Maria Fromet. Fora criado por Loulou Lion (Ítala Nandi), a dona da taverna local. Todavia, sua mãe verdadeira é Maria, ou melhor, Lenore Gaillard (Aracy Balabanian). Anos depois, casada com o nobre François (Edney Giovenazzi), Maria/Lenore está de volta a Avilan disposta a reencontrar seu filho.

Ao descobrirem a existência de um príncipe bastardo cuja ascensão colocará todos em risco quanto a seus privilégios e operações de corrupção, os nobres de Avilan entram em polvorosa. O bruxo Ravengar (Antonio Abujamra), conselheiro-mor do rei e da rainha, arquiteta um plano.

O mendigo Pichot (Tato Gabus Mendes) é coroado Rei Petrus III, e ocupa o trono que pertence a Jean Pierre. Manipulado pelo “mestre” Ravengar, ele não passa de uma marionete. Todavia, demonstra o desejo de criar asas próprias. E é claro que isso não convém aos poderosos do reino. Além disso, o verdadeiro príncipe luta ao lado de seus companheiros para tomar o poder. E enquanto isso se divide entre o amor de duas mulheres. Aline (Giulia Gam) é uma das empregadas do castelo, ao passo que Suzanne (Natália do Valle) é uma moça infeliz. Ela acaba obrigada a se casar com o conselheiro Vanoli, em virtude de uma aposta perdida para ele por seu pai, Roger Webert (Fábio Sabag).

Destaques do elenco de Que Rei Sou Eu?, no #TBTdaTelevisão

Tereza Rachel
Tereza Rachel em Que Rei Sou Eu (Divulgação/ TV Globo)

O inspirado texto e a inventiva direção obtiveram do elenco desempenhos bastante marcantes. Histérica, fria e calculista, a Rainha Valentine ofereceu grandes oportunidades para Tereza Rachel brilhar. Anteriormente, a atriz já havia interpretado papéis históricos como a Clô Hayalla da primeira versão de O Astro (1977/78) e a Marta Gama de Baila Comigo (1981). No entanto, a rainha de Avilan, papel destinado inicialmente a Yoná Magalhães, provavelmente é seu trabalho mais lembrado pelo público.

Antonio Abujamra em Que Rei Sou Eu? (Reprodução/Canal Viva)
Antonio Abujamra em Que Rei Sou Eu? (Reprodução/Canal Viva)

Antonio Abujamra, consagrado ator e diretor teatral, responsável também por trabalhos significativos na televisão, também teve em Ravengar um grande marco. Com efeito, sua voz bastante característica e o visual amedrontador, de cabelos arrepiados e olhar sempre hipnotizante, compuseram a figura perfeita para o bruxo.

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A inesperada reprise da novela, ainda em 1989

O último capítulo de Que Rei Sou Eu? foi exibido em 15 de setembro de 1989. Inesperadamente, cinco semanas depois disso, em 23 de outubro, a novela foi relançada pela emissora. Desta vez, na vespertina Sessão Aventura, àquela época exibida às 17h em virtude do horário eleitoral gratuito estar no ar. A reprise ficou no ar até os últimos dias do ano. De certa forma, reforçou a teoria conspiratória de que sua mensagem era uma colaboração da Globo para a eleição de Fernando Collor de Mello…