Manuela Dias, autora de Amor de Mãe

A escritora Manuela Dias se prepara para levar ao ar o maior projeto de sua careira, a novela Amor de Mãe. A trama ganhou status de superprodução e passa a ser exibida, a partir dessa segunda-feira (25), na faixa das 21h30 na Globo. O folhetim surge com a missão de substituir A Dona do Pedaço, sucesso de audiência.

Mas parece que essa responsabilidade é encarada serenamente pela autora, que pretende contar uma história realista sobre o amor de mãe, apontada por ela como o maior amor do muno. Na entrevista a seguir, a Dias explica como foi o processo de criação da história e adianta o que o público vai ver a partir da semana que vem.

Em algumas entrevistas, você apontou o desejo de escrever novelas. Fale um pouco de sua trajetória e da importância da concretização desse desejo.

Eu encaro escrever uma novela das nove, sobretudo como primeira experiência de autoria no gênero, como um enorme desafio. Não só pessoal, no sentido de emocional, físico, afetivo, mas também um desafio social que envolve muita responsabilidade. Estamos em um momento de ruptura social, polarização de formas de ver o mundo. É preciso criar laços de reconexão social. E eu acredito que toda reconexão passa pelo afeto. Meu desejo é fazer uma novela que fala sobre o maior amor do mundo, que é o amor de mãe.

Mães do Brasil

Por que você escolheu escrever uma novela tendo a maternidade como tema central?

Quero criar os relevos da figura materna nesse Brasil tão diverso, muitas vezes injusto, e ao mesmo tempo tão vivo e sedutor. O Brasil sobrevive do suor e do leite das mães que mantém as crianças vivas. Nossa pátria é uma mátria. Tenho profunda admiração pelas mulheres brasileiras e quero fazer a elas uma louvação.

Apesar da sociedade extremamente estratificada em que vivemos, a figura da mãe é um corte vertical que une todas as classes. Todo mundo tem mãe. Mesmo morta ou ausente. Todos fomos gerados pelo corpo de uma mulher que, de alguma forma, molda a semente no berço.

Somos um país sustentado por mulheres que criam seus filhos sozinhas, apesar de tudo e contra todos. É como dizem… só quem é mãe sabe do que eu estou falando. Eu tenho uma mãe que é uma dessas leoas que desbravam o mundo abrindo um caminho de flores à sua frente, apesar do mundo inconstante.

Eu lutei muito para ter um bebê e essa novela nasce junto com Helena, minha filha de três anos.

Como você define Amor de Mãe?

Amor de Mãe conta a história de famílias que se amam. Irmãos que se amam. Mães que, apesar de suas imperfeições, imaginam estar fazendo o melhor por seus filhos e que, por eles, são capazes de tudo. O que leva a narrativa é sempre a batida do coração dos personagens.

A novela é sobre o amor e as escolhas que fazemos em momentos de desespero. Pessoas muito boas podem chegar a fazer coisas extremas em uma situação-limite. Na verdade, eu acredito que todos somos capazes de tudo. As circunstâncias têm uma força bruta, capazes de forçar nosso caráter ao máximo.

A novela é sobre esse limite dentro do amor de uma mãe por seus filhos. É claro que também existem pais que experimentam esse amor transcendental pelos filhos, na novela temos pais assim.

Qual a sua intenção ao abordar na história diferentes “tipos” de mães – inclusive com relação à classe social – que têm em comum o amor incondicional pelos filhos?

As classes sociais provocam um corte horizontal na sociedade, enquanto a maternidade cria uma ponte vertical. Não importa a classe social, uma mãe sente empatia por outra, um certo pathos que cria identificação.

Além da maternidade, a novela aborda assuntos como educação e sustentabilidade. Fale um pouco mais sobre as escolhas desses temas? 

Ecologia e educação são, no meu ponto de vista (e no de tantos que eu admiro), os dois portais para um futuro melhor para o Brasil deixar de ser o país do futuro e se tornar o futuro. Então, tudo isso aparece na novela sim, mais como ambientação e motivação para os personagens do que como tema didático.

Não pretendemos ser didáticos em nenhum momento. Porém, temos a intenção de criar uma narrativa favorável à conscientização da questão do Meio Ambiente, com foco sobre a questão do plástico. Meu objetivo é sensibilizar as pessoas. Acredito que antes da conscientização é preciso criar um ambiente favorável à conscientização e, mais uma vez, isso só vai acontecer através do afeto. 

As histórias de Amor de Mãe se entrelaçam. Em um determinado momento você encontra num ambiente um personagem que já havia aparecido em outro núcleo. Em ‘Justiça’, chamou a atenção o fato de ver uma personagem sendo “figurante” em outra história. Essa construção pode ser entendida como uma marca sua? 

Acredito que quase qualquer coisa que eu escreva vá ter esse olhar: um mundo feito integralmente de protagonistas. Cada um experimenta sua vida com o foco de luz de um protagonista. Seus amores, rejeições, pequenos dilemas, engarrafamentos e brigas. Tudo é fundamental quando se trata de nós mesmos. Porque, de fato, é.

Seus personagens não são maniqueístas. É uma novela muito humana e “real” neste sentido. Acha que isso cria uma maior possibilidade de identificação do público?

Cada um está em sua própria batalha, na maioria das vezes, fazendo tudo o que pode para ser feliz sem passar a perna em ninguém. No fundo, a maioria esmagadora das pessoas acorda todo dia para fazer o bem, para ser feliz, para realizar seus sonhos. Sonhos de independência e identidade.

Aí vem a vida, com outros planos, e desafia a força interior de cada um. No final das contas, ser feliz é sempre a “melhor vingança”. E parece que o espírito brasileiro entendeu isso em algum lugar faz tempo. 

Como é repetir a parceria com José Luiz Villamarim?

O Zé é um parceiro dos sonhos. Uma pessoa que me instiga como criadora e me dá a mão ao mesmo tempo. É bom, e raro, quando uma parceria te dá as duas coisas ao mesmo tempo: frio na barriga e segurança. Sempre que entrego um capítulo para ele, não importa se é o 1 ou o 40, eu fico ansiosa para sabe se ele gostou.

Eu tento surpreendê-lo e ele também me surpreende. E, veja bem, surpreender não é deixar de fazer o combinado. Pelo contrário, é surpreender dentro do combinado, é ainda mais difícil. E ele sempre consegue!

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