Fanília Lemos de Éramos Seis em 1994
Dona Lola (Irene Ravache) e a família Lemos da versão de 1994 de Éramos Seis (Reprodução/Jornal do Brasil)

Éramos Seis atualmente está no ar pela quinta vez como telenovela, na faixa das 18h da Globo. Isso sem contar as reprises. A história de Dona Lola e sua família, na São Paulo das décadas de 1920 a 1940, sem dúvida é um grande exemplo de novela consagrada em emissoras concorrentes, que enfim chega à TV de Roberto Marinho. Todavia, esta não é a primeira vez, e provavelmente não será a última, que a Globo recorre a um sucesso “de fora” para seu setor de teledramaturgia. Abaixo, algumas novelas que a Globo poderia refazer, entre as clássicas da concorrência.

Sangue do Meu Sangue: mesmo com duas versões, uma das novelas que a Globo poderia refazer

Sangue do Meu Sangue
Sangue do Meu Sangue (reprodução)

A TV Excelsior exibiu em 1969 a primeira versão dessa história criada por Vicente Sesso e passada no final do Segundo Reinado. Posteriormente, o SBT produziu uma nova versão, em 1995. Ambas duraram quase um ano cada uma. Só para ilustrar, Tonia Carrero participou das duas, na primeira como uma das protagonistas, Pola Renon, e na segunda num papel criado especialmente para ela, Cecile. Ao lado dela, a saber, Francisco Cuoco se dividiu em papel duplo em 1969. Ao passo que nos anos 1990 seus personagens Carlos e Lúcio, pai e filho, foram vividos por Jayme Periard e Tarcísio Filho.

Não seria nada mau se a Globo resolvesse fazer uma terceira versão da história, que trata do embate entre abolicionistas e escravocratas na questão dos escravos negros, em meio a amores complicados e ambição por poder e dinheiro. Quando menos, seria uma oportunidade para mostrar o grande aparato de produção global, adequada tanto à faixa das 18h quanto a produções mais tardias como as das 23h.

Os Inocentes: uma das novelas que a Globo poderia refazer e daria gosto de ver

Ivani Ribeiro escreveu Os Inocentes para a TV Tupi em 1974. Seu ponto de partida foi o texto teatral de Friedrich Dürrenmatt, A Visita da Velha Senhora, sucesso nos palcos com Cacilda Becker. Mais recentemente, Denise Fraga também montou o espetáculo, igualmente montado por Tonia Carrero anos antes. Na cidade de Roseira, interior paulista, Juliana (Cleyde Yaconis) se instalava e passava a influenciar decisivamente na vida de todos. Por trás de sua aparente bondade, ela ocultava um grande plano de vingança contra os responsáveis pela desgraça de sua mãe, Maria Alice (Karin Rodrigues), no passado.

Como ela mesma se viu prejudicada por tudo que aconteceu, Juliana resolve descontar seu ódio nos descendentes de seus inimigos, os inocentes do título. Só que ela não esperava que se apaixonaria por Otávio (Rolando Boldrin), um dos alvos. Nem que seus filhos Vitor (Luís Gustavo) e Sofia (Ana Rosa) também se envolveriam romanticamente com figuras que ela tencionava destruir. Dá ou não dá um bom caldo para uma segunda versão? Com toda a certeza, Os Inocentes é uma das novelas clássicas da concorrência que a Globo poderia refazer.

Gaivotas

Essa seria uma boa pedida para a faixa das chamadas “superséries”, às 23h, talvez. Jorge Andrade escreveu Gaivotas para a TV Tupi em 1979, quando a história foi ao ar às 21h. Daniel (Rubens de Falco) acabou se convertendo em um dos maiores milionários do estado de São Paulo, e mesmo do Brasil. No entanto, ele jamais superou o trauma da injusta acusação da qual fora alvo 30 anos antes, quando da formatura de sua turma num colégio para ricos. Embora pobre, ele conseguira estudar lá em virtude de ter caído nas graças da diretora, Dona Idalina (Márcia Real).

A velha mestra e os colegas de sala de Daniel se reencontram três décadas depois, reunidos por ele para uma revisão de suas vidas e a elucidação do mistério. Maria Emília (Yoná Magalhães), a esnobe paixão da adolescência, ressurge, infeliz e casada com Henrique (John Herbert). Até que outro crime acontece, reforçando o entrelaçamento das vidas das gaivotas do título. Calcada em suspense e análise psicológica dos personagens, a história foi considerada pelo jornalista e pesquisador Ismael Fernandes como uma das “melhores estruturas para novela”. Com justiça.

Como Salvar Meu Casamento

Edy Lima, Carlos Lombardi e Ney Marcondes foram os autores dessa novela, que ficou marcada por ter saído do ar sem concluir sua história. A TV Tupi, que a exibia às 20h, fechou seu departamento de teledramaturgia no início de 1980, quando faltavam apenas 20 capítulos para o término de Como Salvar Meu Casamento, estreada em junho de 1979.

A emissora estava em baixa no ibope na ocasião, mas aos poucos conseguiu chamar a atenção de uma parte dos espectadores, interessada no tema central da novela. Dorinha (Nicette Bruno) e Pedro (Adriano Reys) são casados há quase 30 anos e têm três filhos: Fernando (Jacques Lagoa), Sílvia (Beth Goulart) e Rico (Paulo Guarnieri). Mas a rotina e o enfado levam Pedro a se interessar por Branca (Elaine Cristina), uma colega de trabalho mais jovem. O casal chega a se separar e Pedro vai viver com Branca. Todavia, Dorinha não deixa de tentar salvar seu casamento.

Os Imigrantes

Benedito Ruy Barbosa teve uma passagem pela TV Bandeirantes no começo dos anos 1980, quando escreveu duas novelas: Pé-de-vento (1980) e Os Imigrantes (1981/82). Ele escreveu em torno de 300 dos quase 500 capítulos da história, que atravessa 70 anos de História do Brasil: dos anos 1890 até a construção de Brasília. Wilson Aguiar Filho e Renata Pallottini o substituíram na condução dos conflitos que envolviam a construção da sociedade brasileira, a partir dos três Antonios e seus descendentes. O italiano De Salvio (Rubens de Falco), o espanhol Hernández (Altair Lima) e o português Pereira (Othon Bastos), com suas lutas, mulheres, filhos e problemas, simbolizaram todos os estrangeiros que escolheram o Brasil para viver e prosperar. Agora, quase 40 anos depois da versão da Band, não seria má ideia se a Globo decidisse apostar uma vez mais na trama. Não precisaria chegar a mais de 400 capítulos, claro…

Ninho da Serpente: um clássico de Jorge Andrade entre as novelas que a Globo poderia refazer

Outra novela de Jorge Andrade, agora para a TV Bandeirantes, em 1982. Aqui os conflitos da história giravam em torno da grande herança do Dr. Cândido Taques. Sua irmã Guilhermina (Cleyde Yaconis), a típica mulher pérfida e má com cara de anjo, manipulava os filhos, genros, netos e empregados, de modo que não perdesse o domínio da família, tampouco o da fortuna. No entanto, o enfermeiro Matheus (Kito Junqueira), que é filho bastardo de Cândido com Olímpia (Nydia Lícia) e, portanto, herdeiro legítimo do patrimônio, coloca os planos de Guilhermina a perder. Mas ela ainda tem uma esperança: casar Matheus com sua neta Lídia (Eliane Giardini).

A versão original foi dirigida por Henrique Martins. Só para ilustrar, a produção teve boa parte de suas cenas gravadas numa mansão no Jardim América, em São Paulo, especialmente alugada para os trabalhos. A propriedade era o próprio ninho da serpente. Com efeito, uma história que merece nova versão.

Kananga do Japão

Christiane Torloni e Raul Gazolla em Kananga do Japão
Christiane Torloni e Raul Gazolla em Kananga do Japão (divulgação)

Wilson Aguiar Filho morreu em 1990, pouco depois de concluir este que podemos considerar seu melhor trabalho para a televisão. Kananga do Japão foi escrita para a TV Manchete, a partir de um argumento desenvolvido por Carlos Heitor Cony e pelo próprio dono da empresa, Adolpho Bloch. Na década de 1930, Dora (Christiane Torloni) vive a derrocada econômica de sua família. Na nova realidade, ao ir morar com a família na casa do tio Epílogo (Rubens Corrêa) e arrumar emprego no Grêmio Recreativo Kananga do Japão, uma casa noturna do Centro do Rio de Janeiro, Dora se envolve com o cafetão Alex (Raul Gazolla). Ela também se envolve com o herdeiro Danilo (Giuseppe Oristânio), cuja mãe Letícia Viana (Tonia Carrero) cai de amores por… Alex. De modo que os conflitos envolvem os quatro e mais Lisette (Elaine Cristina), com quem Alex chega a se casar.

A narrativa ficcional se aliava com perfeição aos fatos da História com agá maiúsculo, de modo que as personalidades importantes da vida brasileira dos anos 1930 figuravam entre os tipos inventados pelo autor. Merecem menção os revolucionários Luís Carlos Prestes (Cassiano Ricardo) e Olga Benário (Betina Viany), bem como o jornalista Aparício Torelly, o Barão de Itararé (Marcos Oliveira). Ademais, também os artistas Aracy Cortes (Marília Barbosa) e Vicente Celestino (Luiz Carlos Buruca). Vale a pena ver de novo, ou melhor, fazer de novo.

Pantanal

Marcos Winter, Cláudio Marzo e Marcos Palmeira em Pantanal (Divulgação)
Marcos Winter, Cláudio Marzo e Marcos Palmeira em Pantanal (Divulgação)

Nos anos 2000, a imprensa divulgou que Benedito Ruy Barbosa havia cedido à Globo os direitos sobre Pantanal, novela que escreveu para a TV Manchete em 1990 e que abalou a hegemonia global. O curioso é que anteriormente Benedito desejou ter feito Pantanal na própria Globo, que acabou não apostando no projeto, o que o desgostou. Só que em 2008 Silvio Santos lançou uma reprise da novela no SBT. Mais uma vez a história de José Leôncio (Cláudio Marzo) e sua família de boiadeiros, no Pantanal mato-grossense, cativou a audiência. O repeteco jogou água fria na intenção da Globo de fazer uma versão, que se chamaria Amor Pantaneiro, a saber. Mude-se o título ou não, já é tempo de considerar a ideia novamente.

Últimos vídeos do Canal no YouTube