Sangue do Meu Sangue
Sangue do Meu Sangue (reprodução)

Em 31 de março de 1969, a extinta TV Excelsior estreou uma de suas novelas mais lembradas – e que infelizmente marcou um de seus últimos grandes momentos no setor de teledramaturgia. Escrita por Vicente Sesso, Sangue do Meu Sangue inicialmente foi exibida às 19h e trazia Francisco Cuoco se dividindo nos dois papéis masculinos principais: o bancário Carlos e seu filho Lúcio.

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A história se passa durante o Segundo Reinado, com D. Pedro II (Cláudio Corrêa e Castro) no trono brasileiro. O ardiloso Clóvis Camargo (Henrique Martins) desvia dinheiro do banco de seu sogro, Dr. Mário (Edmundo Lopes), e o roubo é descoberto por Carlos, um contador. Para não ser desmascarado, Clóvis arma um plano para se livrar dele, mandando-o fazer uma viagem e colocando em sua valise uma porção de explosivos. Provocado o acidente com Carlos, sua esposa Clara (Nicette Bruno) e os filhos Lúcio, Ricardo (Renato Machado – sim, o próprio, que depois se consagraria como jornalista) e Cíntia (Nívea Maria) o tomam como morto.

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Anos depois, o agora ex-contador recupera a memória e deseja provar a culpa de Clóvis no atentado contra sua vida, no desfalque do banco e noutros crimes, e vê o filho Lúcio envolvido com o movimento abolicionista e também com a atriz Pola Renon (Tônia Carrero), que havia sido sua amante e se tornara protetora da família após sua “morte”. Enquanto isso, Clóvis segue em seus planos de enlouquecer a esposa, Júlia (Fernanda Montenegro), a fim de se apossar da parte que cabe a ela na herança de Mário.

Sobre sua investida nas telenovelas, Tônia Carrero declarou à época da estreia: “Ainda que considere a televisão um empecilho ao teatro, porque tira um pouco do meu público de teatro, resolvi nela ingressar. Isto porque tenho a preocupação de chegar até o povo. O teatro ainda não é coisa popular, e sinto necessidade de não me apresentar somente para uma elite intelectual”. No entanto, três anos antes, em 1966, Tônia já havia protagonizado A Mulher que Amou Demais, produção da TV Rio baseada em Anna Karenina, romance de Tolstói.

Muitas das peças do rico guarda-roupa da novela eram providenciadas pelo próprio autor Vicente Sesso, em razão dos problemas sérios que a TV Excelsior já enfrentava na ocasião. Os figurinos eram assinados por Isabel Pancada, os trabalhos de cenografia eram de Rubens Barra, a direção de TV de Reynaldo Boury, e a iluminação, de César Douglas.

A respeito da novela e de suas intenções, o diretor Sérgio Britto – que também participava do projeto como ator, no papel do Major Paranhos, que se debruça sobre o caso do acidente de trem sofrido por Carlos, devido a motivos profissionais e particulares – declarou por ocasião da estreia: “A ideia, de Sesso e também minha, é de que se fizermos novela de época, poder-se-á ter algo mais que o simples melodrama. Desta vez escolhemos o Brasil em pleno período abolicionista. Através da música, dos costumes, poderemos dar um bocadinho, por mínimo que seja, de cultura”.

Chamada provisoriamente de Eterno Amanhã antes da estreia, a novela alcançou bons resultados de audiência, mas provocou certa celeuma com a Censura, que implicava com os personagens abolicionistas e a abordagem de tal questão no enredo. Não custa lembrar que o Ato Institucional nº 5 havia entrado em vigor há poucos meses na época (em dezembro de 1968) e o regime militar que o país vivia endurecia mais e mais. Os problemas com os censores levaram à mudança do horário de apresentação da novela, que depois mudou para as 20h, faixa na qual permaneceu até o desfecho, exibido em 30 de janeiro de 1970. No elenco ainda as presenças de Rodolfo Mayer, Armando Bogus, Sadi Cabral, Mauro Mendonça, Rosamaria Murtinho, Rita Cleós, Aldo de Maio, Gilberto Sálvio, Geny Prado e Salomé Parisio, além de participações especiais como as de Nathalia Timberg e Silvio de Abreu.

Em julho de 1995, o SBT estreou uma segunda versão da história, inicialmente escrita por Rita Buzzar e Paulo Figueiredo. Só que tantas foram as queixas de Vicente Sesso às adaptações feitas por Rita e Paulo que ele acabou por assumir a autoria do remake, insatisfeito com os perfis dos personagens na nova montagem. Nos papéis centrais estiveram Jayme Periard (Carlos), Tarcísio Filho (Lúcio), Lucinha Lins (Helena, equivalente a Clara), Bia Seidl (Pola), Lucélia Santos (Júlia), Osmar Prado (Clóvis) e Rubens de Falco (Dr. Mário).

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