O Profeta (Divulgação)

No dia 29 de abril de 1978, a Rede Tupi levou ao ar o capítulo final de um de seus últimos sucessos: a novela O Profeta, de Ivani Ribeiro, com direção de Antonino Seabra, Álvaro Fugulin e Edison Braga, que havia estreado em 29 de outubro de 1977.

Era a história de Daniel (Carlos Augusto Strazzer), um jovem que possui o dom da premonição. Ele leva uma vida normal e namora Ruth (Glauce Graieb), filha de Maria Luiza (Márcia de Windsor). Mas um dia seu dom o faz ter consciência de algo terrível: ele prevê a morte do melhor amigo, Murilo (Walter Prado). Daniel acaba se apaixonando pela noiva de Murilo, Sônia (Elaine Cristina), e acaba por isso sendo acusado de provocar a morte do rapaz para poder assim ficar com a “viúva”. Carola (Débora Duarte), irmã de Ruth, totalmente seu oposto – embora também seja bonita, não cuida da aparência nem faz o tipo da mulher sexy –, acaba chamando a atenção de Daniel, por quem sempre fora apaixonada.

Débora Duarte na capa do suplemento “Amigão”, da revista Amiga
Débora Duarte na capa do suplemento “Amigão”, da revista Amiga (Divulgação)

O pai de Daniel e Ester, Francisco (Aldo César), promove em sua casa reuniões espíritas, enquanto a mãe Celina (Carminha Brandão) é uma católica fervorosa e o tio Olavo (Luiz Carlos de Moraes) é padre. Essas correntes religiosas contribuem cada uma com sua visão da paranormalidade de Daniel, além do candomblé do Pai Romão (João Acaiabe) e da visão clínica do psiquiatra Dr. Michel (Roberto Maya).

Reunião espírita comandada por Francisco (Aldo César)
Reunião espírita comandada por Francisco (Aldo César) (Divulgação)

Uma personagem de destaque na história é a secretária Tereza (Irene Ravache), uma das moradoras da casa de Sônia e de seu pai, Piragibe (Abrahão Farc), onde aluga um quarto. Solteira e despachada, Tereza não “desencalha” porque não quer, e Piragibe implica muito com ela. No decorrer da história ela se envolve com o tímido Armando (David José), que também mora na casa.

Tereza e Piragibe
Tereza e Piragibe (Reprodução)

Também merecem destaque os sócios Clóvis (Cláudio Corrêa e Castro) e Heitor (John Herbert), donos de um supermercado. Heitor se encanta por Maria Luiza – que acaba se envolvendo com Clóvis, indo contra a preferência dele por mocinhas.

Clóvis e Maria Luiza
Clóvis e Maria Luiza (Divulgação)

Mal sabe Daniel que tem um inimigo dentro da própria família. É João Henrique (Rolando Boldrin), o ex-marido de sua irmã Ester (Ana Rosa) e pai de sua sobrinha Mariúcha (Suzy Camacho). Influenciado pelo cunhado, Daniel acaba utilizando seu dom da premonição para ganhar dinheiro, e suas aparições em programas de televisão mais o consultório que abre para receber clientes rendem a ele o apelido de “O Profeta”. O uso comercial do dom fez parte de uma trama de João Henrique para se vingar de Daniel, que com uma de suas visões – a do cunhado acompanhado de uma mulher – provocou a separação dele de Ester. Descobre-se depois que a tal mulher na verdade era um espírito que estava sempre com João Henrique, não uma amante. Daniel, criança na ocasião da visão, não tinha ainda o discernimento necessário para entender que aquilo tudo era uma manifestação de seus dons.

No decorrer da história, após as grandes dificuldades que se abatem sobre sua vida, cada vez mais tumultuada, e sob acusações de charlatanismo que o levam a ser preso, Daniel acaba apenas desejando viver como um homem comum, sem apelar para a paranormalidade para conseguir seus objetivos, e ser feliz ao lado de Carola, que enfim o conquista. A ambição desmedida que o acometeu provoca sua separação de Sônia, que termina a novela ao lado de Heitor.

O Profeta substituiu Um Sol Maior (1977), de Teixeira Filho, que não repetiu o sucesso do autor no mesmo horário com Ídolo de Pano (1974/75). O cartaz da Globo, Espelho Mágico, de Lauro César Muniz, desagradou parte do público com sua proposta metalinguística de mostrar uma novela dentro de outra, cujos atores eram os personagens fictícios interpretados pelos atores reais, e a Tupi conseguiu chamar a atenção com a história de Ivani Ribeiro. Para correr atrás do prejuízo, a sucessora de Espelho Mágico também recorreu ao extrassensorial para atrair a audiência: foi O Astro (1977/78), de Janete Clair, que conseguiu trazer de volta o público perdido para a Tupi – embora a trajetória de O Profeta tenha sido de sucesso do começo ao final, rendendo-lhe, por exemplo, diversas capas de revistas, coisa que já na época era praticamente restrita às produções globais.

Débora Duarte e Carlos Augusto Strazzer na capa de uma edição da “Amiga”
Débora Duarte e Carlos Augusto Strazzer na capa de uma edição da “Amiga” (Divulgação)

A novela teve rápidas aparições de D. Paulo Evaristo Arns, então Arcebispo de São Paulo; do médium Chico Xavier; e da apresentadora Hebe Camargo; e do ator e apresentador Walter Forster. No elenco, ainda as presenças de Yolanda Cardoso, Jacques Lagôa, Régis Monteiro, Rildo Gonçalves, Martha Volpiani, Ana Luiza Lancaster, Léa Camargo, Wilma de Aguiar e Eudósia Acuña, entre outros.

Na trilha sonora da novela merece destaque a faixa “Quem Dá Mais”, composta e interpretada por Antonio Marcos. A pungente letra fala de como o homem dá valor ao material ao invés do espiritual e do aspecto emocional da vida. “Quem dá mais por um cara que ousou acreditar nos seus? Quem dá mais por um homem que insiste na palavra ‘Deus’? Quem dá mais por um louco que discorda do computador? Quem dá mais por um velho ultrapassado que ainda crê no amor?”

Frame do encerramento dos capítulos da novela
Frame do encerramento dos capítulos da novela (Divulgação)

Num momento de dificuldade da emissora, que na ocasião se desmantelava aos poucos, a Tupi colocou no ar uma reprise de O Profeta às 21h, de 31 de outubro de 1979 a 28 de fevereiro de 1980. Essa reprise substituiu uma das últimas novelas da casa, Gaivotas (1979), de Jorge Andrade. Em 2006/07, a Rede Globo exibiu uma versão adaptada também de nome O Profeta, escrita por Duca Rachid e Thelma Guedes com supervisão de texto de Walcyr Carrasco. Thiago Fragoso, Paola Oliveira, Fernanda Souza e Carol Castro interpretaram os personagens equivalentes aos de Carlos Augusto Strazzer, Elaine Cristina, Débora Duarte e Glauce Graieb, respectivamente.

*Por Fábio Costa. 

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