Edison (Bruno Guedes) e Graça (Rayanne Morais) em Topíssima
Edison (Bruno Guedes) e Graça (Rayanne Morais) em Topíssima (Reprodução/Record TV).

Quem acompanha a rotina dos canais de televisão no Brasil sabe que nem sempre qualidade e audiência andam juntas. Que o diga Topíssima, atual trama das 19h da Record TV. Mesmo com um elenco talentoso, uma história ágil e o texto afiado e criativo de Cristianne Fridman, a saga de Sophia (Camila Rodrigues) e Antônio (Felipe Cunha) simplesmente não engrena no Ibope!

Isso pode acontecer na telinha pelos mais diversos fatores. Às vezes, uma boa novela pode estar encaixada num horário ruim, ou mesmo ser prejudicada por uma eventual fase ruim da emissora que a leva ao ar. Seja como for, são muito os casos de folhetins de qualidade para que o público simplesmente torceu o nariz. Relembremos alguns.

Victor Hugo, Simone Spoladore e Fernando Pavão em cena de Pecado Mortal (Reprodução / Record TV)

Pecado Mortal (2013)

Único folhetim que Carlos Lombardi chegou a assinar para a Record TV, esta história ambientada na década de 1970 e centrada na disputa pelo poder entre bicheiros chegou a ser unanimidade entre a crítica pela qualidade da produção, elenco e roteiro.

Em momento algum logrou, porém, conquistar o público. O tom fortemente policialesco e sarcástico do texto talvez tenha espantado boa parte da plateia feminina, decisiva quando se trata do êxito de um folhetim.

Antes de Os Dez Mandamentos, a Record teve outro fracasso, Vitória (Divulgação)
Antes de Os Dez Mandamentos, a Record teve outro fracasso, Vitória (Divulgação)

Vitória (2014)

Exibida logo na sequência de Pecado Mortal, foi tão ou mais rechaçada que sua antecessora. Os primeiros capítulos, é fato, ostentavam um certo tom de dramalhão mexicano. Uma vez contornado este problema, porém, Vitória se revelou um novelão de primeira qualidade, ágil e eletrizante. Destaque para as interpretações de Juliana Silveira e Gabriel Gracindo, como a vilã neonazista Priscila e o cruel psicopata Iago.

Fernanda Vasconcellos e Marjorie Estiano
Fernanda Vasconcellos e Marjorie Estiano em A Vida da Gente (Divulgação/ TV Globo)

A Vida da Gente (2011)

Em sua novela de estreia, Lícia Manzo surpreendeu a crítica com seu sofisticado estilo de escrever. Algo próximo da obra de Manoel Carlos, porém ainda mais complexo e sutil. A história, centrada na retomada de Ana (Fernanda Vasconcellos) sobre a própria vida após anos em coma, tinha todos os ingredientes para ser um arraso na audiência.

Mas não foi: mesmo constantemente elogiada na imprensa especializada, A Vida da Gente afugentou o público que vinha do sucesso Cordel Encantado, derrubando em quatro pontos a média final herdada de sua antecessora.

Laura (Marjorie Estiano) e Isabel (Camila Pitanga) de Lado a Lado
Laura (Marjorie Estiano) e Isabel (Camila Pitanga) de Lado a Lado (Divulgação/TV Globo)

Lado a Lado (2012)

Numa retratação inspirada e fiel do Rio de Janeiro dos anos 1920, Lado a Lado foi uma das mais caprichadas produções de época que se viu na tela da Globo, ainda mais na faixa das 18h. Atuações marcantes, como a de Camila Pitanga, Marjorie Estiano e Patrícia Pillar, também contribuíram para que a trama de estreia de João Ximenes Braga e Cláudia Lage fosse considerada um verdadeiro primor de qualidade – entusiasmo que os números de audiência jamais acompanharam.

Entre os fatores que justificaram a péssima média de 18 pontos ‘ostentada’ pela atração, está a má fase que a Globo enfrentava na audiência da faixa, além dos inconvenientes causados pelo horário de verão e da propanga eleitoral própria do período de exibição. A estes, vale aliar a sobreposição do didatismo histórico ao folhetim em várias fases da história – o único e decisivo defeito da novela.

Daniela (Mylla Christie) e Isabel (Lucinha Lins) em Tiro e Queda
Daniela (Mylla Christie) e Isabel (Lucinha Lins) em Tiro e Queda (Reprodução)

Tiro e Queda (1998)

Muito antes de sua ‘fase áurea’, inaugurada com o remake de A Escrava Isaura (2004), a Record TV se saiu bastante bem com uma sequência de novelas realizadas em parceria com a JPO Produções. Tiro e Queda foi o terceiro título deste filão, e o único a apostar em uma trama essencialmente policial, em detrimento dos enredos românticos e açucarados.

Ousadia que, aliás, lhe custou caro: empacou nos 2, 3 pontos de audiência, muito abaixo dos 14 alardeados como meta. Chegou a ser encurtada, tamanho o fracasso. Não obstante, é até hoje lembrada pela originalidade do texto de Luís Carlos Fusco e Vívian de Oliveira, bem como da direção de José Paulo Vallone, ambos cheios de referências cinematográficas.

A "Malhação" da Record não emplacou (Record)
A “Malhação” da Record não emplacou (Record)

Alta Estação (2007)

Em seu primeiro trabalho como novelista solo, Margareth Boury caprichou nesta inspiradíssima crônica do cotidiano jovem, centrada nas aventuras de um grupo de universitários. Embora bem desenvolvido, o formato remetia mais aos seriados americanos que a propriamente um folhetim, o que a deixou em desvantagem para competir com a dramaticíssima trama global O Profeta (2007).

De olhos nos baixos números, mudanças foram providenciadas, e o enredo de Alta Estação passou a apostar no suspense policial. Péssima ideia: além de não gerar qualquer reação no Ibope, desfigurou a proposta original da trama e comprometeu sua qualidade. Hoje, a obra é lembrada como um caso de “novela certa no momento errado”.

O casal Dani e Luca diante de estandes dos dois restaurantes
O casal Dani e Luca diante de estandes dos dois restaurantes

Água na Boca (2008)

Três anos após reativar seu núcleo de dramaturgia, com a adaptação argentina Floribella, a Band lançava sua aposta mais madura no segmento desde a retomada. Água na Boca trazia elenco afinado, bons cenários e um texto criativo saído das mãos de Marcos Lazarini.

Diferente, porém, do acontecido com sua antecessora, a simplória Dance, Dance, Dance (2007), esta trama protagonizada por Rosanne Mulholland – bem antes de se consagrar como a professora Helena, de Carrossel (2012) – naufragou nos números do Ibope.

O autor até tentou contornar o problema, conferindo tintas mais dramáticas à história predominantemente humorística. Mas não houve reação. O fracasso foi tanto que a Band resolveu deixar de produzir folhetins – e até hoje não os retomou…

Cris (Vitória Strada) de Espelho da Vida
Cris (Vitória Strada) de Espelho da Vida (Divulgação/TV Globo)

Espelho da Vida (2019)

Exemplo mais recente de novela muito aplaudida, mas pouco assistida – ao menos em tese. A trama inovadora, que misturava espiritismo e viagens no tempo, dividindo-se entre duas épocas distintas, foi de cara rejeitada pelo público da Globo às 18h.

Percebendo que, de fato, seu texto apresentava problemas – inclusive em termos de agilidade -, Elizabeth Jhin deu a volta por cima e conferiu mais ritmo e emoção à história, sem precisar descaracterizá-la. E Espelho da Vida, se não evoluiu no Ibope, explodiu em repercussão nas redes sociais e na internet, chegando a ser a trama mais vista na plataforma GloboPlay em seu período de exibição.

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