Marcos (Guilherme Fontes) e Ruth (Glória Pires) em Mulheres de Areia
Marcos (Guilherme Fontes) e Ruth (Glória Pires) em Mulheres de Areia (divulgação)

Mesmo com poucos capítulos exibidos, já se tornou voz corrente entre os noveleiros que Órfãos da Terra, a novela das 18h da Rede Globo, poderia muito bem ocupar a faixa das 21h, dada a importância de seu tema central e o grande cuidado de produção que se vê na tela. Mas a história escrita por Thelma Guedes e Duca Rachid não é a primeira a despertar essa sensação de “inadequação” no público. Hoje vamos recordar outras novelas globais que também davam a impressão de que estavam no horário errado.

Hipertensão

Em 1986, após três novelas bem-sucedidas na casa e outras dezenas em várias emissoras, Ivani Ribeiro ocupou a faixa das 19h da Globo com Hipertensão. Com toda a certeza, um horário errado para o projeto. Tratava-se de um remake de Nossa Filha Gabriela, que a autora desenvolveu para o horário das 18h30 da Tupi em 1971/72. O centro da trama era a busca da jovem artista circense Carina (Maria Zilda Bethlem) por seu verdadeiro pai entre três primos idosos que na juventude haviam se casado com trigêmeas. A saber, eram eles Candinho (Paulo Gracindo), Napoleão (Cláudio Corrêa e Castro) e Romeu (Ary Fontoura). Este último era o pai de Carina.

Antes a Globo também tivesse programado a história para as 18h, porque especialmente depois de Cambalacho (1986) foi perceptível a mudança de tom. Outra personagem de grande destaque era Donana (Geórgia Gomide), que mandava e desmandava na pequena cidade e detestava o índio Chico (Stênio Garcia). Ironicamente, o filho bad boy de Donana, Ray (Taumaturgo Ferreira), fazia amizade com o indígena.

Barriga de Aluguel

Desde meados dos anos 1980 Glória Perez desejava colocar Barriga de Aluguel no ar. Um dos motivos para a transferência de Glória em 1987 para a Manchete, onde fez Carmem (1987/88), foi justamente o engavetamento de Novos Tempos, título do projeto por um período. Posteriormente, já de volta à Globo, por pouco a novela não foi a substituta de O Salvador da Pátria (1989).

Definida como atração das 18h, enfim estreou em agosto de 1990 e logo consagrou-se como grande sucesso, aliando conflitos humanos a uma intensa discussão sobre medicina, genética e maternidade, com todas as implicações sociais, jurídicas, éticas e religiosas que o aluguel de barriga e a inseminação artificial suscitam até hoje. A jogadora de vôlei Ana (Cássia Kiss) e seu marido Zeca (Victor Fasano) decidem recorrer à barriga de aluguel para serem pais. Contratam Clara (Cláudia Abreu), jovem que está sem rumo após ser abandonada pelo namorado Tadeu (Jairo Mattos). Está deflagrado o conflito, que se agrava quando o bebê nasce e ambas as mulheres passam a disputar quem é a “verdadeira” mãe.

Além disso, os embates entre os médicos Molina (Mário Lago) e Barone (Adriano Reys), bem como o imbróglio amoroso do segundo com a esposa Aída (Renée de Vielmond) e a amante Luiza (Nicole Puzzi) e o relacionamento do primeiro com Miss Brown (Beatriz Segall) renderam pano pra manga. Com efeito, era necessária muita imaginação para dar conta dos 243 capítulos a que a novela acabou chegando. Horário errado ou não, o sucesso foi grande.

Mulheres de Areia

Olha Ivani Ribeiro aqui outra vez, com mais um remake de sucesso antigo seu. A primeira versão de Mulheres de Areia ocupou a faixa das 20h da Tupi em 1973/74. As irmãs gêmeas Ruth e Raquel (Glória Pires) e o jovem milionário Marcos (Guilherme Fontes) conduzem a trama, passada na cidade litorânea fictícia de Pontal D’Areia. Ruth e Marcos se apaixonam, mas a ambiciosa Raquel rouba o namorado da irmã e se casa com ele. No entanto, isso não faz com que ela deixe de lado seu envolvimento com o mau-caráter Wanderley (Paulo Betti). Ao passo que Ruth é alvo de uma quase devoção da parte de Tonho da Lua (Marcos Frota), rapaz órfão que desenvolveu problemas psicológicos após o trauma da morte do pai, quando ainda criança.

Na versão dos anos 1990, Ivani juntou a Mulheres de Areia outra história sua, O Espantalho, anteriormente exibida pela Record e pela TVS carioca, em 1977. Dela saiu a batalha do prefeito Breno (Daniel Dantas) contra a poluição das águas, que chegou a matar habitantes da cidade. A novela atingiu índices de audiência dignos de novela das 20h novamente (na casa dos 50 pontos), e por pouco não mudou das 18h para as 19h a fim de alavancar os índices noturnos da Globo, prejudicados pelo insucesso de O Mapa da Mina. Poderia tranquilamente ter ocupado o horário nobre, mesmo sendo um remake. Logo, o horário errado foi escolhido para o projeto. Desde então já foi reprisada três vezes (duas pela Globo e uma pelo Viva), sempre com sucesso e conquistando novos fãs.

A Viagem

Não faltou quem estranhasse ao saber que a Globo iria fazer um remake de A Viagem, de Ivani Ribeiro, e exibi-lo às 19h. Anteriormente atração da Tupi (em 1975/76), que a exibiu às 20h, a história é eminentemente dramática e romântica, e seu tema central é a vida após a morte, além da influência dos espíritos sobre os vivos. Após alguns problemas com o horário das 19h e o grande sucesso de Mulheres de Areia às 18h em 1993, a emissora decidiu atacar de Ivani uma hora mais tarde. Correu o risco de uma eventual rejeição do público, na ocasião habituado havia pelo menos 15 anos com comédias, fossem elas mais rasgadas ou mais leves. Deu mais do que certo.

A história do grande amor de Dinah (Christiane Torloni) e Otávio (Antonio Fagundes), que transcende a morte e vence inclusive a ação obsessora de Alexandre (Guilherme Fontes), o irmão marginal de Dinah, foi a maior audiência das 19h em toda a década de 1990. Também já foi reprisada três vezes desde então, e nada impede que o seja novamente. Já indo para sua quarta reprise, Por Amor (1997/98) não nos deixa negar…

Irmãos Coragem

Na primeira metade da década de 1990, a Globo pensou algumas vezes em refazer um de seus maiores sucessos, Irmãos Coragem (1970/71). O projeto do remake saiu enfim do papel em 1995, nas comemorações dos 30 anos da emissora, no horário das 18h. A história de Janete Clair foi atualizada por um conjunto de autores-roteiristas sob a supervisão de seu viúvo, Dias Gomes. Marcos Palmeira, Marcos Winter e Ilya São Paulo foram os escolhidos para interpretar os irmãos do título, respectivamente João, Duda e Jerônimo. Eles se unem contra os desmandos do Coronel Pedro Barros (Cláudio Marzo, o Duda de 1970) na pequena cidade de Coroado, interior de Minas Gerais, que vive basicamente do garimpo de pedras preciosas.

João tem roubado a mando de Barros um diamante muito valioso, e se apaixona justamente pela filha do vilão, Lara (Letícia Sabatella), que tem problemas de tripla personalidade. Pelo forte simbolismo dessa novela na história da teledramaturgia, pela data a ser celebrada e pelo apurado trabalho que se apresentou, a segunda versão de Irmãos Coragem merecia ter ido ao ar no mesmo horário das 20h que consagrou a primeira. Ou noutro que não o das 18h, horário errado… E na época não faltou quem dissesse isso, incluindo o próprio Dias Gomes. Sua repercussão ficou aquém do possível, em parte devido a essa inadequação de horário que acabou por tirar um pouco da força da história.

Negócio da China

Em 2008, Miguel Falabella já estava mais do que consolidado como dramaturgo. Afora teatro, ele já havia assinado duas novelas das 19h na Globo, que decidiu arriscar e escalou-o para a faixa das 18h, a fim de oxigená-la um pouco. Mas Negócio da China tinha mesmo cara de novela das 19h. Com efeito, ela foi ao ar no horário errado. A fuga para o Brasil do chinês Liu (Jui Huang) depois de roubar um bilhão de euros de bandidos muito perigosos, dá início a uma série de confusões que envolvem diretamente o padeiro João (Ricardo Pereira), cuja mãe Aurora (Maria Vieira) traz consigo de Portugal sem saber o pendrive com os dados necessários à tomada de posse da fortuna. Liu trata de colocar o dispositivo entre os pertences da portuguesa.

João vem para nosso país a fim de trabalhar na padaria de seu tio Belarmino (Joaquim Monchique), e se apaixona por Lívia (Grazi Massafera). Esta já foi casada com Heitor (Fábio Assunção) e tem com ele o filho Théo (Eike Duarte). Algum estranhamento do público habitual do horário, mais os problemas de bastidores motivados especialmente pela saída inesperada de Fábio Assunção devido a problemas de saúde, complicaram bastante a vida de Falabella, que depois desta jurou nunca mais escrever novelas das 18h.

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