Imagem da vinheta das transmissões do Carnaval de 1984 na Rede Manchete (Reprodução/YouTube)
Imagem da vinheta das transmissões do Carnaval de 1984 na Rede Manchete (Reprodução/YouTube)

Há 35 anos, a Rede Globo levou um susto durante o Carnaval para nunca mais esquecer. A então recém-inaugurada Rede Manchete transmitiu sozinha os desfiles cariocas daquele ano, o primeiro de operações do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. E deu uma lavada na Globo na audiência, além de iniciar a trajetória da Manchete como referência em Carnaval na televisão brasileira.

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Os antecedentes do imbróglio da transmissão do Carnaval carioca de 1984

Eleito governador do Rio de Janeiro em 1982, Leonel Brizola construiu o Sambódromo na própria Avenida Marquês de Sapucaí onde os desfiles já ocorriam, a saber. A Avenida Presidente Vargas, no Centro da cidade, também foi palco da festa. No entanto, era usada uma estrutura móvel, o que representava uma dificuldade a mais para a escolas e o público. Brizola e a Globo não mantinham bom relacionamento. Especialmente em virtude da cobertura jornalística da emissora na apuração das eleições, que favoreceu o o rival do gaúcho, Moreira Franco.

Conforme ocorriam as negociações de direitos de transmissão, houve atritos entre a Globo, na pessoa de seu superintendente, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, e o vice-governador Darcy Ribeiro, homem forte do governo estadual e um dos pais do Sambódromo. Com efeito, tanto assim que o local desde 1987 leva seu nome. A Globo discordava da proposta de cálculo de pontos para definir a escola campeã e de aspectos como a Praça da Apoteose, pelo absurdo que ela representaria se utilizada como proposto. Darcy a havia imaginado como um local no qual as escolas, após desfilarem, fariam uma espécie de giro e passariam por dentro de si mesmas. Imagine centenas de pessoas devidamente ornamentadas, carros alegóricos, instrumentos musicais e tudo mais fazendo isso.

Além de motivações políticas, outros fatores que tiraram a Globo da transmissão

A discordância foi um dos motivos para a Globo não fazer questão de transmitir os desfiles naquele ano. Além disso, questões internas de produção, como equipamento comprometido com a produção de outras atrações, espaços comerciais já vendidos para uma grade que não considerou os desfiles quando negociada e a percepção de que o investimento no Carnaval daquele ano poderia não compensar. Pela quantia de 210 milhões de cruzeiros, a Manchete teve para si os desfiles de 1984 com exclusividade. Houve boatos na época de que a Globo na última hora tentou dividir a transmissão, mas foi tarde demais.

Conta Boni em seu “O Livro do Boni” (Casa da Palavra, 2011) que havia combinado com um dos diretores da Manchete, Moysés Weltman, que este compraria os direitos para a Manchete e depois os dividiria com a Globo. Weltman havia trabalhando na Globo na década de 1960, e escreveu novelas como Rosinha do Sobrado (1965) e O Rei dos Ciganos (1966). No entanto, segundo Boni, fechado o negócio com o governo do Rio de Janeiro, Weltman não lhe respondeu mais. Tampouco Adolpho Bloch respondeu ao contato de Roberto Marinho. E assim a Globo não transmitiu o Carnaval. Sua posição pública foi de desdém, mas a emissora lamentou o incidente.

As atrações da Manchete durante o Carnaval de 1984

A Rede Manchete foi com tudo para cima da concorrência, da Globo em especial, com uma cobertura que mobilizou 1.200 profissionais. Foram planejadas 84 horas de Carnaval na emissora, entre cobertura jornalística, transmissões e reprises dos desfiles, programas com os tradicionais bailes de clubes e concursos de fantasias. A Manchete acompanhava a chegada dos integrantes das escolas e dos espectadores à Marquês de Sapucaí. Logo depois, exibia os desfiles e, durante o dia seguinte, reprisava-os no aquecimento para os próximos. Fora os pequenos trechos rememorados a título de indicação das melhores apresentações por jurados e comentaristas convidados. Esquentando os Tamborins foi um dos nomes criados na ocasião para programas carnavalescos, posteriormente reaproveitado.

Paulo Stein foi o líder da transmissão, narrando os fatos da avenida e mediando os comentários. No time de comentaristas, entre outros, Fernando Pamplona, Sérgio Cabral, Albino Pinheiro, Haroldo Costa e Maria Augusta. Só para ilustrar, os dois últimos integrariam no futuro a equipe da Globo. E pouco tempo depois Maria Augusta faria uma ponta na novela global das 20h. A saber, Partido Alto, de Aguinaldo Silva e Glória Perez, sucessora de Champagne a partir de maio. Ela interpretou a si mesma, na posição de autora do argumento para o samba-enredo da escola de samba da ficção, a Acadêmicos do Encantado. O tema: “E agora, José?”, da obra de Carlos Drummond de Andrade.

“Rede Globo: programação normal e o melhor do Carnaval”

Ao abrir mão da transmissão dos desfiles das escolas de samba, a Globo decidiu cobrir o Carnaval com entradas jornalísticas ao longo da programação. Os locutores sempre citavam o slogan: “Rede Globo: programação normal e o melhor do Carnaval”. Todavia, essa programação não foi tão normal assim. Foram escalados, principalmente, filmes arrasa-quarteirão para tentar fazer frente à Sapucaí.

Na noite de domingo, 4 de março, primeira dos desfiles, foram ao ar o Fantástico e Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas, na sessão Cinema Especial. Na sequência, Adorável Pecadora, com Marilyn Monroe, no Domingo Maior. Tanto o jornalístico quanto o filme estrelado por Faye Dunaway e Warren Beatty perderam feio para a Manchete. Mas só na praça do Rio; no resto do Brasil, a Globo não só venceu como registrou índices melhores do que os de 1983, com o próprio Carnaval. Ao passo que a Manchete, aos oito meses no ar, atingia 69% da audiência carioca contra 8% da Globo. Já pela madrugada de segunda-feira, a Coruja Colorida trouxe Os Aventureiros do Ouro, com Lee Marvin.

Na segunda-feira, a Globo exibiu normalmente a novela das 20h, Champagne, de Cassiano Gabus Mendes. Logo depois, reprisou o Roberto Carlos Especial de 1983 e exibiu o filme Os Doze Condenados, também com Lee Marvin. Depois veio Síndrome da China, com Jane Fonda, Jack Lemmon e Michael Douglas, na Coruja Colorida. Pela primeira vez foi adotado no desfile o esquema de divisão em duas noites, em vigor até hoje. Na terça-feira, depois da novela foi a vez da reprise de um especial de Elba Ramalho. Coração Brasileiro havia sido exibido anteriormente em dezembro de 1983. Cinema Especial teve como atração outro filme com Faye Dunaway. Em Rede de Intrigas, a atriz teve a companhia de William Holden, Peter Finch e Robert Duvall.

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Outros números de audiência da disputa entre as duas emissoras no Carnaval de 1984

Na manhã da segunda e da terça de Carnaval, com os desfiles ainda em andamento, os números foram impressionantes. A favor da Manchete, claro. 38 pontos na segunda e 58 na terça, com o desfile da Mangueira. Só para ilustrar, na Globo ia ao ar na mesma hora, por volta de 8h30, o infantil Balão Mágico.

Pouco lembrada hoje, Voltei pra Você, de Benedito Ruy Barbosa, foi a única das três novelas exibidas pela Globo a ganhar da Manchete na segunda e na terça de Carnaval de 1984. Atração das 18h, a história do amor de Pedro (Paulo Castelli) e Liliane (Cristina Mullins) em meio às disputas de terras em Minas Gerais marcou 39 pontos na média dos dois dias em questão, ao passo que a Manchete ficou em 27.

Na segunda, a novela das 19h, Transas e Caretas, de Lauro César Muniz, perdeu para a Manchete no Rio por 40 a 29. O Jornal Nacional e Champagne registraram 28 contra 46 da concorrente, que colocava no ar o desfile da noite. Logo após, Roberto Carlos e o começo do filme renderam 15 pontos contra 56 da Manchete. A situação melhorou para a Globo na noite de terça-feira, quando a média elevou-se para 44 com as novelas no ar. No entanto, havia ainda pela frente a apuração, realizada na noite da terça… Desde então, nunca mais a Globo deixou de transmitir o Carnaval, não raro com exclusividade.

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