Logotipo do programa Rá-Tim-Bum, sucesso nos anos 1990 (Reprodução/TV Cultura)

Em 5 de fevereiro de 1990, às 9h, a TV Cultura de São Paulo lançou um de seus programas infantis mais emblemáticos nos 50 anos que completa neste ano. Com a proposta de preencher uma lacuna educacional para as crianças pequenas, o Rá-Tim-Bum trazia os ensinamentos da pré-escola envoltos em diversão. Suas gravações foram iniciadas em meados de 1989, com patrocínio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Os investimentos chegaram a um milhão de dólares, pagos também pelo Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e pelo Serviço Social da Indústria (Sesi). Em moeda nacional da época, cerca de 18 milhões de cruzados novos. Ademais, quando o programa estreou, as gravações de seus 190 episódios estavam praticamente concluídas.

Os textos do programa eram de Flávio de Souza, Cláudia Dalla Verde e Tacus. Aliás, a atuação de Flávio nos programas infantis da TV Cultura merece destaque e deferência. Ele também teve importante participação em outros projetos, como Catavento, Mundo da Lua e Castelo Rá-Tim-Bum. Flávio Del Carlo era o responsável pelas animações mostradas no programa. A direção-geral ficava por conta de Fernando Meirelles, egresso de tentativas modernas de fazer TV nos anos 1980, com produções independentes. Posteriormente, ele se consagraria como cineasta, tendo dirigido filmes como Cidade de Deus, com Kátia Lund, e Ensaio Sobre a Cegueira.

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A estrutura do Rá-Tim-Bum

Cada episódio era composto de quadros breves, que quando divididos em partes as tinham intercaladas com outros. “Senta que Lá Vem a História!” é um dos mais lembrados, com pequenas “novelinhas” que se desenrolavam em partes, do início ao fim do programa. O abacaxi que narra a própria vida, o carrinho de bebê que sai em desabalada corrida pelas ruas da cidade, a família Gorgonzola e sua farofada na praia, a princesa transformada em cisne, a professora que ganha uma surpresa dos alunos no aniversário, a família caipira que entende a importância da higiene… Muitas são as histórias inesquecíveis apresentadas neste formato.

Cores, números, palavras novas para o vocabulário das crianças, sentidos e sensações, tudo era estimulado e esclarecido pelo programa. Além disso, os próprios espectadores tinham voz, num “fala povo” infantil que os questionava sobre temas da vida em sociedade. “O que há no Rio Tietê?”, por exemplo, foi uma dessas perguntas. Com efeito, se um quadro eventualmente não interessasse, a curta duração de todos os quadros fazia com que não se mudasse de canal. Bem como havia as intervenções diárias e as eventuais, posto que um laço entre a atração e o público deveria ser criado. Tudo muito bem arquitetado desde a concepção dos personagens.

Alguns personagens inesquecíveis do Rá-Tim-Bum

Com toda a certeza, quem assistiu ao programa se lembra de seus personagens, vários deles bastante marcantes. Euclides (Carlos Moreno) é um deles. O ator era garoto-propaganda da Bombril, e surgia em cena com uma peruca vermelha. Seu cenário era uma casa pequena, de piso quadriculado em preto e branco. A cobra Sylvia sempre surgia para tirar a paz de Euclides e os dois juntos transmitirem noções de matemática.

Amigo de Euclides, Máscara (Paulo Contier) era um detetive. Em seu escritório morava o ratinho Rói, que por vezes o ajudava a se lembrar de nomes de coisas elementares. “Como é que se chama mesmo aquele creme amarelo, que a gente come com pão…?” “Você quer dizer… manteiga?”

Nina (Iara Jamra) era uma menina que jamais conseguia contar para os espectadores o porquê de sua boneca ser careca. A mãe sempre a interrompia chamando-a para as refeições ou mandando-a tomar banho. Nina, por sua vez, repetia com Careca o comportamento da mãe para com ela mesma.

Professor Tibúrcio

O professor Tibúrcio (Marcelo Tas) é um dos mais lembrados. De postura um pouco inesperada e ameaçadora, ele sempre interrogava os alunos, que eram os próprios pequenos que estavam assistindo, fora vozes em off. “Olá, classe! Prestem atenção porque a aula de hoje… É MUITO IMPORTANTE!” Apesar da postura, no entanto, o professor não era mau.

Cacilda

Cacilda (Eliana Fonseca) era a produtora do Telejornal exibido no Rá-Tim-Bum. Zé (Wandi Doratiotto) era o câmera que acompanhava a repórter Darlene Rocha. Atrapalhada e nervosa, ela era a paixão do âncora Ary Nelson (voz de Márcio Ribeiro). Cacilda aparecia às voltas com o extraterrestre Molibdênio, que fazia perguntas sobre todas as palavras cujo significado desconhecia.

Zero (Luiz Henrique) e Zero-zero (Ricardo Corte Real) eram dois extraterrestres que, a bordo de sua nave, tinham como missão identificar elementos de determinada cor, ou com determinada característica. Para espectadores adolescentes e adultos, eram questões bastante elementares, bobas até, mas para as crianças em idade pré-escolar eram as mesmas que também tinham. Esse tipo de expediente, por certo, ajudou a compor o sucesso do programa.

Até em termos de música, uma opção que não subestimava as crianças

Foi composta especialmente para o programa uma trilha sonora para adulto nenhum botar defeito, certamente. Edu Lobo e Chiquinho de Moraes foram os responsáveis pelos temas do infantil. “Acalanto”, interpretada por Caetano Veloso, embalava um belo clipe exibido de tempos em tempos. Acompanhava-se ao som da canção o sonho de um menino, que imaginava voar sobre a cidade. “Salabim”, com Maíra, era o tema da fada Dalila (Jéssica Canoletti). “Bate-boca”, com o Quarteto Quatro por Quatro, ilustrava um divertido trava-língua exibido no Rá-Tim-Bum. “O peito do pé do pobre padre, padre Pedro, é preto… Tem um tigre, tem dois tigres, tem dois tigres tristes…”

Edu Lobo soltava a voz em “Sereia”, tema de uma das muitas histórias contadas para os telespectadores. “Me ensina a fazer renda, sereia, me ensina a namorar… Casar com uma sereia, Iara, Janaína, Iemanjá…” Zé Renato cantava “A Família”, tema do núcleo de personagens que assistiam ao programa. Dele faziam parte Grace Giannoukas e Roney Facchini, como os pais, a saber, e Ivete Bonfá, como a avó materna. As crianças eram Ivo (João Vitor Silva) e Lia (Pamella Cristina Domingues). O coro dos porquinhos prontos para o banho contava com “A Refrescante Sensação”, ao passo que a cobra Sylvia tinha como tema “Sexy Sylvia”, com Rosa Marya Colin.

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“Filhotes” do Rá-Tim-Bum

Inegavelmente, a marca Rá-Tim-Bum tornou-se tão significativa que guiou a produção infantil da TV Cultura nos anos seguintes. Em 1994, estreou o Castelo Rá-Tim-Bum. Posteriormente, já em 2002, entrou no ar a Ilha Rá-Tim-Bum. Posteriormente, em 2004, entrou no ar o primeiro canal infantil pago de conteúdo exclusivamente nacional: a TV Rá-Tim-Bum. Programas como este, apesar das reprises que não os desgastam, fazem falta numa TV que parece não dar muita importância às crianças hoje. De tal forma que mal sabem os executivos que TV é hábito e a criança de hoje é o adulto telespectador de amanhã…

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