Logotipo da minissérie O Portador (Reprodução/TV Globo)
Logotipo da minissérie O Portador (Reprodução/TV Globo)

Em 1991, foi ao ar pela Rede Globo uma minissérie cujo tema central era o vírus HIV e seu impacto na vida de quem o contrai. Trata-se de O Portador, escrita por José Antonio de Souza com a colaboração de Aziz Bajur. Pela direção-geral respondeu Herval Rossano, também autor do argumento. Neste Dia Mundial de Luta Contra a AIDS, celebrado anualmente em 1º de dezembro, vamos relembrar esta minissérie.

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A trama da minissérie O Portador

Jayme Periard como Léo em O Portador (Reprodução/TV Globo)
Jayme Periard como Léo em O Portador (Reprodução/TV Globo)

O protagonista da história é Léo (Jayme Periard). Moço, bonito, ele tem sua vida virada de ponta-cabeça ao descobrir que tem o vírus HIV. A descoberta se dá quando Léo se oferece para doar sangue à mãe de uma amiga e precisa fazer o teste que identifica a presença do vírus. Quem lhe dá a fatídica notícia é o Dr. Cerqueira (Othon Bastos).

Inicialmente, Léo fica desesperado e revoltado com a descoberta. Seu contágio se deu ao receber sangue contaminado durante uma transfusão, após um acidente aéreo. Léo passa a buscar por todos os passageiros do voo, para descobrir quem lhe passou a doença, ainda que involuntariamente.

No entanto, aos poucos vai recuperando a serenidade e começa a buscar meios para viver melhor. Sua grande companheira é Marlene (Dedina Bernardelli), antiga namorada com quem mantém uma bonita relação. Inclusive com sexo, na contramão do medo irracional que toma conta de algumas pessoas que conhecem Léo. É o caso de Luciana (Lília Cabral). Ela e o marido Reginaldo (Jonas Bloch) são sócios do rapaz numa empresa de congelados. Reginaldo apoia o amigo e tenta ajudá-lo, ao passo que Luciana quer distância e até chega a afastar o filho Kikito (André Luiz) do convívio com Léo.

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A busca de Léo

“Mostrar que é possível para os portadores da doença ter qualidade de vida, apesar dos problemas.” Essa era a mensagem da minissérie, conforme declarado pelo ator Jayme Periard ao Jornal do Brasil na época da estreia. O ator apresentou um trabalho sensível e admirável, sem arroubos de estrelismo e sem desejar ofuscar Léo com sua figura.

A minissérie acompanha a jornada de aceitação da condição de soropositivo por Léo, bem como a recuperação da esperança. E seu contato com os passageiros do voo. Donos de uma pastelaria, o casal Janjão (Lafayette Galvão) e Dodora (Wilza Carla) já tiveram problemas com a polícia. O motivo: tráfico de sangue. Aurélio (Edwin Luisi) é um homossexual bastante discreto, cujo companheiro é aidético e está em seus últimos dias. Álvaro (Roberto Pirillo), por sua vez, é heterossexual e casado. O que não o impede de viver uma vida de libertinagem. Há ainda Alfredão (Jonas Mello), de comportamento bastante estranho, criador de cavalos. A jovem Jacira (Mayara Magri), que se apaixona por Léo, mas recua ao descobrir que ele é portador do HIV.

Curiosidades de O Portador

O Portador teve apenas oito capítulos, exibidos entre 10 e 20 de setembro de 1991, às 22h30. A exibição ocorria de terça a sexta-feira, padrão adotado pela emissora a partir de 1988, com poucas exceções.

Anteriormente, o dramaturgo José Antonio de Souza havia escrito uma novela para a Rede Manchete: Tudo ou Nada (1986/87). E colaborado com Silvio de Abreu em Rainha da Sucata (1990).

Aziz Bajur, por sua vez, também é autor teatral. Um de seus textos mais conhecidos, a saber, é Velório à Brasileira. Nos anos 1980 escreveu algumas novelas para o SBT, como Jogo do Amor (1985). Na mesma década, foi autor de histórias para o vespertino Caso Verdade, da Globo. Posteriormente, foi um dos autores de O Direito de Nascer (2001), também exibida pelo SBT.

O Portador teve seus trabalhos concluídos em novembro de 1990, mas só foi ao ar quase um ano depois. Na época da estreia o diretor Herval Rossano declarou não crer em qualquer preconceito, apenas em estratégias de programação da emissora. Segundo Herval, a ideia do projeto lhe surgiu quando se pôs a pensar na reação das pessoas ao descobrirem que um ente querido está com AIDS.

Uma época de grandes preconceitos

O tema de abertura da minissérie era “O Tempo Não Para”, composição de Cazuza. Falecido no ano anterior, o músico se tornou um ícone da luta contra a AIDS no Brasil.

Apesar de as primeiras notícias sobre a AIDS remeterem a quase dez anos antes, a ignorância sobre a doença ainda era grande na época. O preconceito e a desinformação levaram a diversas situações de segregação dos portadores do HIV. Mesmo celebridades como o cantor Freddie Mercury relutavam em declarar publicamente sua condição de soropositivas. Mercury, inclusive, faleceu aos 45 anos poucas semanas depois da exibição da minissérie.

Othon Bastos como Dr. Cerqueira em O Portador (Reprodução/TV Globo)
Othon Bastos como Dr. Cerqueira em O Portador (Reprodução/TV Globo)

Embora o desconhecimento sobre o assunto fosse grande, o tom adotado pela minissérie não foi professoral. O personagem do médico dava informações sobre a doença. Mas sempre com a preocupação de atores, direção e elenco para o resultado não ser artificial nem puramente didático.

Jonas Mello como Alfredão em O Portador (Reprodução/TV Globo)
Jonas Mello como Alfredão em O Portador (Reprodução/TV Globo)

Oito finais foram gravados, com Léo descobrindo diferentes companheiros de voo como os responsáveis por seu contágio. Herval Rossano optou pelo desfecho que revelava Alfredão como aquele que doou sangue infectado a Léo.

O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, então presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), elogiou a minissérie. Bem como o médico Mário Barreto Correa Lima, do Hospital Gaffrée e Guinle. Este era um dos centros de referência em tratamento da doença na cidade do Rio de Janeiro. Betinho e Correa Lima assistiram ao programa juntos na sede do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), também presidido pelo sociólogo. A ação se deu a convite do jornal Folha de S. Paulo.

No vídeo abaixo, você pode assistir ao primeiro capítulo da minissérie:

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