Logotipo do programa Praça da Alegria na Rede Globo (Reprodução/TV Globo)
Logotipo do programa Praça da Alegria na Rede Globo (Reprodução/TV Globo)

Um homem sentado num banco de praça tenta ler seu jornal e é interrompido por uma série de figuras muito curiosas. Há mais de 60 anos esse formato de humorístico está presente em nossa TV e é um clássico indiscutível. Criada por Manoel de Nóbrega em 1956, a Praça da Alegria enfim estreou na Rede Globo em 1º de maio de 1977. Teve produzidas duas temporadas, até 18 de novembro de 1978. Desde 1987, sua casa é o SBT, onde o programa foi rebatizado e passou a ser A Praça É Nossa – aludindo também à “garantia de origem” dos realizadores e humoristas envolvidos. Vamos relembrar a fase global.

No comando de Carlos Alberto de Nóbrega, A Praça é Nossa lidera audiência no SBT

Os antecedentes da fase global da Praça da Alegria

Carlos Alberto de Nóbrega e seu pai Manoel da Nóbrega
Carlos Alberto de Nóbrega e seu pai Manoel de Nóbrega (Divulgação)

Durante uma viagem à capital argentina, Buenos Aires, Manoel de Nóbrega reparou num homem que passava longos períodos de tempo numa praça. Tentava ler um jornal, mas era sempre interrompido pelos passantes, que puxavam conversa com ele. Surgiu daí a ideia para a Praça da Alegria: ele mesmo se sentaria no banco e seria interrompido pelos comediantes, um a um. A estreia ocorreu em 1956, na TV Paulista. Em 1958, o programa passou para a TV Rio e, a partir de 1963, transferiu-se para a hoje Record TV. Foi o início de uma fase áurea da atração, que foi até 1970.

Nóbrega faleceu em 1976, e para homenageá-lo no primeiro aniversário de sua morte a Rede Globo decidiu retomar o formato. Para ocupar o banco, Luiz Carlos Miele. O filho de Manoel, Carlos Alberto de Nóbrega, era o responsável pelo texto. Ao seu lado, Irvando Luís e Wilson Vaz. Na direção, Mário Lúcio Vaz e Carlos Alberto Loffler. O programa foi escalado para o final da tarde de domingo.

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A Praça da Alegria na Globo

Zilda Cardoso e Luiz Carlos Miele na Praça da Alegria (Divulgação/TV Globo)
Zilda Cardoso e Luiz Carlos Miele na Praça da Alegria (Divulgação/TV Globo)

Os tipos bastante conhecidos que se sentavam no banco foram resgatados pela Globo na Praça da Alegria. Com efeito, a popularidade dos personagens se manteve como se o programa não tivesse saído do ar por alguns anos. Catifunda (Zilda Cardoso), a ladra ladina, com seu charuto inseparável. Rosauro (Simplício), o menino que gritava “Ô, home!”. Jorge Loredo, o eterno Zé Bonitinho, aqui na pele do mendigo culto e refinado. Outro mendigo (Moacyr Franco), que contava histórias totalmente sem nexo.

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Cremilda (Consuelo Leandro), a mulher do “meu marido Oscar”. Kate Lyra e a norte-americana ingênua, que caía em todas as artimanhas para levá-la na conversa em nome de suas belas formas – “Brasileiro é tão bonzinho…”. A Velha Surda (Rony Rios), que tirava do sério um suposto velho conhecido seu, Apolônio (Viana Júnior). Walter D’Ávila como o iletrado e mal-humorado leitor que insistia em ter razão, mesmo sem saber ler direito.

Além, é claro, de Ronald Golias como o esperto Pacífico. Abaixo, trecho de uma participação especial de Francisco Cuoco na Praça. Na ocasião, a saber, o ator interpretou seu personagem da novela O Astro, de Janete Clair: Herculano Quintanilha.

Algumas mudanças na Praça da Alegria

Ao final de 1977, a Praça da Alegria sofreu algumas alterações. Além do grande número de convidados especiais, o programa passou a contar com mais duas praças, uma no Recife e outra em São Paulo. A praça pernambucana era comandada por Aldemar Paiva. A paulista ficava a cargo de Carlos Alberto de Nóbrega. Comediantes das duas cidades se sentavam nos respectivos bancos, ao passo que Miele seguia no banco carioca.

A respeito de Miele, uma curiosidade é que o apresentador por pouco não esteve à frente do programa. Alguns nomes passaram por testes, mas Boni, diretor de operações da emissora, pensou em Miele desde o começo. Ainda assim, houve quem duvidasse do faro do manda-chuva. Em virtude de sua imagem classuda, elegante, de smoking, em projetos sofisticados, havia a desconfiança de que Miele, falecido em 2015, não condissesse com o espírito da Praça. Um ledo engano.

A Praça É Nossa: a Praça da Alegria segue imbatível no coração do público

Carlos Alberto de Nóbrega
Carlos Alberto de Nóbrega (Divulgação)

Apesar de ao longo dos anos ter sido acusada de apelação e erotismo exacerbado, A Praça É Nossa tem há 31 anos lugar cativo na grade do SBT. Desde 1987, Carlos Alberto de Nóbrega ocupa o lugar que foi de seu pai. Eventualmente, seu filho Marcelo também faz as vezes de homem do banco.

Vários dias da semana, vários horários… No entanto, o público da Praça é fiel e se renova. Centenas de humoristas, seja veteranos, seja pouco experientes, estiveram presentes no banco nesses mais de 60 anos. O segredo é a simplicidade, em contraste com propostas que não atingem a mesma penetração junto ao “povão”. Embora tenha havido grandes produções para programas especiais passados em outros locais e épocas, por exemplo, o humor de comunicação fácil, sem firulas nem pedantismos, fez e faz a glória da Praça. Foi assim na Globo, é assim no SBT e provavelmente será sempre.