Francisco Cuoco na abertura de O Astro, em 1978 (Reprodução/TV Globo)
Francisco Cuoco na abertura de O Astro, em 1978 (Reprodução/TV Globo)

Um dos mais queridos ídolos da teledramaturgia, Francisco Cuoco completa neste 29 de novembro 85 anos de vida. Nascido em 1933 e criado na região do Brás, bairro de São Paulo, Cuoco é um dos filhos do feirante Leopoldo e sua esposa Antonieta. Na infância, o circo que era armado na frente de sua casa já o convidava para um mundo de sonhos.

O pai desejava que ele estudasse para ser advogado, no entanto, desde jovem Francisco já se deixou encantar pelo cinema. Desejava atuar em filmes. Na juventude, trabalhava durante o dia e à noite frequentava as aulas da Escola de Arte Dramática (EAD), criação do professor Alfredo Mesquita. Seus contemporâneos se recordam com carinho e gratidão, por exemplo, da sopa que era servida a todos, dos quais muitos a teriam como refeição única da noite.

Formou-se em 1957 e passou a fazer parte do elenco do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Em 1959, Cuoco ingressou no Teatro dos Sete. A companhia era formada por Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Gianni Ratto, Luciana Petruccelli e Alfredo Souto de Almeida. Ainda na década de 1950 iniciou-se nos espetáculos do Grande Teatro Tupi.

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As primeiras novelas de Francisco Cuoco

A estreia em novelas diárias ocorreu em 1964, ainda no tempo dos primeiros títulos do gênero: Renúncia, produção da Record TV, de Roberto Freire e Walther Negrão. Cuoco fez também Marcados Pelo Amor, dos mesmos autores, logo em seguida. Além de Ainda Resta Uma Esperança (TV Excelsior, 1965), de Júlio Atlas, Os Quatro Filhos (1965), de J. Silvestre, e O Pecado de Cada Um (1965/66), escrita por Wanda Kosmo, na TV Tupi. Na sequência, Almas de Pedra (1966), novela de Ivani Ribeiro na Excelsior.

Redenção
Redenção foi produzida pela extinta TV Excelsior (Foto: Reprodução/ Web)

Em maio de 1966, a TV Excelsior lançou a novela Redenção, de Raimundo Lopes, dirigida por Waldemar de Moraes. A história trouxe Cuoco na pele de Fernando Silveira, médico. Ele se instala na pequena cidade que dá nome à novela e com isso os conflitos se intensificam. Com seus 596 capítulos em dois anos no ar, Redenção segue como uma de nossas novelas mais longas. Na sequência, o ator protagonizou mais duas novelas na TV Excelsior. Legião dos Esquecidos (1968/69), de linhas gerais semelhantes às de Redenção e do mesmo autor, e Sangue do Meu Sangue. Na obra de Vicente Sesso, Cuoco viveu pai e filho, Carlos e Lúcio Rezende. A trama se passava no final do Segundo Reinado brasileiro.

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A estreia de Francisco Cuoco na Globo

Renata Sorrah, Francisco Cuoco e Vanda Lacerda em Assim na Terra Como no Céu
Renata Sorrah, Francisco Cuoco e Vanda Lacerda em Assim na Terra Como no Céu (Divulgação)

Francisco Cuoco ingressou na Rede Globo em 1970. Sua primeira novela foi Assim na Terra Como no Céu, de Dias Gomes, exibida às 22h. Seu personagem era Victor, que no início da história era padre, mas se apaixonava pela jovem Nívea (Renata Sorrah). Decidia então deixar o hábito para casar-se com ela, no entanto, a jovem era assassinada misteriosamente. Victor se envolveu com Helô (Dina Sfat), a rica amiga de Nívea.

No mesmo horário e na sequência, em 1971, o ciclo do jovem galã foi quebrado em O Cafona. A novela de Bráulio Pedroso trouxe Cuoco como Gilberto Athayde, um novo-rico sem sofisticação. Dono de uma cadeia de supermercados que lhe rendeu fortuna, ele representa a tábua de salvação da falido Fred da Silva Barros (Paulo Gracindo). Sua filha Malu (Renata Sorrah) é a noiva perfeita para Gilberto. Todavia, a milionária Beatriz (Tônia Carrero) e a secretária de “Gigi”, Shirley Sexy (Marília Pêra), também estão no posto. Só para ilustrar, a trilha nacional de O Cafona foi a primeira lançada pelo selo Som Livre.

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Selva de Pedra: o início da parceria com Janete Clair

Francisco Cuoco chegou ao horário das 20h da Globo em Selva de Pedra (1972/73), de Janete Clair. Foi a primeira de suas sete novelas com a autora. Cristiano Vilhena, seu personagem, desejava abandonar a vida de pobreza que tinha com a família e ascender socialmente. Para tanto, sai do interior e vai para o Rio de Janeiro em busca do tio Aristides (Gilberto Martinho), homem rico que pode ajudá-lo. Seu romance com a escultora Simone (Regina Duarte) é tumultuado pela ambição e por uma série de intrigas articuladas por Fernanda (Dina Sfat), milionária com quem Cristiano se envolve. Ainda, a figura de Miro (Carlos Vereza), o falso amigo que leva Simone a ser dada como morta após sofrer um grave acidente.

Selva de Pedra é uma das novelas mais representativas da nossa teledramaturgia. Cristiano Vilhena, por sua vez, um dos protagonistas mais memoráveis. O tema romântico de Cuoco e Regina, “Rock and Roll Lullaby”, igualmente é um dos mais representativos de todas as trilhas de novela.

Os dois trabalhos seguintes de Francisco Cuoco foram O Semideus (1973/74), de Janete Clair, e Cuca Legal (1975), de Marcos Rey. Na primeira, o jornalista Alexandre Garcia, com motivações particulares para investigar a vida do milonário Hugo Leonardo Filho (Tarcísio Meira). Ao passo que na segunda história, exibida às 19h, ele deu vida ao piloto aéreo Mário Barroso, dividido entre três namoradas.

Pecado Capital e Duas Vidas: tragédias urbanas

Duas novelas escritas por Janete Clair entre 1975 e 1977 fizeram muito sucesso e deram a Francisco Cuoco grandes oportunidades de mostrar seu talento. Após a censura a Roque Santeiro, cuja versão original estrearia em 1975, Pecado Capital ocupou o horário aproveitando o mesmo elenco. Nesta novela, o ator viveu José Carlos Moreno, o Carlão. O chofer de praça, machista e grosseirão, tem sua vida totalmente modificada ao encontrar em seu táxi uma mala com 800 mil cruzeiros. Na contramão dos galãs engomados e bem-educados, Carlão representou um grande momento na carreira de Cuoco. A última cena da novela, na qual o personagem morre, vitimado pela própria ambição e por suas escolhas, é um marco da nossa teledramaturgia.

No final de 1976, Duas Vidas estreou trazendo o ator na pele de outro Victor, desta vez um médico respeitado. Ele disputa o amor da viúva Leda Maria (Betty Faria) com o cantor Dino César (Mário Gomes), antigo namorado dela. Paralelamente ao triângulo, os conflitos que as obras do metrô disparam numa vizinhança do Catete, bairro do centro carioca. Essas duas novelas representam uma modificação na obra de Janete Clair, dos romances desenfreados para as tragédias urbanas aliadas a esses romances.

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O Astro: a pedra de Herculano era a ametista; sua cor, o amarelo

Em dezembro de 1977, a novela O Astro estreou e trouxe Francisco Cuoco em outro dos seus mais marcantes personagens na televisão. Herculano Quintanilha. De adivinho numa churrascaria à alta diretoria do Grupo Hayalla, ele ascende em meio a uma teia de intrigas. E um complicado caso de amor com Amanda (Dina Sfat). Abrindo o horário das novelas das 23h (hoje chamadas de superséries), em 2011, a Globo produziu uma adaptação de O Astro. Rodrigo Lombardi foi Herculano e Francisco Cuoco, a saber, teve criado especialmente para si um personagem, Ferragus. Nada menos do que o mentor do novo Astro.

Entre 1979 e 1980 Cuoco foi o Chico Rubião em Os Gigantes, novela de Lauro César Muniz. Contracenando uma vez mais com Tarcísio Meira, ele leva a melhor na disputa pelo amor de Paloma (Dina Sfat).

Obrigado Doutor: mais um médico para Francisco Cuoco

Em 1981, as Séries Brasileiras da Rede Globo trouxeram um título que resgatava um sucesso radiofônico: Obrigado Doutor. Francisco Cuoco vivia o Dr. Rodrigo Junqueira, e cada episódio o envolvia em algum caso da fictícia Andorinhas. As dificuldades da saúde no País e os problemas de profissionais da área compunham as histórias, junto aos casos dos habitantes da cidade. O projeto se baseava no programa de mesmo nome, apresentado por Paulo Roberto na década de 1950 na Rádio Nacional.

No elenco, Elaine Cristina, Nicette Bruno e Cristina Santos, todas estreando na emissora. Os roteiros eram de Ferreira Gullar, Walter George Durst e Walther Negrão. E também do mesmo Roberto Freire com quem o ator havia trabalhado anteriormente, quase 20 anos antes. Pela direção respondiam Antonio Abujamra e Walter Avancini. Infelizmente, há mais de 20 anos, desde a reapresentação de alguns episódios no Festival 30 Anos (1995), a série está fora do ar.

Casamento cigano e carreira política: Sétimo Sentido e Eu Prometo

Em 1982, Cuoco reencontrou Regina Duarte em Sétimo Sentido, outra novela de Janete Clair. Aqui eles interpretaram Tião Bento e Luana Camará. Ele detinha importantes provas a respeito do patrimônio da família de Luana, do qual seu pai adotivo Antônio Rivoredo (Carlos Kroeber) havia se apossado indevidamente. Marroquina, em sua chegada ao Brasil, terra de seus pais, Luana tem em Tião um inimigo. No entanto, a falecida atriz Priscilla Capricce, cujo espírito Luana incorpora, cai de amores por Tião. Os dois chegam a se casar num ritual cigano, que se tornou uma marca da novela.

Já na novela Eu Prometo (1983/84), última de Janete Clair, Cuoco foi o deputado Lucas Cantomaia. Casado há mais de 20 anos com Darlene (Dina Sfat) e desejando ser eleito para o Senado, Lucas se envolve com a fotógrafa Kely (Renée de Vielmond). E começa a questionar sua posição de “homem perfeito” e se ela vale a pena. Glória Perez escreveu a novela do meio para o fim, em virtude da morte de Janete.

Eu Prometo: há 35 anos, estreava a última novela de Janete Clair

A volta de Francisco Cuoco em O Outro

Após uma pausa de três anos, Francisco Cuoco voltou às novelas no início de 1987. O Outro, novela das 20h escrita por Aguinaldo Silva, trouxe o ator em papel duplo. Paulo Della Santa era um milionário do ramo imobiliário. Ao passo que Denizard de Mattos possuía um ferro-velho. Sósias, mas não gêmeos, suas trajetórias se encontram na explosão de um posto de gasolina. Desmemoriado, Denizard acaba assumindo o lugar de Paulo diante de sua família e à frente dos negócios.

Em O Salvador da Pátria, Francisco Cuoco é “um democrata”

Em contraste com Lucas Cantomaia encontramos o deputado Severo Toledo Blanco, de O Salvador da Pátria (1989). Escrita por Lauro César Muniz, a novela partia de uma grande intriga política em cujo centro vai parar o boia-fria Sassá Mutema (Lima Duarte). Inicialmente catador de laranjas na fazenda de Severo, ele é usado pelo político numa trama para que afaste de si um grande escândalo. Sassá se casa com Marlene (Tássia Camargo), jovem amante de Severo que pouco depois é assassinada.

Severo nem de longe era um bom político. Demagogo, dado a mordomias, preocupado apenas com seus interesses. Os quais, a saber, envolviam mais suas aventuras amorosas do que a representação dos cidadãos. Seu caso com Bárbara (Lúcia Veríssimo) permeia toda a história, em paralelo ao casamento infeliz com Gilda (Susana Vieira).

Os personagens de Francisco Cuoco nos anos 1990

O ator iniciou a década entrando apenas no decorrer de Lua Cheia de Amor (1990/91), novela das 19h. Baseada em Dona Xepa, texto teatral de Pedro Bloch, era escrita por Ana Maria Moretzsohn, Ricardo Linhares e Maria Carmem Barbosa. Cuoco era Diego Miranda, o marido desaparecido de Genu (Marília Pêra).

Na sequência, Otto Bismark, o viúvo “Barba Azul” de Deus nos Acuda (1992/93). Na novela de Silvio de Abreu, ele era alvo da paixão obsessiva da secretária Elvira (Marieta Severo). Todavia, seu grande amor era mesmo a cunhada Baby (Glória Menezes). Outra parceria do ator com o autor ocorreu no início de A Próxima Vítima (1995). Cuoco foi o advogado Hélio Ribeiro, uma das primeiras vítimas do assassino misterioso da história. Ele morre envenenado na sala VIP do aeroporto, enquanto aguarda a hora de seu voo.

Na novela Quem É Você (1996), seu personagem foi Nelson Maldonado. O pai de Maria Luiza (Elizabeth Savalla), muito ligada a ele e fragilizada por sua ausência. Ao passo que Beatriz (Cássia Kiss), a caçula, o odiava por ter abandonado a mulher e as filhas. O texto coube inicialmente a Solange Castro Neves e depois a Lauro César Muniz. O argumento, a saber, era de Ivani Ribeiro e a direção-geral, de Herval Rossano. Em seguida, Cuoco viveu Orestes na soap opera Malhação e fez uma participação na minissérie Dona Flor e Seus Dois Maridos. A adaptação do romance de Jorge Amado coube a Dias Gomes.

Fim da década, remake de execução truncada

Ao final da década, o ator participou da nova versão de Pecado Capital (1998/99). Escrita por Glória Perez, a novela o trouxe agora no papel de Salviano Lisboa. O viúvo milionário e infeliz redescobria a felicidade ao conhecer a operária Lucinha (Carolina Ferraz). No entanto, a parceria de Cuoco e Carolina em cena não “deu liga” e, por consequência, a história ganhou rumos diferentes do original.

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De 2000 para cá: aparições mais espaçadas, mas sempre o brilho do astro

Na década de 2000, apenas em 2005 Francisco Cuoco teve um papel fixo numa novela. As Filhas da Mãe (2001), O Clone (2001/02) e O Beijo do Vampiro (2002/03) trouxeram-no apenas em participações. Na pele do engraçado Pai Gaudêncio, o ator entrou no meio de Da Cor do Pecado (2004). Parecia divertir-se em cena como o pai-de-santo gay e afetado. Mas em América, de Glória Perez, ganhou um bom papel, numa linha diversa do habitual. Zé Higino era avô do protagonista Tião (Murilo Benício), e iniciou a tradição de peões de boiadeiro da família. Humilde, de pouca instrução, mas não bruto. Um trabalho sensível e, a saber, sem os tiques nervosos que caracterizam algumas criações do ator na televisão.

Posteriormente, o inverso em Cobras & Lagartos (2006), de João Emanuel Carneiro. Toda a história flui a partir de seu personagem, Omar Pasquim, e da distribuição de sua fortuna após sua morte. Uma participação nos primeiros capítulos, mas determinante para a novela inteira. Negócio da China (2008), de Miguel Falabella, trouxe-o num papel pequeno, Dr. Evandro. Ele desejava um neto, que o filho Adriano (Herson Capri) supostamente ainda não lhe havia dado. No entanto, embora não se soubesse, o neto já existia: Diego (Thiago Fragoso). Anteriormente, uma participação na terceira e última fase da minissérie Amazônia – De Galvez a Chico Mendes (2007). Seu personagem Augusto foi interpretado por Ronaldo Dappes na primeira fase e por Humberto Martins na segunda.

O Rei do Lixo

Um personagem muito simpático de Francisco Cuoco, com toda a certeza, foi Olavo da Silva, o Rei do Lixo. Em Passione (2010/11), de Silvio de Abreu, Cuoco formou um par engraçado e bonito com Irene Ravache, que vivia Clô. Como resultado da feliz escalação, ótimos momentos de um casal maduro ao som de “Contigo Aprendi” na voz de Cauby Peixoto e Ângela Maria. Ainda, Olavo estava diretamente ligado à trama principal, da verdadeira origem de Totó (Tony Ramos). Ele era pai de Totó, o namorado que abandonou Bete (Fernanda Montenegro) grávida na juventude.

Logo depois, participações em A Vida da Gente (2011/12) e Amor à Vida (2013/14). No final de 2014, o Seu Vicente de Boogie Oogie, novela de Rui Vilhena. Entre participações em I Love Paraisópolis (2015) e Pega-pega (2017/18), o Gaetano de Sol Nascente (2016/17). Mais recentemente, esteve em Segundo Sol, no papel do farmacêutico Nestor. Apesar de ter sido revelado pai da vilã Laureta (Adriana Esteves), o personagem aparecia pouco e teve pouco peso. Inegavelmente, um desperdício de talento.

Vida longa a Francisco Cuoco, um dos nomes mais importantes da teledramaturgia brasileira. Há quem o considere mau ator, acomodado, canastrão, entre outros adjetivos pouco elogiosos. Ademais, nem todo mundo daria vida de forma tão marcante a tipos como os dúbios mocinhos de Janete Clair nos anos 1970. Ou aos grandes poderosos dos anos 1980, implicados na política e enredando-a na vida amorosa. Ao que consta, ele será um dos agraciados deste ano com o Troféu Mário Lago, do Domingão do Faustão. Muito merecido. Porém, mais merecido ainda seria uma edição do prêmio só para ele, bem como para todos os outros premiados deste ano. Espera-se que ele não seja valorizado e saudado apenas depois de morto, como é comum no Brasil.