Logotipo da série Mundo da Lua, produzida pela TV Cultura (Reprodução/TV Cultura)
Logotipo da série Mundo da Lua, produzida pela TV Cultura (Reprodução/TV Cultura)

Aos 10 anos de idade, queremos ser tratados como crianças em algumas situações. Ao passo que noutras pensamos já ser grandes o suficiente para partilhar de assuntos e programas de adultos. É uma fase de curiosidades, descobertas. Partindo do cotidiano de um menino de dez anos e sua família de classe média, em 6 de outubro de 1991 foi lançada a série infantojuvenil Mundo da Lua. Era uma coprodução da TV Cultura de São Paulo com o Serviço Social da Indústria (Sesi). A ideia original da série, que seguia a linha da emissora de educação aliada a entretenimento de qualidade, foi de Flávio de Souza, ator e escritor.

Lucas Silva e Silva e a “crise dos 10 anos” no Mundo da Lua

Elenco de Mundo da Lua
Elenco de Mundo da Lua (divulgação)

O protagonista é Lucas Silva e Silva (Luciano Amaral). As tramas dos episódios abordam problemas da vida do garoto. Ter de ir dormir cedo, frequentar a escola, fazer as lições, obedecer aos pais e aos mais velhos em geral. Noções de cidadania, solidariedade, higiene, cultura, história, geografia… A importância dos valores compõe os conflitos da série. Além de Lucas, os outros personagens principais eram seus familiares. Todos moram juntos num sobrado branco reconhecível pelos fãs à mínima olhada. O pai é Rogério (Antonio Fagundes), professor que se divide em três empregos para sustentar a família. A mãe é Carolina (Mira Haar), vendedora numa boutique (a da Madame Saint-Gobelin). Lucas tem uma irmã mais velha, mas adolescente como ele, Juliana (Mayana Blum). A mocinha vivia às voltas com as tendências da moda, bandas do momento e interesses amorosos.

Também mora na casa o avô Orlando (Gianfrancesco Guarnieri), pai de Rogério, um senhor bastante amoroso e apaixonado por um carro antigo que mantém na garagem com o sonho de um dia fazê-lo circular de novo pelas ruas. Não nos esqueçamos de Rosa (Anna D’Lira), a despachada empregada dos Silva e Silva, que espera pelo dia em que se casará com o namorado Marcelo (que não aparece nunca em cena) e passa o dia ouvindo o programa do radialista Ney Nunes (voz de Dorvilles Pavarina) enquanto cuida dos afazeres da casa. Rosa conversa com Ney, interage com o locutor crente de que ele a escuta. Com efeito, as falas dele dão a entender que pode mesmo escutá-la.

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O gravador que transportou toda uma geração para o Mundo da Lua

Lucas pretende ser astronauta quando crescer. Seu maior sonho é fazer uma viagem à Lua. Tem uma imaginação bastante fértil, e daí vem o título da série. O garoto vive sempre no mundo da Lua, inventando histórias a partir de seu cotidiano, seus reveses e alegrias. No dia do aniversário de 10 anos, ganha do avô Orlando um gravador que ele comprara anos antes para dar de presente à filha Roberta (Lucinha Lins). No entanto, acabou não dando-o a ela, já que a jovem era “muito estabanada” e provavelmente quebraria o aparelho em três tempos. O gravador modernoso, que se iluminava conforme suas teclas eram pressionadas, revelou-se o instrumento perfeito para Lucas dar asas à imaginação e criar suas histórias a respeito de como as coisas seriam se dependesse exclusivamente da vontade dele. Tinha sempre por base um fato que estivesse vivendo na ocasião.

O que Lucas dizia para abrir cada história está marcado para sempre na lembrança dos fãs do programa: “Alô, alô… Planeta Terra chamando, Planeta Terra chamando, alô…! Esta é mais uma edição do Diário de Bordo de Lucas Silva e Silva, falando diretamente do Mundo da Lua… Onde tudo pode acontecer…” Sempre no clímax das histórias que inventava, Lucas era interrompido. Ao soltar a imaginação no gravador o garoto aprendia, através de sua própria história, que nem sempre as coisas são como desejamos que elas sejam. Embora teimoso, cabeça-dura, voluntarioso, o caráter dócil e amoroso do menino prevalecia. Ele dava o braço a torcer quando não tinha razão em seus ataques de desobediência e batidas de porta. Afinal, entendia que havia pouco a reclamar e os adultos estavam certos.

Mundo da Lua: a prova de que o infantojuvenil não precisa ser bobo nem raso

Mundo da Lua deixou saudade. Principalmente por mostrar que não é preciso uma superprodução caríssima, com efeitos especiais e pirotecnias, para agradar ao público infantojuvenil. Um excelente projeto, que tinha por trás de si uma orientação pedagógica séria. Ajudou a moldar o caráter de toda uma geração, através de sua abordagem lúdica e agradável da passagem da infância para a adolescência. Era possível se divertir aprendendo sobre passagens e figuras importantes da História, noções de matemática, ciências, diferenças socioculturais e outros muitos assuntos. Tudo a partir do cotidiano de Lucas com sua família.

Os 52 episódios foram exibidos semanalmente entre 1991 e 1992. Desde então são reprisados pela TV Cultura, TV Brasil e outras emissoras públicas. Posteriormente, até a Rede Globo já exibiu a série, às 8h, em 1993. Atualmente, é possível acompanhar as aventuras de Lucas Silva e Silva pela TV Rá-tim-bum. Mesmo mais de duas décadas depois, iniciativas como esta fazem falta. Infelizmente a programação infantil valoriza quase que unicamente a exibição de desenhos animados.

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A fim de recordar com quem já conhece e apresentar a quem nunca tenha visto, deixo abaixo um dos episódios da série, intitulado “A Pluma da Princesa Isabel”. Participações especiais de Miriam Mehler e Zezeh Barbosa.

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