Logotipo da novela Escrava Isaura, de 1976 (Reprodução/Memória Globo)
Logotipo da novela Escrava Isaura, de 1976 (Reprodução/Memória Globo)

Em 11 de outubro de 1976, há exatos 42 anos, a Rede Globo exibiu o primeiro capítulo de um de seus maiores sucessos, especialmente no horário das 18h. Escrava Isaura, baseada na obra de Bernardo Guimarães, foi escrita por Gilberto Braga. A direção coube a Herval Rossano e Milton Gonçalves.

Uma das novelas mais representativas da emissora e da nossa teledramaturgia surgiu quando Gilberto Braga pediu a uma antiga professora sua, Eneida do Rego Monteiro, uma sugestão de romance para adaptar. Anteriormente, ele já havia feito versões em novela para Helena, de Machado de Assis, e Senhora, de José de Alencar. Dona Eneida sugeriu-lhe A Escrava Isaura, com todos os ingredientes fundamentais do bom folhetim.

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A trama de Escrava Isaura

Leôncio (Rubens de Falco) e Isaura (Lucélia Santos) (Divulgação/TV Globo)
Leôncio (Rubens de Falco) e Isaura (Lucélia Santos) (Divulgação/TV Globo)

A história se passa em Campos dos Goytacazes, cidade no interior do Rio de Janeiro, em meados do século 19. Isaura (Lucélia Santos) mora na fazenda da família Almeida. Sua mãe, Juliana (Lady Francisco), era escrava, e o pai é o branco Miguel (Átila Iório). No entanto, embora seja branca, a jovem não é livre, porque na época os filhos de escravos “herdavam” essa condição dos pais. Dona Ester (Beatriz Lyra), esposa do Comendador Almeida (Gilberto Martinho), criou Isaura como a filha que não teve. Deu a ela a melhor educação e todos os predicados que qualquer jovem de sua classe social poderia ter. O fato incomoda Almeida, que sempre fez as vontades da mulher. O casal tem um filho biológico, Leôncio (Rubens de Falco), que foi estudar na Europa há três anos e meio.

A história tem início quando Leôncio volta do exterior. Após anos sem ver Isaura, ele fica encantado com a beleza da moça. E passa a persegui-la de todas as formas, a fim de dar vazão a seus ímpetos carnais para com ela. Nem mesmo seu casamento com a bondosa Malvina (Norma Blum) põe fim a seu comportamento obsessivo. Malvina é filha de um amigo de Almeida, o Conselheiro Fontoura (Dary Reis).

Rosa, outra pedra no sapato de Isaura, e Januária, a protetora

Rosa (Léa Garcia), inimiga da escrava Isaura (Divulgação/TV Globo)
Rosa (Léa Garcia), inimiga da escrava Isaura (Divulgação/TV Globo)

Como se não bastassem as investidas e atitudes violentas de Leôncio, Isaura ainda tem que lidar com a escrava Rosa (Léa Garcia). Invejosa e ressentida em virtude do tratamento diferenciado dispensado a Isaura, Rosa arma diversas tramas para prejudicá-la. Por outro lado, uma grande amiga e quase mãe da jovem é Januária (Zeny Pereira). Cozinheira da casa-grande, ela conhece a origem de Isaura e tem por ela grande afeição. Faz o que pode para protegê-la de Leôncio.

A fuga, uma nova identidade e o grande amor

Isaura (Lucélia Santos) e Álvaro (Edwin Luisi) (Divulgação/TV Globo)
Isaura (Lucélia Santos) e Álvaro (Edwin Luisi) (Divulgação/TV Globo)

Para escapar à sanha de Leôncio, Isaura e Miguel fogem para Barbacena, no estado de Minas Gerais. Lá, sob a identidade de Elvira, ela conhece Álvaro (Edwin Luisi), e os dois se apaixonam. Com isso a escrava branca conquista a inimizade de Lúcia (Clarisse Abujamra), que também é apaixonada pelo rapaz. Um amigo comum dos dois, Geraldo (Ary Coslov), tenta dissuadir Álvaro das intenções para com Isaura. No entanto, acaba ele mesmo se casando com Lúcia depois. Ainda, a presença do oportunista Martinho (André Valli). Interessado na recompensa que Leôncio oferece a quem lhe der indicações de onde se encontra Isaura, a quem procura desenfreadamente, Martinho entrega a moça, visando a relação que pode estabelecer com o fazendeiro e os dividendos potenciais.

Isaura acaba desmascarada na frente de todos os convidados de um baile de gala e reconduzida à fazenda dos Almeida. Todavia, Álvaro não desiste dela e passa a lutar para libertá-la. Como resultado de uma vida de excessos e total inaptidão para os negócios, Leôncio acaba por comprometer o patrimônio da família. Seus bens são arrendados por Álvaro e, na bancarrota, Leôncio acaba por suicidar-se. Isaura pode enfim ser feliz, ao lado de seu amado.

Críticas recebidas pela adaptação e problemas com a Censura

Tobias (Roberto Pirillo), primeiro amor da escrava Isaura (Divulgação/TV Globo)
Tobias (Roberto Pirillo), primeiro amor da escrava Isaura (Divulgação/TV Globo)

O adaptador Gilberto Braga recebeu muitas críticas em relação ao personagem Tobias (Roberto Pirillo). Inexistente no romance original, ele foi criado para que Isaura não ficasse muito tempo sem um envolvimento amoroso na novela. O gênero tem estrutura diferente da ficção que é apenas lida, e suas necessidades levaram o autor a tomar essa atitude. Tobias morre num incêndio provocado por Leôncio, e então Isaura conhece Álvaro. No mesmo incêndio, a saber, Leôncio mata a esposa Malvina, sem querer.

Ironicamente, depois de analisados e aprovados tanto a sinopse quanto diversos capítulos da novela, a Censura implicou com o uso da palavra… “escravo”! E vetou-a. Os diálogos dos personagens passaram então a indicar o termo “peça” em substituição. E isso numa novela passada no Império antes da Abolição, com diversos personagens na condição de escravos – incluindo a protagonista. Mais surreal, impossível.

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Escrava Isaura, campeã de vendas e de reprises na Globo

Até o começo dos anos 2000, Escrava Isaura manteve o posto de novela campeã de vendas pela Globo. De acordo com dados de 2006, hoje está na quinta posição. Espectadores de 104 países já puderam acompanhar a história, de Cuba à Alemanha, da França ao Gabão. Provavelmente, além dos elementos da dramaturgia em si, o segredo do sucesso mundial de Escrava Isaura é seu tema central: a busca pela liberdade, de identificação em qualquer época e lugar.

Nesses 42 anos, a novela foi exibida pela emissora em seis ocasiões. Após a primeira, houve cinco reprises. Uma delas, em 1985, foi ao ar apenas no Distrito Federal. O motivo: cobrir lacuna no horário (20h30) em que o resto do País via a propaganda eleitoral. Brasília não tem prefeito, então em virtude disso nos anos de eleições municipais reprises de dramaturgia taparam buraco na grade da emissora por lá. As outras reprises de Escrava Isaura na Globo foram exibidas em 1977/78 (às 13h30), 1979/80 (18h), 1982 (11h) e 1990 (14h30). Surpreendentemente, nenhuma delas ocorreu na sessão Vale a Pena Ver de Novo.

Uma nova adaptação do romance de Bernardo Guimarães, incluindo o “A” do título, foi produzida pela RecordTV e exibida com grande êxito em 2004/05. A Escrava Isaura teve texto de Tiago Santiago e Anamaria Nunes. E direção-geral do mesmo Herval Rossano que conduziu a versão da Globo ao sucesso. A emissora paulista também já exibiu sua versão em diversas ocasiões, mas não bateu o recorde de seis transmissões da Globo. Ainda.

Escrava Isaura tem uma força que poucas novelas conquistaram no imaginário do público. Seu entrecho dramático é muito eficaz. Mostra disso é o sucesso de tantas reprises e de uma nova versão, além de um compacto em DVD. Sem dúvida seria uma boa pedida para o Canal Viva.