Cláudia Raia e Edson Celulari em Deus nos Acuda (Divulgação/TV Globo)
Cláudia Raia e Edson Celulari em Deus nos Acuda (Divulgação/TV Globo)

O ano era 1992. Após o sucesso de Rainha da Sucata (1990) às 20h, Silvio de Abreu foi convocado a criar uma nova história para o horário das 19h. E desejou juntar comédia e crítica política. Surgiu daí Deus nos Acuda.

O Brasil vivia os dias do governo de Fernando Collor de Mello. Eleito em 1989, o “caçador de marajás” revelou-se um presidente autoritário e seu mandato foi assolado por uma série de denúncias de corrupção. De fato, a frustração do grande sonho de um País novo após a redemocratização, já no primeiro presidente escolhido pelo povo após quase 30 anos, tomou conta dos brasileiros.

A história central de Deus nos Acuda

Gabriel (Claudio Correa e Castro) e Celestina (Dercy Gonçalves) em Deus nos Acuda
Gabriel (Claudio Correa e Castro) e Celestina (Dercy Gonçalves) em Deus nos Acuda (divulgação)

Celestina (Dercy Gonçalves) é a anja responsável pelos assuntos que envolvem o Brasil no Céu. Supervisionada pelo Anjo Gabriel (Cláudio Corrêa e Castro), ela deve zelar pelo nosso país. Só que diante de tantos problemas enfrentados na Terra, Celestina recebe um ultimato. Ela deve converter a trambiqueira Maria Escandalosa (Cláudia Raia), golpista que mora em Santos, litoral paulista, filha do trapaceiro Tomás (Jorge Dória), em exemplo de honestidade. Do contrário, será punida com a mortalidade e uma vida como aposentada no Brasil. A inspiração veio de um filme de Frank Capra, A Felicidade Não se Compra (1946), nessa influência do Céu sobre os habitantes da Terra.

No início da novela, Maria e o pai embarcam num cruzeiro luxuoso a fim de ganharem dinheiro valendo-se da ingenuidade de milionários. Ricardo (Edson Celulari) cai de amores por Maria e ela por ele, o que coloca o golpe em risco – já com a influência de Celestina, que acompanha tudo.

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Otto, o viúvo Barba Azul, e Baby, a cunhada justiceira

O pai de Ricardo é o milionário Otto Bismark (Francisco Cuoco). Quando a história começa, ele está de luto pela morte de sua segunda esposa, Eugênia. Com ela Otto teve três filhos, Igor (Cláudio Fontana), Ulli (Mylla Christie) e Yeda (Tatiana Issa). Ricardo, por sua vez, era filho de Felícia, a primeira mulher de Otto. O viúvo era acusado de matar as esposas. Como resultado, a fama de “Barba Azul”.

A morte repetina de Eugênia traz de volta ao Brasil sua irmã Bárbara, ou Baby (Glória Menezes). No passado Otto e Baby viveram um romance, mas ele optou por unir-se a Eugênia. Baby o enfrenta, disposta a provar a culpa dele na morte de Eugênia. No entanto, o que ela não espera é a oposição de Elvira (Marieta Severo), secretária de Otto e que deseja ser a terceira Sra. Bismark. De tal sorte que ela se torna a maior pedra no sapato dos dois, chegando a casar-se com Otto mediante chantagem.

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O retorno de Dona Armênia e suas “filhinhas”

Sucesso em Rainha da Sucata, Dona Armênia (Aracy Balabanian) voltou em Deus nos Acuda. Agora ela era proprietária de um pequeno prédio de apartamentos em Santos, onde moravam Maria e Tomás. Com Dona Armênia voltaram também seus filhos marmanjos, que ela chamava de “filhinhas” em virtude de sua confusão dos gêneros em português. Gerson (Gerson Brenner), Geraldo (Marcello Novaes) e Gino (Jandir Ferrari) – que reaparece travestido, como Gina – se viram às voltas com a investigação de um segredo da mãe.

Outros moradores do prédio

No mesmo edifício morava a prostituta Gilda (Louise Cardoso), que dizia trabalhar numa biblioteca à noite e acabou se envolvendo com Félix (Ary Fontoura), tio de Ricardo. Gilda dividia o apartamento com Clarice (Regina Braga), irmã de uma pessoa importante para Otto. Kelly (Maria Cláudia) traía o marido Heitor (Gracindo Júnior) com o milionário. Os adúlteros eram os pais de Nicolau (João Rebello), menino de rua que Baby adota.

Também moravam no prédio os irmãos Paco (Raul Gazolla) e Lauretta (Cristina Mutarelli). A moça é fogosa e barraqueira, revoltada contra o ciúme do irmão controlador. Este, por sua vez, era apaixonado por Maria, sem ser correspondido. Só encontra o amor ao se envolver com Clarice.

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Alguns problemas da novela

Deus nos Acuda entraria no ar no início de 1992, mas a emissora a adiou. Pouco após a estreia em 31 de agosto, teve início o processo que culminaria no impeachment do presidente Collor. Com efeito, a crítica proposta pela novela ao estado de coisas no País se esvaziou um pouco. Silvio de Abreu teve de apostar na comédia e nos romances intrincados da história. Seja como for, a química entre os casais centrais (Cláudia e Edson, Glória e Cuoco) foi intensa. Ainda, os personagens coadjuvantes como Dona Armênia, Félix, Gilda, Tomás e a impagável Xena (Carmen Verônica), amiga de Baby, sustentaram bem o clima do horário. Além, claro, de Dercy Gonçalves, super ativa em cena aos 85 anos, em ótima parceria com Cláudio Corrêa e Castro. Ainda que a repercussão tenha sido truncada, Deus nos Acuda não fez feio.

A inesquecível abertura de Deus nos Acuda

A fim de ilustrar o tom de crítica desejado pela história, a abertura criada por Hans Donner usou de impacto visual e ironia. Ao som de Gal Costa cantando um samba-exaltação de David Nasser e Alcyr Pires Vermelho (“Canta Brasil”), uma festa da alta roda vai sendo invadida por um mar de lama. Nele, submergem os convidados e boiam carros de luxo, dólares e joias. No auge do refrão, “No céu, no mar, na terra… Canta, Brasil!”, a perspectiva da imagem nos mostra aquela lama descendo por um ralo de privada e ouve-se a descarga.

O Vale a Pena Ver de Novo exibiu a novela num compacto, aliás, muito bem feito, exibido de novembro de 2004 a fevereiro de 2005. Já há condições, ao menos em termos de tempo decorrido, para que figure qualquer hora dessas no Canal Viva.

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