Sol (Deborah Secco) e Tião (Murilo Benício) em América
Sol (Deborah Secco) e Tião (Murilo Benício) em América (divulgação)

No dia 14 de março de 2005, estreava no horário nobre da Globo a novela América. Escrita por Gloria Perez, a trama tratava da vida dos brasileiros que tentavam cruzar a fronteira do México rumo aos EUA ilegalmente por meio da heroína Sol (Deborah Secco), que sonhava em trabalhar na América do Norte para proporcionar uma vida melhor à sua família.

Quando criança, Sol viu a pequena casa em que morava com a mãe Odaleia (Jandira Martini) ser demolida. Desde então, ela sonha em dar à mãe melhores condições de vida. Ela cresce ouvindo histórias sobre pessoas que conseguiram ganhar um bom dinheiro indo trabalhar nos Estados Unidos, e vê ali a chance de conseguir alcançar seus objetivos. Mas ela tem a autorização para viajar constantemente negada, o que faz com que ela procure outros métodos para conseguir entrar naquele país.

Decidida, ela procura sua madrinha, a viúva Neuta (Eliane Giardini), uma poderosa fazendeira que vive na pequena cidade de Boiadeiros, um local que vive da cultura do rodeio, para pedir dinheiro. Ali, ela conhece o peão Tião (Murilo Benício), alguém muito diferente dela. Tião não tem ambições, é profundamente ligado às suas raízes e sonha em domar o touro Bandido, o mais temido entre os peões de rodeio. Mesmo tão diferentes, Sol e Tião se apaixonam perdidamente, mas se separam quando ela opta por seguir seus sonhos. Tião, então, se envolve com a locutora de rodeios Gil (Lúcia Veríssimo).

Já Sol conhece o “atravessador” Alex (Thiago Lacerda), membro de uma rede internacional de tráfico de drogas chefiada por Djanira Pimenta (Betty Faria), e que vive de atravessar ilegalmente pessoas que querem ir aos EUA por meio da fronteira com o México. Ao integrar um grupo que quer entrar nos EUA, Sol percebe que a vida deles não é nada fácil, pois eles são maltratados e obrigados a ficar em precárias instalações, além de passarem fome e sede. Em sua primeira tentativa, Sol tenta passar pelo Rio Grande, mas ela não consegue e retorna ao México. Depois, ela tenta entrar pela fronteira, escondida dentro de um painel de um carro, mas é descoberta e acaba deportada.

De volta ao Brasil, ela se entrega novamente a Tião, e os dois decidem se casar. Mas Sol abandona Tião no altar quando Alex oferece uma nova oportunidade a ela. A ideia de Alex é usar Sol como “mula”, mas ela é pega e levada a uma penitenciária americana. Mas ela foge e se esconde numa caixa, que é entregue à casa do tradutor americano Ed (Caco Ciocler). Os dois se envolvem, para desespero de May (Camila Morgado), noiva dele.

Paralelamente, Alex se envolve com Raíssa (Mariana Ximenes), uma menina rica, filha do casal Glauco (Edson Celulari) e Haydée (Christiane Torloni). O casal vive uma eterna crise, já que Glauco tem um caso de anos com a advogada Nina (Cissa Guimarães), enquanto Haydée sofre calada e desenvolve cleptomania. A coisa fica pior quando Glauco se apaixona perdidamente por Lurdinha (Cléo Pires), melhor amiga de Raíssa. Quando descobre a verdade sobre Alex e sobre sua família, Raíssa entra numa fase rebelde, dando trabalho à família.

Com América, Gloria Perez quis, mais uma vez, discutir diversos assuntos em voga naquele ano de 2005. Segundo o site Memória Globo, a abordagem da travessia ilegal de brasileiros rumo aos EUA surgiu porque, de acordo com os dados da época, o brasileiro era o grupo que mais havia crescido entre os latinos que tentavam cruzar a fronteira pelo México. Em cinco anos, o número de brasileiros detidos na fronteira saltara de 500 para 8.600, em 2004. Gloria Perez quis mostrar na trama como funciona o esquema ilegal, revelando não só os perigos da viagem, mas também como os imigrantes pagam caro pela travessia.

Além do tema principal, Gloria quis mostrar o mundo do rodeio, por meio do núcleo de Tião. O tema gerou polêmica e críticas de ativistas dos direitos dos animais, que são contrários à prática. A cantora Rita Lee foi uma das personalidades que se posicionou contrária ao tema. Outros assuntos abordados em América foram a cleptomania, por meio de Haydée, que passou a novela toda passando apuros por praticar pequenos furtos até resolver procurar tratamento; e também o universo dos deficientes visuais, por meio dos personagens Escobar (Marcos Frota) e Maria Flor (Bruna Marquezini). Outro tema que deu o que falar foi a descoberta da homossexualidade, através de Junior (Bruno Gagliasso), filho da viúva Neuta. O rapaz percebe que é diferente, mas não entende direito o que se passa até conhecer o peão Zeca (Erom Cordeiro) e se apaixonar por ele. Junior e Zeca tiveram um final feliz, com direito até a um beijo que chegou a ser gravado. Mas a emissora optou por não exibi-lo, frustrando boa parte da audiência.

América estreou em baixa no Ibope. Muitos creditaram o relativo fracasso em razão da personalidade de Sol, que trocou seu amor por uma ambição. Além disso, a mocinha tinha um tom choroso, e estava sempre sussurrando, em lágrimas, e agarrada a um souvenir dos EUA a tiracolo. Por conta disso e de outros problemas, Gloria Perez e Jayme Monjardim, o diretor geral da novela, se desentenderam, e a autora chegou a declarar que não reconhecia no ar o que tinha escrito. Segundo Gloria, Sol tinha este nome porque era solar e ativa, e via na tela uma mocinha frágil e resmungona. A crise entre autora e diretor culminou com o afastamento de Monjardim, e Marcos Schechtman assumiu a direção-geral de América. Com a troca, saiu de cena a imponência e o jeitão de saga imposta por Monjardim, e América ficou mais clean e solar. A abertura também mudou, e o tema melódico Anjos do Paraíso, de Marcus Viana e na voz de Milton Nascimento, foi trocado pela divertida e caliente Soy Loco por Ti America, com Ivete Sangalo.

Além de corrigir os rumos na direção, Gloria Perez também corrigiu os rumos do texto, buscando fazer as pazes com a audiência. Como Sol e Tião não deram certo como par romântico, a autora optou por separá-los, dando ênfase na relação entre Sol e Ed. Enquanto isso, depois de um tempo nos braços de Gil, Tião foi buscar consolo no colo da veterinária Simone (Gabriela Duarte). Os novos casais agradaram o público. As motivações de Sol também ganharam um aditivo sentimental, quando Mariano (Paulo Goulart), padrasto dela, sofre de uma grave doença no coração. Assim, o grande motivo para que ela se submeta à perigosa travessia é poder pagar pela cirurgia que salvará a vida dele. As mudanças surtiram efeito e o Ibope de América subiu, e a novela terminou como um dos grandes sucessos do horário das 21 horas da Globo.

A escolha de Deborah Secco para viver a mocinha Sol foi bancada por Gloria Perez. Assim, a atriz viveria sua primeira grande protagonista no horário nobre, após anos coadjuvando, além de ter encarnado a mocinha Cecília de A Padroeira. A performance da atriz dividiu opiniões. Já para viver Tião, Gloria tentou trazer Rodrigo Santoro, que recusou. Optou, então, por trabalhar novamente com Murilo Benício, repetindo a parceria vitoriosa de O Clone. Já Vera Fischer foi convidada para viver Pimenta, a grande chefona da quadrilha que fazia a travessia ilegal, mas a atriz não pôode aceitar. Betty Faria, então, assumiu a personagem, que marcou seu retorno às novelas após um hiato de seis anos. Seu último trabalho em folhetins havia sido a sensual Carlota, de Suave Veneno. Mesmo vivendo uma personagem pontual, que aparecia de vez em quando, Betty se deu bem e voltou a trabalhar em novelas mais ativamente depois de América.

Com 203 capítulos, América foi dirigida por Jayme Monjardim, Marcos Schechtman, Luciano Sabino, Marcelo Travesso, Teresa Lampreia, Federico Bonani e Carlo Milani.

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Reveja o primeiro capítulo de América:

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