A atriz Érika Januza na coletiva da novela Amor de Mãe (AgNews)
A atriz Érika Januza na coletiva da novela Amor de Mãe (AgNews)

Já começou a contagem regressiva para o fim de A Dona do Pedaço, e o público da Globo se prepara para reencontrar, a partir do dia 25 (segunda-feira), na nova novela Amor de Mãe, uma das atrizes negras mais belas e talentosas da atual geração: Érika Januza.

É dela o papel de Marina, uma dedicada tenista que, em dado momento da história, terá de escolher entre a profissão e o amor pelo namorado, Ryan (Thiago Martins). “Eu tenho essa bênção de que as minhas personagens são sempre mulheres fortes que se dedicam pra conseguir alguma coisa. Algo muito brasileiro, que corre atrás independente de estar difícil“, celebra a atriz, que polemizou ao interpretar Raquel, uma juíza vítima de racismo, na recente novela O Outro Lado do Paraíso (2017).

Confira o bate papo completo de Érika com o Observatório da Televisão.

OBSERVATÓRIO DA TELEVISÃO – Você está maravilhosa com esse cabelo curtinho!

ÉRIKA JANUZA – A minha vida capilar dá uma novela! Desde a época em que você espera a idade pra alisar até o momento em que você se descobre como crespa na sua identidade e para de alisar, o cabelo vai crescendo diferente… Eu achava que meu cabelo era o meu escudo – pra estar bonita, tinha que ter um cabelo jogado aqui ou ali… Até que chegou o momento em que eu me desprendi de tudo isso e entendi que a beleza tem que estar em mim. Aí sugeri agora pro Villa [José Luiz Villamarim, diretor artístico da novela] pra mudar o meu visual, ele concordou e eu cortei o cabelo.

Essa mudança de look então tem a ver com a sua personagem, certo? Fale um pouco sobre a Marina.

Eu já estava querendo fazer essa mudança de visual antes. Mas aí pensei pelo ponto de vista de Marina, que é uma mulher que trabalha muito e usa todo tempo livre que tem para treinar… Ela não tem muito tempo pra cuidar do cabelo e essas coisas, é uma mulher prática, está focada no seu objetivo do esporte. Aí pensei: esse cabelo vai casar perfeitamente com ela.

Mas a Marina treina o quê?

Tênis! Ela quer ser uma tenista profissional. Ai pra mim, que na vida estou sempre treinando, [o novo corte de cabelo] também facilita muito. Estou achando moderno, estou achando lindo! Tô adorando!

O cabelo com esse corte é bem mais fácil de cuidar, né?

É bem mais fácil, mas eu mantenho a mesma rotina de cuidados. Não é só porque está curto que agora eu deixo ao Deus dará, não! Eu hidrato, uso produtos legais pra fortalecer, pra crescer – ele está crescendo muito! A rotina então é a mesma.

Você teve aulas de tênis para compor a personagem?

Eu estou fazendo aulas já há muito tempo, tem quase um ano já, e me apaixonei pelo esporte! Tenho jogado quase todos os dias. Assisto também, estou vidrada nos campeonatos e fico ligada sempre.

Tem alguma tenista que você admira?

Eu já curtia a Serena [Williams, tenista norte-americana]. Todo jogo de Serena, eu já aviso [pras pessoas]: ‘ih, gente, Serena joga hoje, eu tenho que ir embora’. Estou meio nessa vibe. Mas eu já gostava dela, já admirava antes, até já seguia ela.

Teve alguma inspiração nela para a sua personagem?

Sim. Tanto é que, quando o Villa conversou comigo, falou: ‘nossa inspiração é Serena’. Lembro que eu até pensei: ‘ih, cabelo de Serena não é assim, cabelo de Serena é grande’. [risos] Mas tudo bem, vamos na alma dela. Vamos na determinação dela, que também não foi fácil a vida dela até chegar onde ela está hoje, [como] uma mulher de sucesso.

Quando se fala em ‘amor de mãe’, qual a primeira palavra que vem à sua cabeça?

É o meu chão. Amor de mãe emociona a gente, né? Toda vez que eu preciso de paz, preciso respirar, eu sempre penso: vou pra casa da minha mãe.

O que sua mãe já fez por você que te comoveu? Seja na infância ou seja hoje em dia?

Eu sou filha única, então sempre houve todo um cuidado ali. Tudo o que eu me propusesse a fazer, mesmo que parecesse loucura, a minha mãe sempre falava ‘vai’ e sempre estava comigo. Ela me acompanhava e, se não dava certo, ela dizia uma coisa que eu levo comigo sempre: ‘se não deu certo, calma, alguma coisa melhor vai vir’. E eu não falo isso da boca pra fora, sempre tento levar minha vida desse jeito. É a fé da minha mãe e o pensamento dela, que ela passou pra mim e eu carrego de verdade.

Já bateu em você a vontade de ser mãe?

Sim, muita! Mas tô esperando, né? Tenho vontade de casar e tudo o mais… Mas não sei. Sei que, se não rolar de casar e tudo o mais, eu vou ter um filho. Porque acho que filho é continuação da gente mesmo. Mesmo que eu não encontre o amor da minha vida, eu quero ter filho.

Mas você está namorando agora?

É… Estou ‘bem’! [risos]

Como é trabalhar com Manuela Dias, autora da novela?

Tenho muita gratidão por ela. Eu já gostava muito do trabalho dela, quando ela ainda era roteirista. Assisti ao trabalho dela em A Floresta Que Se Move [filme de 2015, com Ana Paula Arósio e Gabriel Braga Nunes], e pensei: ‘gente, o que essa mulher fez?!’ Então o universo se movimentou e estou aqui hoje fazendo uma novela de Manuela. Todos os personagens que recebo são sempre mulheres fortes. Eu tenho relativamente pouco tempo de carreira, né? Comecei em 2012. Mas pra mim é uma eternidade. Sou grata por cada oportunidade que tive.

O cabelo novo mexeu com a sua vaidade? Como foi se ver no espelho de novo look pela primeira vez?

Foi maravilhoso! Eu me surpreendi muito! Porque, quando ele [cabeleireiro] começou a cortar, eu comecei a chorar. Mas, depois de pronto, vi e pensei: ‘meu Deus, por que eu não fiz isso antes?’ Eu tô amando! Recebo umas dez mensagens por dia, com fotos de meninas que estão cortando o cabelo. Tô até querendo armar um encontrão com todas elas.

Você então encorajou essas meninas a mudarem o cabelo?

É mais ou menos essa a mensagem que eu recebo. Cada uma com os seus motivos – mas sempre com uma ponta de medo. Algumas que já tinham cortado estavam inseguras por causa da reação das pessoas – ‘por que você fez isso? É cabelo de homem!’ Eu digo que não, é cabelo moderno!

Você chegou a ouvir isso de alguém, a respeito de ‘ser cabelo de homem’?

Sim, juro! ‘Ai, você era bonita antes…’ Mas então eu não era bonita, eu era só um cabelo!

Você rasparia o cabelo se o personagem pedisse?

Sim! Pra mim, personagem é entrega! Se você tem que fazer o treinamento em algum lugar, vai! Se você tem que aprender tênis, aprende! Se tiver que falar outro idioma, fala! Porque pra mim é assim, se tem que fazer, faz direito. A não ser que não esteja mesmo ao meu alcance. Mas, no geral, o que pedirem eu vou tentar fazer.

A rotina de treinos é cansativa?

Eu acho… Parece que você vai ter um treco. [risos] Cansa muito, mas muito mesmo! Das atividades que eu já pratiquei até hoje, foi a que mais exigiu de mim. Você precisa ter um fôlego surreal, porque a bola uma hora tá aqui, na outra tá lá. Dá muito cansaço, e é sempre debaixo de sol, né? Quadra não é coberta! Mas o lado bom é que, com o passar do tempo, você ganha resistência.

Já dá pra participar de um torneio?

Aí também não, né! [risos] Não vou me arriscar a tanto. Mas está dando pra me virar.

A Marina vai ter conflitos com o namorado, Ryan (Thiago Martins), por causa da profissão que ela escolheu?

Isso é spoiler… [risos] Ela vai ficar entre o amor [romântico] e o amor pelo esporte. Vai, sim, ter esse dilema. Novela tem que ter conflito, né? E eu estou adorando fazer. Eu já passei por esse mesmo dilema e sei bem como é. Chegaram umas cenas novas que me deram até vontade de dar um beijo na Manuela!

Você já optou pelo amor ao invés do trabalho?

Já… [risos] Mas hoje eu não faria de novo. Não me arrependo, porque acho que nada passa por nada. Como diz a minha mãe, tudo acontece quando tem que acontecer. E acho que aquele momento em que eu não fiz aquela escolha é porque eu não tinha que fazer, sei lá… Mas também já passei por situações em que me disseram: ‘ou eu ou seu trabalho’, e eu respondi: ‘um beijo, meu amor, foi ótimo estar com você’. Fui super imatura [naquele primeiro momento]. Hoje estou mais madura e não é qualquer coisa que me tira do meu trabalho não. Tem que ser algo muito relevante. Porque meu trabalho sou eu! Aquilo com que hoje eu luto por mim, pela minha família… O meu trabalho é minha base.

Os teasers de Amor de Mãe já apontam para uma carga forte de emoção. Você acha que a novela vai ter, de fato, essa pegada mais lacrimogênea?

Eu acho! Porque todo mundo tem alguma história forte com a mãe, né? Uma ligação, um conflito… E conflitos com mãe parece que são mais dolorosos e mais fortes ainda. Então as três personagens [as protagonistas Lurdes, Vitória e Thelma, respectivamente Regina Casé, Taís Araújo e Adriana Esteves] vão trazer visões diferentes desse universo materno. As pessoas vão se identificar muito. Vai ser bem bonito.

Existe algum episódio marcante que represente, para você, o amor entre você a sua mãe, dona Ernestina?

Eu me lembro de um concurso de beleza do qual participei, em que ninguém botou fé, ninguém quis ir assistir… Mas minha mãe falou: ‘eu vou com você’. Aí eu fui participar e ganhei o concurso! Nunca vou esquecer. A minha mãe lá na plateia, gritando, com o balãozinho, sozinha… Depois, na hora de ir embora, estávamos ela e eu, com o buquê de flores, faixa, presente, pegando ônibus vazio de madrugada… Mesmo ninguém acreditando, ela estava lá, acreditando nas minhas loucuras – que no final das contas nem eram tão loucuras…

Você tem sido importante na televisão no que tange à representatividade – inclusive em sua novela anterior, O Outro Lado do Paraíso, onde interpretou uma juíza negra. Você acredita que o seu trabalho serve como incentivo para que outras pessoas negras conquistem seu espaço na TV?

Não só na TV, em todos os lugares, acredito eu. Agora, a minha personagem vai trazer um viés diferente, da luta pelo sonho de ser uma atleta, o que é algo muito difícil! Geralmente quem quer ser atleta profissional tem que abdicar de um monte de coisas, ainda mais quando a pessoa tem uma situação financeira difícil. Não dá pra simplesmente só treinar. Muita gente que quer se tornar atleta não tem essa base que facilita tudo, e Marina também não tem. Eu tenho essa bênção de que as minhas personagens são sempre mulheres fortes que se dedicam pra conseguir alguma coisa. Algo muito brasileiro, que corre atrás independente de estar difícil.

Muita coisa mudou na televisão, em termos de presença e representatividade negra, depois da polêmica envolvendo a falta de atores negros no elenco de Segundo Sol (2018). Você acredita que o que estamos colhendo nesse momento atual, nesse sentido, é em boa parte fruto do ‘barulho’ feito naquele então?

Eu, na verdade, acho que nem foi questão daquela manifestação não. Eu acho que se trata de um movimento em que a TV já estava – e ainda está, graças a Deus. Temos muito o que evoluir, mas já estamos nesse movimento de ‘podemos ser o quisermos e temos que estar em todos os espaços’, independente do personagem. Eu já ouvi, na publicidade, coisas do tipo: ‘Érika, a gente tentou, mas a revista disse que negro não vende’. E, pra mim, ouvir isso, no começo da minha carreira… Mas acho que as pessoas hoje em dia não estão mais aceitando esse tipo de pensamento. Não vende? Então eu não compro!

(entrevista realizada pelo jornalista André Romano)

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