Lurdes (Regina Casé) de Amor de Mãe
Lurdes (Regina Casé) de Amor de Mãe (Divulgação/TV Globo)

Longe das novelas desde As Filhas da Mãe (2001), Regina Casé retornará ao segmento em Amor de Mãe, trama das 21h que estreia no próximo dia 25. Em entrevista ao Observatório da Televisão, a famosa falou sobre Lurdes, a personagem que viverá, e do novo desafio profissional.

Como tem sido voltar às novelas?

“Eu não imaginava que ia ser tão bom, cuidado, todo mundo querendo a mesma coisa, uma equipe muito amorosa. A parte mais difícil para mim foi quando meu neto ficou doente, eu estava viajando e tive de voltar correndo. Eu já experimentado o amor de mãe, mas descobri que o amor de vó é muito mais barra.”

O que achou do resultado da novela?

“Eu ainda não tinha visto nada, mas achei bárbaro. Quando eu gravo a novela, nunca assisto no monitor porque se eu olhar ali, começo a achar vários defeitos, então prefiro me jogar. Acho que esta personagem não pode ter nenhum momento racional. Ela é só emoção e coração. Fiquei muito feliz com o resultado não só do meu trabalho como também dos meus colegas. É bacana ver essas pessoas, que eu já vinha acompanhando de outros trabalhos, se jogando, despidos e entregues. É lindo de ver!”

Quem é a Lurdes?

“É uma mulher como a maioria das brasileiras e nordestinas, principalmente, que a vida é trabalhar e defender seus filhos. Tentar dar a eles dignidade, princípios, exemplos de honestidade. Acho que é como a maioria das mulheres do Brasil.” 

Você se inspirou em mulheres mais da periferia?

“Sempre que me perguntam se eu me inspirei em alguém especial, digo procuro esquecer isso porque seria injusto. A personagem é tão rica, complexa e bonita… Eu comecei a viajar com [a companhia de teatro] Asdrúbal Trouxe o Trombone nos anos 1970 e, desde lá, viajei pelos lugares mais ermos e afastados do Brasil mais profundo. Então quando eu penso em uma para me inspirar, eu penso em umas 100 delas. Se eu conseguir, vou colocar umas 100.”

O que te fez voltar às novelas?

“A qualidade deste texto maravilhoso, a fotografia do Walter Carvalho, a direção artística do José Luiz Villamarim que eu sempre quis. A ficção atualmente é uma maneira mais suave e doce para chegar e conversar com as pessoas. Elas estão muito arredias, não conseguem se ouvir e por meio da emoção e do amor de mãe, contando com a minha atuação, acho que na dramaturgia e na ficção acho que é mais fácil ser uma ponte entre diferenças, algo que sempre fiz.”

O que você buscou na mãe Regina Casé para a Lurdes?

“A superproteção: o maior defeito das duas!”

Como tem sido compor uma mulher que não mede esforços para amar seu filho que foi vendido no passado?

“Tem sido muito bonito. Recentemente gravei uma cena muito bonita com o [Humberto] Carrão em que ele voltava da prisão e minha personagem sabia que amava seu filho desde sempre. Ele não sabia porque sempre teve uma vida dura e difícil, nunca sentiu isso. De início, ele se assunto e acho que é uma descoberta do que é um amor de mãe. Ele se assusta e se pergunta ‘como essa mulher gosta de mim se estou preso e fiz tudo errado? Mesmo assim ela me ama?’”       

Já existe uma possibilidade de os filhos serem trocados. O que você acha sobre isso?

“Eu ainda não sei. Não me falaram nada! Acho que seria legal também porque assim a gente não pré-julga os personagens.” 

Qual foi a cena mais marcante para você até o momento?

“É uma surra de emoção. Não sei como vocês vão aguentar. Olha que bacana para uma atriz: eu leio uma cena e fico ansiosa para gravar logo porque quero ver aquilo acontecer. Eu estava morrendo de saudade de voltar a atuar, mas deixar meu antigo trabalho e viajar o país como apresentadora, precisava ter um personagem como este para eu ter coragem de largar tudo e me jogar de novo como atriz.”

É tudo o que você esperava?

“É mais ainda. Eu estava morrendo de medo, não convivo com isso há anos. Quando eu tinha meu programa, era a atração da Regina, com o maquiador da Regina e aqui tem outro jeito de trabalho de equipe, com muitos profissionais em volta e eu tinha medo da readaptação. Está sendo um sonho e fui recebida da maneira mais carinhosa possível.”

A Maria Bethânia canta a música-tema da Lurdes, uma sugestão de um seguidor de seu Instagram. Como foi isso?

“Eu quero agradecer muito a ele. Era uma pessoa com quem eu nem converso, que apareceu na minha rede e me mandou uma mensagem dizendo ‘eu vi que você vai fazer a novela Amor de Mãe. Sabe qual música eu acho que poderia ser a sua? Aquela Onde Estará o Meu Amor? Combinaria tanto com a personagem procurando seu filho’. Quando deu meia-noite, eu mandei essa sugestão para o Villamarim, com o link da música e 30 minutos depois estava aprovado. Eu agradeço muito a ele, a ideia foi linda e quando a escuto me ajuda. Eu sou louca pela Maria Bethânia e ela foi uma das pessoas que mais insistiu para que eu voltasse a atuar. Ela sempre me disse que amava o meu programa, mas queria me ver como atriz. Esta música me embala, me carrega e puxa minha emoção.”

Por causa de um filho você desceria do salto e meteria o dedo na cara de alguém?

“Com certeza, isso eu faria!”

A Regina cobra pela sua volta aos programas de televisão?

“Cobram demais. Em alguns lugares, como na Bahia, eu quase apanho. Sempre pedem para voltar o Esquenta.” 

E como foi receber um prêmio do cinema?

“O filme Três Verões vai ser lançado muito próximo à novela e nele eu faço uma mulher do povo e isso me orgulho muito. Não é à toa que me escolhem para este tipo de papel. Este filme ganhou um prêmio no primeiro festival que participou e isso me deixou muito feliz.” 

Qual é análise que você faz da sua carreira até aqui?

“Eu sempre trabalhei com profissionais maravilhosos, sempre escolhi as pessoas com quem trabalho. Para se jogar em cena sem maquiagem, sem pentear o cabelo, você tem de ter uma confiança em quem te cerca. Você precisa colocar todas as suas emoções que estão guardadas juntas e colocar para fora. Tem de ter confiança em quem tá junto. Minha carreira sempre foi assim, seja no teatro, no cinema e na televisão.” 

O que você diria à Regina criança sobre sobreviver neste universo machista e sendo mulher?

“Não é mole, mas desde muito pequena, que eu me entendo por gente, sempre entendi que não posso deixar de fazer algo ou agir diferente por ser mulher. Nunca! Acho que minha história mostra isso.”

Você fez um personagem muito parecido em Que Horas Ela Volta? Como é sua preocupação para diferencia-las?

“Eu sempre digo que não tento fugir da Val, apesar de quem acham que o sotaque ficaria igual. É mais um preconceito que a gente precisa desconstruir: por que todo rico é diferente e todo pobre é igual? Por que todo sulista é diferente e o nordestino é igual. Precisamos repensar esta ideia.”

Na sua opinião, por que Amor de Mãe tem tudo para ser um sucesso?

“Acho que a receita que nos abraça, seja em qualquer idioma, é fazer as pessoas rirem e chorarem. Se você conseguir fazer alguém ter essas duas reações com sua expressão corporal ou com seu jeito, ele sempre estará junto com você. Esta novela mostra isso e o público vai chorar todo dia. Eu garanto.”

Como vai ser conciliar seu filho pequeno e um neto com as gravações?

“Este lado vai ser brabo, já tem sido, mas me programei muito. Foi tudo pensado. Eu estava com um novo programa engatilhado, quase pronto para entrar no ar em outubro do ano passado quando fui convidada. Eu fiz esta escolha, quis me dedicar a isso e conversei em casa que iria sumir. Vai ser muito legal.”

Como é interpretar uma mulher escrita por uma mulher?

“É maravilhoso! A Manuela é mulher e mãe, escrevendo para outra mulher e mãe. Ela é apaixonada pelas mulheres do Brasil que têm uma luta por dia, pelos seus filhos, para dar de comer a eles, protege-los da violência… Ela faz isso de maneira linda.”

Ter um filho pequeno hoje é muito diferente da época que você teve sua filha?

“Tiveram aspectos diferentes porque o mundo te deixa mais apavorada. Como será o mundo do Roque tem apenas 6 anos? Isso se tivermos um mundo ainda para ele viver. Dizem que a natureza é sábia, mas às vezes acho que de início ela é meio burra. Hoje sou uma mãe muito melhor para ele, ficando mais velha, do que fui para a Benedita, quando eu tinha muitos medos e inseguranças. Ficava apavorada. Acho que ser mãe mais velha é bem mais legal.” 

E como é ser avó?

“Nem queira saber! Você fica apaixonada pelo neto e pela sua filha. Vê-la virar mãe é uma maravilha. Não sou do tipo de avó que deseduca, que dá doces escondidos, sou firme e brinco muito com ele. A gente tem uma caverna feita de cobertores, brinco que ali só tem os bichos que saem de noite, como morcegos, corujas e cobras e ele fala que vai colocar a zebra na caverna. Eu digo que não e, três dias depois, ele aparece dizendo que vai colocar a zebra na caverna. A gente tem uma relação de brincadeira e proximidade muito grandes. Já meu filho está numa fase difícil, acha que tem 16 anos. Dias desses ele sumiu no churrasco da Mangueira e ele disse que tinha ido ao banheiro. Perguntei por que ele não me chamou e ele respondeu ‘senão eu teria que ir no de mulher e eu queria ir de homem, então fui sozinho lá longe’.” 

A Gloria Maria disse que levou as filhas num aniversário na sua casa e as meninas saíram encantadas de lá porque encontraram pessoas mescladas. Foi assim?  

“Foi ainda mais bonito: elas não queriam ir ao aniversário porque não gostam dessas festas. Elas são negras e quando os negros migram de classe social, sempre são os únicos em festas, aniversários e todos ambientes. Quando chegaram lá, encontraram pessoas de todas as cores, classes e às 21h não queriam ir embora. A Gloria as questionou ‘mas vocês nem queriam vir’ e elas responder ‘ah, mãe, mas aqui veio todo mundo’.”

Sua personagem tem um ponto em comum com você que é a adoção…

“Sim, sempre digo que amor de mãe é uma droga poderosíssima que você pode ver e sentir coisas que você não sentia antes. Ser uma mãe por adoção é o contato direto com o mistério. É como colocar um plug no sagrado. Você não conhecia aquela pessoa em um dia e, no outro, eu o amava tanto quanto amo a Benedita. Era igual. Eu achava que seria uma construção, mas não foi. É um troço estranho que vem de um lugar maluco.”

*Entrevista concedida ao jornalista André Romano

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