Juliana Paes vive a personagem Maria da Paz em A Dona do Pedaço (Reprodução: Instagram)
Juliana Paes vive a personagem Maria da Paz em A Dona do Pedaço (Reprodução: Instagram)

A atriz Julian Paes, de 40 anos, já se prepara para a despedida de uma das personagens mais representativas de sua carreira -assim define ela sobre Maria da Paz. Imersa na boleira da história criada por Walcyr Carrasco desde maio, a atriz, junto ao elenco estelar da produção, colhe os louros do sucesso de A Dona do Pedaço.

O atual cartaz do horário nobre da Globo tem batido recordes de audiência, chegando a marca de 40 pontos nas principais praças do Brasil: São Paulo e Rio de Janeiro. Em entrevista ao Observatório da Televisão, Juliana Paes conta que se sente lisonjeada com a oportunidade de estar em uma novela com o alcance de popularidade extremamente positiva, tanto aos cofres da emissora, quanto com os telespectadores.

Ela ainda declara que as últimas emoções da história tem lhe desgastado bastante, além de ressaltar a importância da relação entre mãe e filha retratada na história. “Não existem só frutos bons e isso não é culpa dos pais“. Confira:

Maria da Paz (Juliana Paes) no Best Cake. (Divulgação: GShow)

A Maria da Paz conquistou o Brasil. Como você recebe esse carinho do público?

Eu estou muito feliz! E lisonjeada de verdade com o sucesso da novela. Eu também estou muito cansada. Ainda mais nessa reta final. A gente fica muito exaurido fisicamente e mentalmente sobretudo. As sequencias que finalizam a história são sequencias que puxam muito da nossa missão, é muito texto para decorar, muita emoção para dar conta.

Existe este cansaço, mas existe, ao mesmo tempo, uma sensação de plenitude, de gratidão de missão cumprida. Esta novela foi desafiadora em vários aspectos. Tinha uma missão de fazer uma mocinha que fosse querida. É difícil hoje em dia, em um momento em que o Brasil ama amar os vilões, fazer uma mocinha que seja amada e abraçada pelo público, eu sinto que foi um desafio cumprido.

Fazer com que as pessoas torcessem pela Maria da Paz, apesar dela ter este amor exacerbado pela filha e com esta cegueira de mãe, com todos os precalços, ter conseguido fazer ela entrar no coração das pessoas, eu já estou com a vida ganha“.

Juliana Paes na capa do CD de A Dona do Pedaço
Juliana Paes na capa do CD de A Dona do Pedaço (Reprodução)

E essa reta final? Já que ela descobre que a Josiane (Agatha Moreira) é filha dela de sangue …

Tinha uma metade de mim, que torcia para a Maria da Paz, ser mãe da Joana (Bruna Hamú). Acho que seria uma alegria para a Maria da Paz, ter essa filha de sangue, que teria esse amor e essa admiração pela mãe. Mas, por outro lado, eu acho importante para o público ver que bons pais, boa criação, pode gerar frutos ruins.

Acho importante também trazer essa mensagem, é importante, já que a culpa não é de quem cria. Acho que os indivíduos escolhem os seus próprios caminhos, independentemente de quem os criou. Essa mensagem importante também. A Maria da Paz tem este peso dentro dela: eu errei? Onde eu errei? por que eu errei? E eu sei que quando eu falo isso, eu estou falando a dor de muitas mães pelo Brasil.

O que eu fiz de errado pelo meu filho? O que eu fiz de errado para meu filho sendo que eu dei tudo? fiz que tudo estava ao meu alcance e até o que não estava. E mesmo assim o meu filho se drogou, se desviou, foi para o crime. Então, essa mensagem é importante. A culpa não é de quem cria. Os indivíduos escolhem seus próprios caminhos”.

Maria Da Paz (Juliana Paes) em A Dona do Pedaço
Maria Da Paz (Juliana Paes) em A Dona do Pedaço (Divulgação/ TV Globo)

Você está torcendo para a Maria da Paz ficar com quem no final?

“Eu sou a única desse elenco que eu não posso declarar voto. Eu estou isenta aqui.”

Mais uma protagonista… Qual a sensação de sucesso profissional que você está tendo?

“O reconhecimento profissional nunca vem de um trabalho só. O público leva tempo para te colocar na gaveta dos granes patamares. Vamos pegar as grandes divas: Laura Cardoso, Fernanda Montenegro: elas não usufruíram deste titulo enquanto jovens. Levou-se um tempo para instaurar essa coisa toda.

E eu fico muito feliz com todo o reconhecimento que já tenho nesta altura da minha vida porque já tive grandes oportunidades e cavei muitas dessas oportunidades e com muita renúncia. As pessoas pensam que é só glamour, mas não é. É muita renuncia, é muito deixar filho em casa, é muita culpa.

Um dos grandes trabalhos que me deu muito ensinamento e muita projeção foi um trabalho que eu tive que deixar filho em casa com quatro meses. Eu não tenho muitas dores de culpa por ter feito isso, por outro lado eu posso colher estes louros profissionais hoje.

Régis (Reynaldo Gianecchini), Maria da Paz (Juliana Paes) e Amadeu (Marcos Palmeira) em A Dona do Pedaço
Régis (Reynaldo Gianecchini), Maria da Paz (Juliana Paes) e Amadeu (Marcos Palmeira) em A Dona do Pedaço (Divulgação/ TV Globo)

Eu sinto hoje em dia que as pessoas me veem como uma grande artista, e isso pra mim não tem preço. Eu tive que batalhar muito por isso, e paguei caro. Mas o tanto que eu paguei, inflacionou de um jeito, que não tem preço não”.

A Maria da Paz foi o melhor personagem que você fez?

“Eu acho que talvez a Maria da Paz, tenha sido a personagem que mais se comunicou com o grande público. Com o que a gente chama de povo. A Maria da Paz conseguiu tocar de maneira geral, não importando idade, classe social, sexo, raça. Enfim… Eu estava meio contemplativa ontem, e, cheguei em casa casada pra caramba. Aí, fiquei na varanda pensando: ‘o que a Maria da Paz faria nessa situação?’.

Já que eu estava prestes a tomar uma atitude da minha vida. Olha que loucura! Entende, quando um personagem ganha uma alma, um contorno que transcende. Vai além do que a novela conta, é um comportamento, é um jeito de ser. Então, é um jeito de ser positivo, do bem, moral, que sempre acolhe as pessoas, que não tem nem um tipo de preconceito.

Então, eu fiquei pensando: ‘o que ela faria agora!’. Eu já respondi: ‘ela teria um pouco mais de paciência. Ela iria esperar’. Esse ‘jeito’ Maria da Paz de ser, me inspira também, como Juliana. Essa inspiração que tem para mim, tem para muitas outras pessoas também”.

Maria da Paz (Juliana Paes) com ódio de Josiane (Agatha Moreira) em A Dona do Pedaço
Maria da Paz (Juliana Paes) com ódio de Josiane (Agatha Moreira) em A Dona do Pedaço (Divulgação/ TV Globo)

Você que responde as mensagem em suas redes sociais?

“Eu estou sempre fazendo aquelas palhaçadas lá. Tenho pessoas que cuidam das coisas pra mim. Tenho a minha cozinheira -que não troco por nada. Tenho uma pessoa que cuida dos dois [filhos], a que cozinha, tenho o Sr. Valdecir que me traz e me leva, e também leva meus filhos, ele é um anjo na minha vida.

Tenho quem cuida de pagamento, marca uma consulta, vê meus roteiros. E tenho o pessoal do escritório que cuida dos meus contratos, além da turma do digital que cuida desta parte de postagens, o staf. Curtidas e comentários sou eu; imagina que vou deixar alguém escrever por mim.

Fico impressionada com quem não reconhece vocês [jornalistas] que a gente se encontra toda hora. Às vezes não dá tempo de falar, mas eu não sei. Acho assim: a minha matéria prima é olho no olho. Eu só consigo fazer bem uma cena se eu tenho boas relações humanas. É no dia a dia, no trato com as pessoas, é no olhar pra você e ver que você está olhando para mim de verdade que eu estabeleço relações e que eu entendo como elas se dão no dia a dia.

Juliana Paes como Maria da Paz em A Dona do Pedaço
Juliana Paes como Maria da Paz em A Dona do Pedaço (Divulgação/ TV Globo)

Ser ator é viver do exercício de empatia. Como você se diz ator e não exercita empatia fora de cena? Isto pra mim não faz o menor sentido. Se eu me emociono com as emoções de um personagem, é que eu consigo me colocar tanto no lugar de um personagem, é que eu consigo chorar por ele e sofrer por ele. Isto é você se identificar a este ponto.

Se eu não consigo levar este execício de empatia eu não consigo levar ele para fora de minha vida e isso é quase esquizofrênico. Você decide quando ser ou não ser? Eu não consigo“.

O título da novela remete a você, porque você é uma pessoa assim, não é?

“Eu acho que eu tenho essa energia de gostar das pessoas. De chegar e contagiar as pessoas positivamente, nesse sentido talvez se refira a mim. Mas, por outro lado acho que A Dona do Pedaço fala com todas as mulheres. Eu estou muito feliz ao criar essa personagem, porque A Dona do Pedaço vai conversar com todas as mulheres que são donas de si, que se fizeram pelo próprio esforço. E que são a razão do próprio sucesso.

Esse é o sentido de ser a dona do seu próprio pedaço, da sua própria vida, da sua própria história. Nesse sentido a personagem vai falar muito com o público feminino. Essa palavra do empoderamento que está na moda agora e eu acho muito bom que esteja, tem tudo haver com essa Maria da Paz que estamos trazendo.”

Maria Da Paz ( Juliana Paes )

Você fez muito bolo, mas você aprendeu ou já sabia?

“Eu não sou muito de ir para a cozinha, mas quando eu vou é para fazer sobremesa. Claro que fazer um bolo comum, um bolinho de banana sempre foi fácil para mim. Mas eu tive aulas de uma culinária mais avançada existem segredinhos e jeitos de fazer no manejo, que são mais profissionais. Quebrar o ovo com uma mão só, dar um toque diferente no brigadeiro para ele ficar um pouco mais cremoso. Eu sempre untei a forma do bolo colocando manteiga e farinha, mas dá para fazer também colocando só papel embaixo.”

Você nunca ligou muito para o sucesso, né?

“Eu sempre achei muito chato essas pessoas que se sentem descoladas das outras profissões porque são artistas. Eu acho que o trabalho do artista é como o trabalho de qualquer outro profissional, eu não consigo achar que a gente está descolado em nenhum quesito. O que a gente tem de diferente é a visibilidade, a gente fica em uma vitrine o tempo todo. E ninguém consegue enxergar isso como um bônus. Mas isso é difícil, porque são expectativas que você tem que atender o tempo todo. Por outro lado o bônus para mim é poder viver personagens diferentes, estar cada dia em um lugar, cada dia com uma equipe. O que as pessoas julgam que as vezes é o grande bônus, não é“.

Juliana Paes, Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, astros de A Dona do Pedaço
Juliana Paes, Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, astros de A Dona do Pedaço (Reprodução/Instagram)

Como está sendo a troca com o elenco?

“Eu estou muito feliz com esse elenco, não poderia estar mais feliz. O Marcos a gente já tinha trabalhado antes, então a gente já tinha essa troca de amizade. Ele é muito pé no chão, muito simples. É um cara nada deslumbrado. Acaba uma novela e ele volta lá para a fazenda dele, eu volto para a minha turma de São Gonçalo e é mais um dia, vida que segue”.

Quando você se sente a dona do pedaço?

“Eu me sinto a dona do pedaço, quando eu consigo dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo. Quando eu consigo gravar, chegar em casa, tomar conta da merenda das crianças, fazer dever de casa, colocar para dormir, leio uma historinha, deito e ainda vou assistir um filminho. É aí que eu falo que estou me sentindo a dona do pedaço”.

Você se cobra por isso?

“Muito. Eu acredito que ser mãe é viver com uma parcelinha de culpa sempre, você pode ser a mais analisada do mundo, faz a terapia que for. Eu nunca fiz terapia, estou querendo, mas não tenho tempo. Sempre a gente tem a sensação de que alguma coisa faltou, é difícil dar conta, mas o final de semana eu levo para a praia ou fico em casa com eles.”

Juliana Paes
Juliana Paes (Divulgação: TV Globo)

Como é educar dois filhos homens em um universo tão machista?

“É uma missão, uma tarefa complicada. Porque a gente não educa os filhos sozinhos, tem as pessoas em volta que são parte da formação da mentalidade de uma criança, essa parte é mais difícil. Tem o que eles assistem na televisão, no celular, tem o que o avô que é de uma geração anterior fala: ‘Ei, para de chorar, menino não chora’. Outra dia eu ouvi e gritei: ‘Chora sim!’. Tem que educar com muito amor, porque eu não acredito no pé na porta, mas sim na palavra doce e amorosa. Mas às vezes é bom chegar para o homem e falar para deixar ele ser como quiser, escolher a cor que quiser e se expressar como quiser.”

Quais momentos de A Dona do Pedaço mais te marcou?

“As primeiras cenas no Sul foram muito desafiadoras porque começar um trabalho sempre muito nervosa, vou completar cinquenta anos aqui na Globo, vou ficar sempre nervosa. Você sempre está escolhendo o jeito de colocar a mão, de falar, de se expressar.

A cena do tiro no Amadeu na igreja foi de muita emoção e ao mesmo tempo era inicio, tinha essa coisa da carga dramática. Depois foi a cena de quando ela bate em Josiane, muito pelas pessoas estarem esperando por aquilo e também porque quando eu estou muito emocional eu fico com medo de machucar os colegas, com essas unhas. E com muita coisa, a primeira coisa que eu fiz foi arrancar essas coisas.

A sequencia do tiro no Régis naquela semana eu fiquei só o pó. Foi muito surreal, foi doido aquilo ali. A cena com a Paola também. Foi bem marcante, mas eu e Paola demos o nome, gostei do resultado, ficou bem bonito porque quando eu choro de novo assistindo a cena, este é o meu termômetro”.

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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