Poucas personagens de A Dona do Pedaço mexem tanto com o imaginário do público – sobretudo feminino – como Lyris. Longe de se abater ao saber que o marido, Agno (Malvino Salvador), se assumira gay, a filha de Gladys (Nathália Timberg) deu a volta por cima e intensificou a encomenda de bolos de limão – entre outros ‘servicinhos’ extras – com Tonho (Betto Marque).

Intérprete da dondoca ‘saidinha’ das 21h, Deborah Evelyn vê como algo bastante positivo o sucesso da personagem – inclusive, no sentido de mudar a visão das pessoas sobre a atividade sexual feminina na faixa dos 50 anos.

Se o preconceito estivesse tão grande, a Lyris não estaria tendo a repercussão positiva que está tendo. Não recebi nenhum feedback negativo, então as pessoas estão entendendo que a mulher é um ser humano como o homem, que tem os mesmos direitos, e que sexo é uma coisa boa, saudável, faz parte do ser humano“, analisa.

Confira o nosso bate papo completo com esse grande nome do elenco da Globo.

OBSERVATÓRIO DA TELEVISÃO – Como é para você interpretar a Lyris em A Dona do Pedaço?

DEBORAH EVELYN – Ela tem essa coisa para cima, de ter dado uma virada, de não se abater com tudo o que aconteceu com a vida dela. Claro, ela teve o choque ao saber que o marido é gay, mas não ficou deprimida. Começou a ‘terceirizar’, encomendar bolos de limão – o que acho importante porque a vida é uma só e não temos que botar nossa felicidade na mão dos outros. A nossa felicidade nós criamos. Se o marido está ali e não está interessado nela, vai à luta, e procura sua satisfação onde você possa encontrar.

Alguém chegou para você com uma história parecida com a da Lyris?

Muita gente. Não só a questão do marido gay, mas o fato de ‘terceirizar’. Não usando essa palavra, que acredito que foi um achado, mas de mulheres dizendo que se inspiraram na Lyris para começar a ‘terceirizar’ e ser feliz. Ouço pelas ruas ‘quer um bolo de limão?’ É uma coisa que caiu no gosto popular e entendo o porquê. Foi a maneira inteligente e bem-humorada que ela teve de dar a volta por cima.

Você acha que ela vai ficar sempre ‘terceirizando’ ou ela pode se apaixonar?

Novela é feito a vida, a gente não sabe o que vai acontecer. O Walcyr é muito assim, ele até tem uma sinopse, mas ele segue muito mais a intuição e a resposta do público, então tudo pode acontecer. A gente recebe aquele bloco, e vai ler feito louco para ver o que vai acontecer. Eu leio tudo porque acho maravilhoso, e não quero ver só meu personagem, quero saber de todo o resto, então acho que ela pode continuar ‘terceirizando’ enquanto não se apaixona por alguém. Torço para que ela se apaixone, e construa uma relação. Se ela não encontrar, vai continuar ‘terceirizando’.

Você fez cenas muito sensuais. Foi complicado?

Cena de sexo é sempre muito delicado porque você está muito exposta fisicamente. Eu particularmente não fico pensando que estou exposta para milhões de pessoas, mas estamos ali num estúdio com muita gente. Nessa novela foi tudo feito com muito bom gosto, tanto Betto Marque, quanto Rafael Queiroz como Malvino Salvador, os três com atores com quem tive cenas de sexo foram maravilhosos e muito respeitosos. A direção foi sempre de muito bom gosto, e a equipe carinhosa. Teve uma cena que eu nunca vou esquecer, que a Lyris esperava o Agno pelada, e são coisas que eu fico constrangida em fazer, mas gostei do resultado, e me senti da melhor possível porque fui tratada com respeito e delicadeza.

A Cássia agora está passando por um momento delicado, vai ser assediada através da internet. O que você acha sobre esse assunto?

Acho que o Walcyr toca em coisas muito importantes, e de uma maneira que não é chata, pesada e para baixo. A partir desse lugar é que a gente começa a refletir. A questão da internet com o adolescente é importante de se falar porque é um portal para um mundo que você não sabe qual é. O adolescente não tem a capacidade de discernir se aquela pessoa está mentindo ou não, ou se as intenções são verdadeiras. É difícil perceber isso pela internet, e acontece muito e cada vez mais. É um assunto que os pais têm que prestar atenção e creio que o caminho é através da conversa, porque não adianta proibir. É falar sobre, mostrar o que pode acontecer, e eu acho importantíssimo que o Walcyr esteja falando disso numa novela com esse impacto e alcance que essa novela tem. Eu que sou mãe de menina, esse foi sempre um medo meu.

O que você acha da Lyris mãe? Porque naquela família parece que é cada um por si, e talvez esse momento a aproxime mais da filha.

Eu espero, e acho que o Walcyr quis mostrar que tanto a Lyris como o Agno usaram a Cássia como moeda de troca na separação. Isso acontece e é sério. O filho não tem nada a ver com essa história, e acho que eles não se atentaram para isso, e sobre o quanto isso era prejudicial. Às vezes a gente não vê que estamos fazendo algo. Espero sim que a Lyris e o Agno se tornem melhores nesse sentido.

Você disse que tinha medo quando sua filha era adolescente em relação à internet. Como você lidou com isso?

Conversando muito, não só sobre essa questão de existirem predadores sexuais através da internet, mas sobre outras coisas da rede. Por exemplo, uma coisa que era muito presente na época dela, era anorexia. Então por estar fazendo uma novela com esse tema na ocasião, eu descobri um site que ensinava os adolescentes serem anoréxicos sem que os pais percebessem. Sempre conversei muito com minha filha, não é que eu seja amiga da minha filha, porque acho que mãe é mãe, pai é pai e amigo é outra categoria, mas fui muito mãe no sentido de estar bem perto. Em todas as relações, é conversando que a gente se entende. Não é à toa que o ser humano tem essa capacidade de conversar, e temos que usar isso. Entender o ponto de vista do outro, refletir, responder.

A Lyris tem essa tara por sexo, e hoje falamos dessa nova mulher que aos 50 pode e deve ter vida sexual ativa. Você acha que as pessoas estão compreendendo isso?

Espero que sim (risos). Se o preconceito estivesse tão grande, a Lyris não estaria tendo a repercussão positiva que está tendo. Não recebi nenhum feedback negativo, então as pessoas estão entendendo que a mulher é um ser humano como o homem, que tem os mesmos direitos, e que sexo é uma coisa boa, saudável, faz parte do ser humano. Então por que uma mulher não tem direito ao sexo da maneira que a satisfaça? Para as mulheres isso tardiamente está começando. Estamos no século 21 e isso ainda é uma questão, como o assédio, estupros e tudo mais. Li que a cada duas horas uma mulher é assediada, e é inacreditável essa postura que os homens têm de achar que têm algum poder sobre as mulheres.

A sua personagem tem um ar muito sensual até para poder conquistar. Como chegam os comentários sobre a volúpia da Lyris?

Mesmo os comentários que poderiam ser maldosos, são feitos de uma maneira carinhosa. Na minha carreira toda, esse é meu primeiro personagem que puxa um pouco para esse lado, e acho que também ajudou o fato de nunca ter feito um personagem assim. Foi uma coisa inexplorada, que agora depois dos 50 estar fazendo uma personagem que além de ajudar a questão das mulheres, que podem se empoderar, me deu um raspaldo de uma carreira com um caminho, então todo os comentários são positivos, mas tudo com bom humor.

A Lyris tem um pé no humor, não é mesmo?

O Walcyr soube construir isso de forma muito legal porque quando você faz com bom humor e leveza é diferente. Se ela ficasse angustiada porque o marido não quer saber dela, ou porque ele é gay não seria legal. E com o humor as coisas chegam melhor nas pessoas. A vida já está tão dura, e sexo é para ser uma coisa boa e leve. Já o que vai acontecer com a Cássia, isso sim é pesado.

Você encontrou mais sensualidade em você mesma por interpretar a Lyris?

Eu acho que sim. Por exemplo, eu fiz umas fotos para o Gshow que eu nunca tinha aceitado fazer anteriormente porque sempre achei que não tinha motivo para fazer. Como agora tenho esse personagem, fiz e adorei o resultado. Realmente isso foi incorporando na minha vida. Sou uma pessoa bastante bem resolvida nessa questão, mas isso no meu trabalho, acabou dando uma alegria.

E os elogios nas ruas?

São interessantes, porque antes eu só ouvia do meu marido.

A Lyris é uma personagem diferente das que você já fez que eram mulheres mais duras, não é?

Eu adoro personagens densos, dramáticos. Posso citar vários, mas é tão bom na nossa carreira conseguir fazer uma coisa diferente, é ótimo, ainda mais poder variar que é algo que nem sempre é possível. Nesse aspecto agradeço muito ao Walcyr por a Lyris ser dessa maneira. Se ela fosse a Beatriz de Celebridade, ela ia lidar de uma maneira completamente diferente. Ia achar que o fato de o marido ser gay é um problema dela, que ela fez algo errado, e não é nada disso. Lyris queria ter uma separação mais justa porque ele foi sacana, mas de resto tudo bem, vai ser feliz. Estão sendo criadas cenas entre Lyris e Agno que eu particularmente estou achando muito bonitas, falando sobre aceitação. Na verdade, não tem nem essa coisa de aceitar. Quem é você para aceitar o outro? O outro é o outro. Ele tem o direito de ser quem ele quer.

Para um homem de 50 anos, papel de galã ainda é oferecido. A Meryl Streep brincou que quando ela fez 50, só deram papel de bruxa para ela. E como é para você virar quase um sex symbol nessa idade?

Adorei você usar Meryl Streep, porque olha, que atriz, ela faz de A a Z. Que sentido ruim pode ter um sex symbol. Acho ótimo. É mais uma coisa na minha carreira, um personagem trabalhado por essa via. Outro dia falei da minha personagem em A Muralha, cuja vaidade era zero, e acho que nessas horas somos massinhas de modelar, que vamos nos modelando de acordo com o personagem. Na Lyris, a espinha dorsal é essa sexualidade e a vontade dela de abraçar o mundo, de ir em frente, ser vitoriosa no sentido humano e não se abater. Ela é uma mulher forte e às vezes nem ela saiba disso, porque ainda fica na dependência financeira do marido. E luta, e ela luta com sensualidade.

Pegando por esse lado da dependência financeira, acha que ela pode melhorar isso?

Não sei. Walcyr é que sabe, mas torço para isso. Por mais que ela tenha levado um golpe, ela deveria ir à luta pela independência financeira, porque o trabalhar é uma grande realização. Está faltando isso para ela, porque isso é muito importante para nós mulheres, nos firmarmos e sermos reconhecidas. Vamos ver se ela consegue dar essa virada nesses dois meses de novela que ainda restam.

(entrevista realizada pelo jornalista André Romano)

(colaborou João Paulo Reis)

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