Fernanda Torres interpreta Maria Tereza em Filhos da Pátria.
Fernanda Torres interpreta Maria Tereza em Filhos da Pátria. (Divulgação: TV Globo)

Conhecida por suas reflexões tão ponderadas a respeito do cotidiano brasileiro nas mais variadas esferas, Fernanda Torres leva esse senso crítico também para as telas. Na segunda temporada de Filhos da Pátria, a atriz volta a interpretar a retrógrada – porém divertida – Maria Teresa Campos Bulhosa, desta vez em uma nova época: os anos 1930!

Você pode quase tocá-la. Ela tão bem escrita e é a mistura da mãe de família com ingenuidade. Você chega a gostar dela, embora seja um monstro. Essa contradição muito grande. É alguém de quem você quase tem pena e, por outro lado, ela é terrível“, analisa, entusiasmada.

Neste intenso bate papo com o Observatório da Televisão, Fernanda fala sobre a crítica social sublinhada em Filhos da Pátria, as contradições do panorama político brasileiro atual e muito mais. Confira a seguir.

OBSERVATÓRIO DA TELEVISÃO – O que você acha que a gente vem repetindo mais do que nunca?

FERNANDA TORRES – O Brasil ainda é baseado no patriarcalismo, uma ideia que prega que ‘para a minha família, tudo’. O Brasil é fundado nisso e no patrimonialismo, que é a defesa dos seus interesses e do seu interesse. Também temos uma escravidão que nunca foi resolvida. Essas são as mazelas que fizeram a gente chegar aqui. Elas são muito presentes e isso funda o Brasil. Hoje em dia está muito difícil porque são fatias da sociedade que não conversam a mesma língua. O que para você seria um direito, para o outro é uma ofensa. Nós chegamos nisso. Vai ser muito difícil. O fundamentalismo religioso resolveu parte da ausência do Estado nas comunidade carentes e este é um trabalho que aconteceu. Estamos vivendo um momento muito complicado, então não tenho essa pretensão de ensinar nada. De todo modo, o humor é uma boa maneira de abrir o diálogo. Isso eu acho que sim.

Você escreve crônicas e ficção e tem sempre um pensamento sobre a vida cotidiana e tudo o que acontece neste momento. O que mais te aflige?

Este racha. É como se vivêssemos em uma sociedade dividida e com lógicas que se tornam impossível uma conversa. É como se fossem visões de mundos tão distantes que não conseguem encontrar um único campo em comum onde concordem. A questão ecológica, por exemplo, é tido como algo ideológico, então não se discute porque pertenceria à esquerda. Precisamos reconhecer que a questão religiosa fez algo pela sociedade, mas o outro lado demoniza a religião como organização social. Este é um problema enorme! Na questão moral a sociedade está dividida: o que é pecado para um, é liberdade para o outro. Isso é o que mais me preocupa: a ausência de um campo comum de debate na sociedade. Um lugar em que todos consigam falar a mesma língua.

Recentemente a Marieta Severo deu uma entrevista dizendo que ela participou da retomada do cinema nacional [após a extinção da Embrafilme] com o filme Carlota Joaquina – mas, agora, está vendo a atividade do cinema ameaçada. Porém, disse que a gente tem de retomar, “porque sempre retoma”. A atividade artística também tem sido demonizada?

Eu vivi muitas fases. O Brasil é um país que está sempre zerando para começar de novo, se você notar. Temos a República Nova, o Estado Novo, o Cruzeiro Novo, o Cruzado Novo. É como se acabasse com tudo o que não presta e começa do zero e nunca aprende com o que aconteceu antes. A gente está sempre destruindo o que foi feito. Tem políticas que são de governo e outras de estado. Existe uma grande confusão. Muda o governo e toda a política de estado vai junto com ele. Eu vivi na época da Era Collor, vivenciei a Embrafilme, fiz três longas, fui para o México e Portugal roda-los, tinha acabado de ganhar uma Palma de Ouro e o cinema acabou. O Arnaldo Jabor foi escrever na Folha de S. Paulo, virou jornalista. Antes disso tivemos o Golpe Militar, eles tinham uma visão nacionalista e fundaram a Embrafilme. O ser humano é muito contraditório… O Collor queria abrir a economia e termina com a Embrafilme. Acho que a cultura é vista como inimiga por este governo que foi eleito pela maior parte da população. A cultura bate de frente com algumas questões do governo. É claro que isso ia acontecer com a Ancine e com a outra visão das leis de apoio à cultura. Já vivi isso no Collor. É assim. Eu lamento que no Brasil as mudanças das políticas de estado não resistam com as mudanças de governo.

Teve alguém específico que você se inspirou para fazer a Maria Teresa?

Você pode quase tocá-la. Ela tão bem escrita e é a mistura da mãe de família com ingenuidade. Você chega a gostar dela, embora seja um monstro. Essa contradição muito grande. É alguém de quem você quase tem pena e, por outro lado, ela é terrível.

Ela tem características atemporais que você pode encaixar com pessoas dos dias de hoje, não é?

Mas isso é da série, que mostra o que é eterno no Brasil e que resistem ao tempo: o patriarcalismo, paternalismo, a escravidão – aquelas mazelas que a gente não resolveu.

Quando vocês gravaram?

Foi agora, maio, junho, julho e agosto.

Estamos vivendo um momento em que uma parcela da população diz que os artistas “mamam nas tetas do governo”, como se a cultura não fosse algo importante. Você já sentiu isso na pele?

Todos os dias! A classe artística foi atrelada ao discurso dos ‘mamadores das tetas’. Isto vem de muito antes e eu já havia sentido isso. O que aconteceu foi o seguinte: antes o teatro era apoiado por patrocínio, que era o bom dinheiro de marketing, mas no governo Collor chegou-se à conclusão que isso apenas privilegiava os atores consagrados e conhecidos, então foi criada uma lei que democratizava o acesso à cultura, mais conhecida como a Lei Rouanet. Todas as empresas tiraram seus investimentos em marketing e criaram setores para a cultura. Não existia mais ir às empresas para tentar conseguir este dinheiro. Toda a cultura foi direcionada para usar a Lei Rouanet. Depois reclamaram que só privilegiava os consagrados. Eu parei de usar esta lei há 12 anos porque achei que este discurso estava pesado. Eu fazia um monólogo, A Casa dos Budas, com um sucesso imenso. Este é um discurso que vem de muito tempo e é mais complexo. Claro que hoje está mais agravado.

Quais são os pontos de críticas mais identificáveis na segunda temporada de Filhos da Pátria?

Tem as questões das leis trabalhistas, dos funcionários domésticos, o começo do direito de voto das mulheres e do feminismo, o assédio no emprego, o problema das mulheres que ganham menos do que os homens fazendo o mesmo trabalho, o surgimento das primeiras favelas, o rádio como mídia de massa, a corrupção… Tudo!

Como é sua visão sobre a Teresa?

Ela é a minha malvada favorita, porque ela fala tanta atrocidade que você chega a gostar dela. É tão equivocada! Nesta temporada fala sobre a chegada da Era Vargas, com as leis trabalhistas, que na época era para os operários, mas o Bruno [Mazzeo] trouxe essa realidade para as empregadas domésticas. A Lucélia [Jessica Ellen] começa a querer ter folga e a Maria Teresa começa achar que aquilo é uma ofensa a ela por ser uma ingrata. É o resto da escravidão muito mal resolvida nas relações da casa, a chegada rádio, a loucura dela por virar esposa, mãe ou sogra de um militar. Maria Teresa vem feroz nessa.

A Maria Teresa é uma maneira de a Fernanda Torres expurgar alguns pontos críticos do Brasil de agora?

Acho que do Brasil de sempre. Este é o Brasil de sempre. Tem uma cena em que ela questiona ao marido que gosto tem a comida enlatada e ele responde ‘de Brasil’, ela rebate ‘do novo ou do velho?’ e ele afirma ‘do Brasil de sempre, Maria Teresa’. A gente tem vivido um momento extremado no Brasil e no mundo. Não é só aqui que acontecem estes momentos, mas é onde aparecem nossas mazelas mais claramente. A série mostra que desde antes a gente já passava por estes problemas que o Brasil nunca resolve porque está sempre queimando tudo o recomeçando do zero.

O texto do Bruno Mazzeo retrata muitas frases atuais nos anos 1930. Em algum momento, você chegou a ser criticada nas redes sociais – ou pessoalmente – por reproduzir estas críticas?

As redes sociais são um espaço muito grande… São muito divididas: tem aquelas pessoas que criticam e outros que elogiam. Não me lembro nada pontual. Que eu me lembre, não fui para a fogueira.

(entrevista realizada pelo jornalista André Romano)

(colaborou João Paulo Reis)

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