Poucos personagens de A Dona do Pedaço conseguem, para bem ou para mal, mexer tanto com as emoções do público quanto Régis. Mau caráter de carteirinha no começo da história, o até então vilão resolveu tomar jeito depois que levou um tiro da esposa, Maria da Paz (Juliana Paes), e vem aos poucos se transformando num verdadeiro príncipe encantado.

Intérprete do antagonista em redenção das 21h, Reynaldo Gianecchini está adorando essa virada do personagem. “Na época em que ele estava aprontando muito, as pessoas sentiam muita raiva dele. Eu percebia isso. É uma antipatia que quase se estende pro ator. [risos] Mas eu sempre acreditei que poderia haver essa transformação. Desde o começo, eu estava esperando que o Régis em algum momento se transformasse“, admitiu o bonitão.

Confira a íntegra da entrevista de Giane ao Observatório da Televisão.

OBSERVATÓRIO DA TELEVISÃO – Você deixou com a gente com muita raiva em A Dona do Pedaço. Que Régis é aquele, gente?

REYNALDO GIANECCHINI – Mas [a raiva] não tá passando? Eu agora já estou praticamente com dó do Régis. Já estou achando ele o personagem mais bonzinho da novela, não é por nada não… [risos]

Mas, enquanto ele ainda estava traindo e sacaneando a Maria da Paz, como foi pra você fazer o ‘Régis à moda antiga’? Como o público reagia a essa primeira fase do personagem?

Na época em que ele estava aprontando muito, as pessoas sentiam muita raiva dele. Eu percebia isso. É uma antipatia que quase se estende pro ator. [risos] Mas eu sempre acreditei que poderia haver essa transformação. Desde o começo, eu estava esperando que o Régis em algum momento se transformasse. Porque a Maria da Paz é muito cativante. Ela é um exemplo pra qualquer um. E o Walcyr [Carrasco, autor da novela] aproveitou essa chance de, através do meu personagem, falar das transformações possíveis na vida de uma pessoa. Que, quando você tem bons exemplos, sempre é possível você abrir o coração em algum momento. Então eu fiquei feliz com essa transformação do Régis, até porque eu já estava esperando. Inclusive por conta disso, nunca quis fazer dele um ‘vilão das trevas’. Desde o começo, ele era obviamente um mau caráter, mas eu sempre quis fazer dele um cara que também fosse legal. Ele não é um cara como a Jô (Ágatha Moreira), que olha através das pessoas. Ele se importa com as pessoas, de uma certa forma.

Você esperava também essa química toda com a Maria da Paz? Porque, mesmo ele sendo inicialmente um vilão, o público comprou essa ideia dos dois como casal.

Essas coisas a gente nunca pode prever, né? O que eu acho muito legal é que eu realmente tenho muito prazer de trabalhar com a Ju [Juliana Paes, intérprete de Maria da Paz]. Acho que isso reflete muito na cena. A gente acha sempre uma brincadeira, uma coisa pra pôr em cena que fique gostoso de o público assistir. Mas, quanto ao que vai ser, a gente não sabe. Tem muita gente que está torcendo pro Régis ficar com a Maria da Paz. Mas também tem muita gente que ainda está muito brava com ele, e que ainda precisa ser conquistada. Eu brinco que eu ainda preciso conquistar na base da unha esse público. Porque, de fato, o Régis pisou na Bola muito tempo.

E essa mudança do Régis é pra valer mesmo?

Eu acredito que sim. Eu estou vendo agora, nos capítulos que estão chegando, que ele realmente está se tornando um cara muito legal. O objetivo dele é ajudar a Maria da Paz agora, e se redimir, se transformar mesmo, em todos os sentidos. Ele quer ser um bom homem. Eu acho que isso é uma coisa muito legal. Eu gosto dessas transformações, dessas redenções, porque as acho possíveis mesmo. Às vezes, na vida, precisa acontecer uma coisa muito trágica ou um choque muito grande pra gente poder mudar, né? No caso do Régis, a possibilidade da morte faz ele repensar tudo. Por outro lado, eu acho lindo também o amor dela pelo Amadeu. Eu acho muito bom que o público fique dividido, e até torço pra isso. Porque assim a novela fica muito mais interessante, quando o jogo não está ganho pra nenhum dos dois lados. Acho que o Amadeu agora tem que ir com tudo pra reconquistar a Maria – porque ele a andou deixando meio de lado, pelas razões dele – e o Régis também. Vamos ver quem ganha.

Mas você torce pelo Régis ou pelo Amadeu para ficar com a Maria da Paz?

Eu acho muito engraçado que, nas redes sociais, quem já se declara ‘torcedor’ do Régis faz isso quase pedindo desculpas. Porque é quase politicamente incorreto torcer por ele. Mas eu acho que isso, com o tempo, vai mudar, porque ele realmente vai ficar muito legal. Agora eu, como ator, não defendo exatamente o meu personagem. Acho que estaria tudo certo também se ela ficasse com o Amadeu. Porém, como público, confesso que torço pra ela ficar com o Régis. [risos]

Em entrevista ao Fantástico, a Ágatha Moreira confessou ter ouvido relatos de pessoas que enfrentaram, na vida real, o mesmo drama da Maria da Paz – ver o marido se envolver com a própria enteada. Você já recebeu um retorno parecido do público masculino que te acompanha?

Eu confesso que não tenho conversado tanto sobre isso nas ruas. Até pela falta de tempo, porque temos trabalhando tanto… Mas eu acho possível sim. Eu conheço pessoas mais ou menos parecidas com o meu personagem. Pessoas que derraparam muito tempo no caráter e um episódio as fez mudar radicalmente. Parece que virou outra pessoa. E conheço muita gente também que é mau caráter, mas é muito sedutor, muito charmoso, e usa isso pra conseguir as coisas. Então o meu personagem foi meio inspirado nessas pessoas que eu conheço.

Você já se deixou seduzir por uma pessoa assim, para só depois se dar conta de que era cilada?

Não exatamente. Mas eu já vi várias vezes essa atitude em outras pessoas: a sedução como forma de obter uma vantagem. E, pra falar a verdade, eu acho que o brasileiro é bom nisso. Porque o brasileiro é muito sedutor. Eu acho que a gente já nasce com um joguinho de cintura pra sedução – e tem gente que abusa um pouquinho disso.

Foi a simplicidade da Maria da Paz que fez o Régis se apaixonar e mudou totalmente o jogo?

Não só a simplicidade dela. Acho que o valor que ela tem. A força dela pro trabalho, a honestidade dela. E a Ju Paes faz tão lindamente a Maria da Paz que conquistou o Brasil inteiro. Eu tenho certeza absoluta disso: todo mundo ama a Maria da Paz. Isso torna mais crível ainda o meu personagem. É muito fácil você entender porque o Régis se apaixonou por ela – o Brasil inteiro está apaixonado pela Maria da Paz! Não só porque a Ju é linda e carismática. Também porque a Maria da Paz tem todos esses valores, essa garra. Ela dá um tapa na cara do Régis e na de todo mundo.

Qual núcleo de A Dona do Pedaço você se diverte mais assistindo?

Ah, cara… Eu gosto de tudo na novela. Mas acho que a Maria da Paz é o grande fio condutor, sem dúvida. Onde ela está, interessa muito a situação. Isso é fato.

Você costuma acompanhar a repercussão da novela na internet?

A gente [atores do elenco] não tem muito tempo. Mas eu estou muito presente nas minhas redes sociais. Então eu sempre leio muito, porque me interessa a opinião das pessoas. Você tem que ler com uma certa curiosidade, mas sem deixar influenciar no meu trabalho.

Seu número de seguidores aumentou após a estreia de A Dona do Pedaço?

Sim! Como essa novela é muito popular, muita gente nova tem chegado nas minhas redes sociais. Do começo da novela pra cá, acho que já soma quase 1 milhão a mais de seguidores.

Por falar nisso, você é muito atuante nas suas redes sociais, né? É quase um blogueiro (risos).

Na verdade, isso também me surpreende. Porque eu nunca tive vontade de ser blogueiro, nunca achei que servisse pra isso. E a minha rede social eu uso muito pra colocar simplesmente as coisas que eu quero dividir com as pessoas. Não uso pra ganhar dinheiro, nem pra nada comercial, nem me preocupo tanto com a questão estética… Eu posto tudo sobre o que eu gostaria de dividir meu olhar com as pessoas. Eu só fico preocupado de, nesses meus vídeos de bastidores, não revelar muito a história da novela.

2019 está sendo um ano muito bom para você. Além de estar protagonizando o atual sucesso do horário nobre da Globo, você inaugurou recentemente o Centro de Apoio Reynaldo Gianecchini em Birigui (SP), cidade onde você nasceu. Como foi pra você ver esse empreendimento concretizado?

Eu fico muito de ter podido colocar esse projeto em prática. É um sonho meu que eu tenho há muitos anos, mas muitos mesmo. Eu nunca conseguia porque envolve muita coisa, precisa de muito dinheiro, precisa de bastante gente idônea por trás pra você montar uma instituição – porque é o seu nome que você está dando, é muita responsabilidade cuidar de tanta gente. Tava muito difícil de achar as parcerias certas. Depois que eu estive doente, ali abriu um portal dentro de mim, porque eu recebi tanto amor. Aí falei: ‘agora eu preciso retribuir’. Passou a ser uma necessidade. E a sincronicidade trouxe as pessoas certas. Eu comecei a entrar em contato com muita gente que tava pronta pra ajudar naquele momento. Mesmo assim, comecei a construir com o meu dinheiro mesmo. Já faz seis anos que eu terminei o tratamento, e só ficou pronto agora. Foram muitas dificuldades e só agora está florindo. E acho que está no momento certo. É muito lindo você ver acontecendo. Assusta um pouco, na verdade. Toda vez que você vai lidar com projeto beneficente, eu sempre ouvi isso, cada luz que você acende, você tem que lidar com umas trevas também. Tem muita coisa que parece que tenta impedir. E é muito fácil de a gente desistir. Mas, quando você coloca em prática e vê se movimentando uma energia de solidariedade, é muito bonito. É quase uma missão mesmo. A fundação leva o nome do meu pai – o meu mesmo nome. Ele era professor e foi muito amado na cidade. Foi educador a vida inteira e eu senti vontade de lhe fazer essa homenagem.

Você é um cara muito emotivo. Na hora da inauguração da fundação, você sentiu a presença do seu pai?

Senti, muito! Eu sinto que o meu pai tem muito a ver com esse projeto. A energia dele. Eu fiquei muito emocionado e confesso que, quando eu estava lá na apresentação dos adolescentes e das crianças, passaram muitas coisas pela minha cabeça. Tantas histórias… Eu me vi jovem, fazendo teatro… Até comentei com o José de Abreu, sobre quando ele esteve em Birigui. À época eu era criança e aquilo representou muito pra mim, ver alguém falando dessa profissão [de ator]… É isso o que eu quero fazer agora com essas crianças: ajudá-los a achar uma profissão. Que seja do teatro ou que seja outra.

De que forma a sua instituição acolhe e atende as necessidades dessas crianças e adolescentes?

Oferecemos cursos profissionalizantes, além de atividades culturais e esportiva, que eu considero muito importantes para integrá-los. Mais do que tudo, quero que as pessoas entendam sobre solidariedade, sobre amor. Quero que as pessoas sintam lá dentro ajudadas e que queiram ajudar também as próximas gerações que venham. Quero que seja um centro de apoio no sentido mais amplo. Por exemplo, no interior, tem muita falta de informação às vezes. É um mundo muito distante das capitais. Então, eu queria que fosse um lugar que as pessoas pudessem bater na porta pra falar: ‘Tô precisando de ajuda’. Que a gente possa ajudar com psicólogo também… Orientação no geral. Mas eu também estou muito aberto pra entender as necessidades da região. Quero ser um ponto de aglutinação.

Você está no melhor momento da sua vida?

Eu sempre acho que sim. Eu acho que o presente é o melhor momento da vida. É onde eu me sinto inteiro. E, por acaso, eu acho que a década dos 40 está sendo realmente especial. Estou adorando desde que fiz 40 – estou com 46 agora -, estou achando o máximo. Porque você tem ainda muita força, sente ainda muita energia e vitalidade… E ao mesmo tempo a cabeça já está melhor, sem ansiedade. Você já sabe o que não quer, já não perde mais tempo com um monte de bobagem que antes perdia…

Você agora está com dois filhos maravilhosos, que são seus cachorrinhos, Mano e Mafalda. Pretende ter mais um?

Ah, cara, esse negócio de cachorro é uma cachaça! [risos] Eu já to querendo ter o terceiro, mas, quando eles começam a mijar muito no sofá e no tapete, eu falo: ‘vamos parar por aqui’. E destruir a casa inteira. Mas aí daqui a pouco eles aprendem. Aí você relaxa um pouco e pensa em pegar mais um. [risos] Muita gente me fala pra adotar, e eu quero adotar, eu adoro vira-lata. O próximo eu quero adotar. Mas ainda tem que ver se dá certo.

(entrevista realizada pelo jornalista André Romano)

Últimos vídeos do Canal no YouTube