Dentro de algumas semanas, o público poderá matar a saudade de ver Glória Pires dando o ar de sua graça – e que graça! – diariamente na telinha. É ela a protagonista de Éramos Seis, obra original da escritora Maria José Dupré que ganha agora sua quarta adaptação para a TV.

Tenho recebido um feedback incrível de pessoas que assistiram à versão que você mencionou e estão ansiosas para conferir a nova versão. E é interessante, porque eu sinto na nossa própria equipe uma sensação de honra em participar desse projeto, de dar vida mais uma vez a essa história“, contou a musa, em entrevista ao Observatório da Televisão.

Conhecida por já ter estrelado outros remakes – como Mulheres de Areia (1993), Anjo Mau (1998) e Guerra dos Sexos (2012) -, Glória Pires podia se considerar uma especialista nesse subgênero. No entanto, ela deixa claro que sua praia não se limita a isso.

O que eu trago sempre – não só para os remakes, mas para todos os meus personagens – é esse olhar despido. Que procura o novo, o frescor. Qual o sentido de você buscar o que já foi feito?“, filosofa.

Confira o nosso bate papo completo com uma das maiores atrizes da TV nacional.

OBSERVATÓRIO DA TELEVISÃO – Como está sendo pra você fazer a Dona Lola? Você chegou a assistir a algo da versão de 1994, com a Irene Ravache no seu mesmo papel?

GLÓRIA PIRES – Olha, eu li o livro, e ele é bem mais triste, bem mais pesado do que a novela. A novela tem um lado de humor, um lado de romance… E pra mim é uma emoção porque é uma novela icônica. Tenho recebido um feedback incrível de pessoas que assistiram à versão que você mencionou e estão ansiosas para conferir a nova versão. E é interessante, porque eu sinto na nossa própria equipe uma sensação de honra em participar desse projeto, de dar vida mais uma vez a essa história.

Você chegou a conversar com a Irene Ravache sobre a personagem?

Não… Infelizmente eu não encontro a Irene desde Guerra dos Sexos (2012). Foi a última vez em que trabalhamos juntas, nossas personagens se encontravam muito. Mas desde então não encontro a Irene – infelizmente, porque a adoro! Nicette [que também viveu Dona Lola, em 1977] esteve conosco no primeiro dia de encontro de toda a equipe. Ela, Osmar Prado e Othon Bastos [intérpretes de Júlio e de Zeca na versão de 1994] estiveram lá, dando seus depoimentos, falando da emoção de rever essa novela, do quão importante foi pra carreira de todos eles terem participado. Então tem esse clima, essa aura de amor, de emoção – e é tudo que a gente quer pra contar essa história: o coração na mão o tempo todo!

Como você está construindo a sua versão de Dona Lola?

A minha Lola é uma mãe, que não é a mãe boazinha, mas é uma mãe amorosa. Uma mãe que procura compreender e ajudar os seus filhos. É também uma esposa dedicada, que honra muito esse casamento, essa casa. O fato de ter adquirido a casa é um peso enorme pra essa família, que vai fazer de tudo pra conseguir honrar esse compromisso e ter a casa no fim da vida. A casa é uma personagem também. A Lola está dentro desse ambiente, onde todos são envolvidos pelo amor, pelo prazer de estarem juntos, mas driblando as dificuldades todas da vida.

Como está sendo para você contracenar com esses jovens – e lindos – atores que interpretam os seus filhos dentro da novela?

Eu só contracenei até agora com as crianças, que são excelentes! Eu conhecia já o Xande [Valois, intérprete de Carlinhos], nós já tínhamos feito Babilônia (2014), se não me engano. Mas os outros – Davi [de Oliveira], Pedro [Sol] e Maria Júlia [Maju Lima] – eu não conhecia. Estou encantada com eles! [Antônio] Calloni também, é a primeira vez que estamos fazendo um casal, e tem sido uma delícia. A Kelzy [Ecard] também… Uma atriz que eu admiro há tantos, e agora interpretamos melhores amigas. Estou muito feliz mesmo.

Você tem um histórico de remakesMulheres de Areia, Anjo Mau, Guerra dos Sexos… Todos remakes muito icônicos. Existe um método que você encontrou para se relacionar com personagens que já vêm tão ‘grandes’ para você?

Olha, eu adoraria dizer que eu tenho um método, que eu vou e me tranco num lugar… [risos] Mas na verdade eu não tenho. O que eu trago sempre – não só para os remakes, mas para todos os meus personagens – é esse olhar despido. Que procura o novo, o frescor. Quando eu faço época, por exemplo… Época pra mim é uma coisa complicada, porque eu quero trazer uma leveza. Eu não quero fazer como se estivesse numa coisa fixa, rígida… Quero trazer uma humanidade, uma coisa natural do dia a dia. Que é sempre o que eu busco fazer – o meu estilo, vamos assim dizer. Mas eu não tenho método. Estudo muito, leio tudo o que eu posso sobre o tema. Nessa novela em específico, os álbuns de família estão sendo muito companheiros. E isso me emociona muito. Porque, por exemplo, o meu pai e a minha mãe nasceram nos anos 20. E eu me lembro do meu pai contando as coisas, os detalhes, ele sempre foi muito detalhista… E, passeando aqui pela cidade cenografia, eu fico me lembrando das coisas que ele me dizia, sabe? Identificando a chapelaria, as sacadas, a postura das moças, os carros… Tudo isso que ele me contava e eu viajava, agora estou vendo aqui! Então é isso mesmo que eu falei: o coração tá na mão o tempo todo. É isso que a gente quer imprimir nessa história – uma história que fala de dentro da casa. Não é uma história ‘de fora’, é sobre o que acontece dentro daquelas pessoas, o íntimo de cada um. É isso o que estamos tentando construir – e tenho fé que vamos conseguir!

O que a ‘mãezona’ da novela tem a ver com a ‘mãezona’ do período atual?

O que toda mãe tem, né? Claro que ninguém é perfeito, ninguém tem uma fórmula, uma receita pra seguir. O primeiro filho talvez seja a coisa mais sofrida, porque existe uma inexperiência, né? Eu costumo dizer que o primeiro filho é a faculdade. É a dureza. [risos] A gente está aprendendo junto com o filho, aprendendo a ser mãe junto com aquela criança. Mas é isso, não tem grandes arroubos, não tem atos heroicos… A não ser os pequeno atos heroicos de todos os dias.

Você acha que mudou muito a família brasileira daquela época para cá? A estrutura, os conflitos, o diálogo dentro de casa…

Claro que mudou! É consenso da direção e da equipe trazer o realismo. A gente quer fazer uma novela de época que não pareça um álbum de retratos, mas que pareça hoje! Onde as pessoas transpiram, onde o cabelo não é impecável. Esse tipo de vivência. É isso o que a gente está trazendo. É claro que mudou dos anos 20 pra cá. Muita coisa mudou, muita coisa foi acrescentada. Mas eu acho que, mesmo sendo uma história que se passa em 1920, dá pra pensar em muita coisa de hoje. E isso é o interessante, o bacana.

No que dá para pensar, por exemplo?

No machismo, por exemplo. No papel da mulher na sociedade.

Como é a sua relação com a costura, atividade exercida pela sua personagem?

A mãe da Lola era viúva e criou as três filhas fazendo doce. Então, num primeiro momento, a Lola também vai trazer esse know-how de fazer os doces pra ganhar dinheiro. Ela costura, ela faz as roupas dos filhos e faz tricô para vender, para, assim, também colaborar com o orçamento da casa. Eu, Glória, tenho a maior ligação com a costura, porque a minha mãe fazia coisas pra mim, pra minha irmã. Então, o tempo inteiro em que ela estava na máquina [de costura], eu estava junto ali com ela. Isso me traz muitas lembranças, e eu adoro! Eu sei fazer bordado, aprendi a fazer tricô pra novela – o que também é uma delícia, já virou um vício. É difícil, mas depois que você pega… [risos] É uma loucura, você não quer largar!

Como você encara a responsabilidade de interpretar uma personagem que ficou tão marcada no imaginário do público, como a Dona Lola?

Eu procuro não pensar nisso. [risos] Porque todo mundo quer fazer alguma coisa nova! Qual o sentido de você buscar o que já foi feito? Nenhum! Até mesmo o público que já assistiu [às versões anteriores] também vai querer ver alguma coisa nova. Tanto que a autora [Ângela Chaves] está trazendo algumas tramas que não existiam nas outras versões, trazendo à luz alguns personagens que nas outras versões eram mais… Apagados, vamos dizer assim.

O livro original da Maria José Dupré, que você já mencionou ter chegado a ler, foi uma fonte de inspiração importante para você?

Sim. Foi muito importante ter lido o livro. Muito importante mesmo. Porque o livro tem todo o peso dessa época. Claro que nós não vamos fazer essa história pesada, né? A gente quer uma ‘novela das seis’, uma novela mais leve – que traga um pouco da realidade, mas com certa leveza. E o livro é bem pesado, as tintas lá são bem fortes. A própria Lola, a relação com os filhos, com o marido… É tudo bem mais denso [no romance original]. Bem dramático mesmo.

Glória, recentemente suas duas filhas – Cleo Pires e Antônia Morais – deram entrevista ao Conversa com Bial e muita elogiou, no Twitter, a educação que elas têm.

Você imagina como é que eu fiquei, né? [risos] Depois pra dormir foi uma loucura! [risos]

Como é sua relação com suas filhas da vida real? Afinal de contas, você criou duas grandes mulheres!

Sim, com certeza! Elas são motivo de orgulho pra mim. A coragem delas, e a autenticidade também. Um orgulho enorme pra mim.

Os haters costumam pegar muito pesado com a Cleo nas redes sociais, inclusive por conta do jeito ‘livre’ dela de viver – críticas a que ela reage sempre com muita elegância. Mas como você, enquanto mãe dela, lida com essas críticas?

Eu acho a atitude dela perfeita. Ela tem que ser feliz. Acho que todo mundo precisa se encontrar. Eu nunca tive essa expectativa, do que os meus filhos iriam ser… Porque eu acho que é tão difícil a gente achar o caminho próprio. E eu aplaudo ela – e também a Antônia, a Ana, o Bento – no que eles escolherem ser profissionalmente e na vida que eles escolherem ter. Apoio total pra todos eles.

Você mencionou o impacto que a questão da compra da casa tem no dia a dia da família da Lola. Você ou a sua família, quando você era mais jovem, já tiveram essa dificuldade no início da vida, de comprar uma casa, manter uma vida estável?

Como vocês sabem, eu sou filha de ator [o humorista Antônio Carlos Pires, falecido em 2005]. [risos] Artista, agora está muito melhor. Agora, por exemplo, a gente tem a Interart Brasil, uma associação de gestão coletiva dos artistas do audiovisual. Isso não existia. O artista antigamente sequer podia assinar a carteira como artista! Era como comerciário ou como prostituta. A gente não tinha a nossa profissão regulamentada e nem reconhecida. Então, eu e minha família tivemos uma vida difícil sim. Muito difícil. Mas sempre assim, com esse olhar pra metade da garrafa cheia, sabe? Essa maneira de ver a vida com positividade, com fé… E não só ver, mas fazer! Suar a camisa e ir em busca do objetivo. A minha família sempre foi uma família assim. E eu identifico isso também na Lola. Com todas as dificuldades que a família dela passa – a incompreensão do marido, a frustração dele quando não é reconhecido pelo patrão [Assad, papel de Werner Schünneman]… A maneira dela de lidar com esses assuntos é uma coisa que eu via na minha casa. É uma maneira positiva de viver. E a Lola é uma personagem assim. Vai sofrer muito. Vai ficar magoada. Mas ela tem essa coisa positiva, de olhar pro futuro e buscar uma solução.

(entrevista realizada pelo jornalista André Romano)

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