Susana Vieira prepara sua volta triunfal às novelas. Depois de dois anos longe da telinha – desde que interpretou a vilã Cora na supersérie Os Dias Eram Assim (2017) -, a atriz retorna ao vídeo para viver a sofisticada – e esnobe – tia Emília na nova versão de Éramos Seis, que estreia no próximo dia 30 (segunda-feira) na Globo, substituindo Órfãos da Terra.

Apesar do ‘nariz empinado’ da personagem, Susana nega que ela seja a antagonista de Lola (Glória Pires), a mocinha. “Ninguém vai fazer mal para ninguém nessa novela. Não é uma novela típica, e é isso o que difere, o motivo pelo qual todo mundo quer rever. Não existe assassinato nem a outra querendo pegar fábrica de ninguém (risos), nem a irmã gêmea que chega depois“, brincou, numa clara referência ao mote central de A Dona do Pedaço no horário nobre.

Confira o bate papo completo com Susana.

OBSERVATÓRIO DA TELEVISÃO – Você está agora em Éramos Seis. Como é para você fazer parte deste remake?

SUSANA VIEIRA – Ser remake não tem nada a ver conosco, atores. Para mim é uma nova novela que me chamaram para fazer e eu estou fazendo. Eu não tive nenhum problema nem de ser remake, nem de não ser um papel grande, como o Silvio de Abreu me alertou quando me chamou. A Globo não é doida, ela faz uma pesquisa para saber o que o público está querendo. Então se o público está querendo uma novela como Éramos Seis, eu fico superfeliz de estar fazendo a novela porque ninguém está atirando no gato que não está vendo. Se é um remake, já feito em outras emissoras com grandes atrizes, é coisa boa, não pode ser coisa ruim, e para mim é uma grade alegria. Inclusive por trabalhar com Glorinha [Glória Pires], que a gente a pegou no colo com quatro aninhos… Hoje ela é minha mãe, me cuida…

Vocês fazem aniversário no mesmo dia, não é?

Sim, esse ano comemoramos juntas. Minha família está inteira nos Estados Unidos e ela me levou para jantar com a família dela. Foi ótimo!

A Emília sua personagem é uma tia rica. Ela vai ajudar a família da Lola?

Não, claro que não. Por isso que estou na novela, para fazer a tia má (risos).

A Emília é uma viúva solitária, você já se identificou com ela em algum momento da vida?

Ela é uma mulher amargurada porque ela é fina, família aristocrata, 400 anos de São Paulo, rica, e tem uma filha com distúrbio mental – tenho que falar certinho no politicamente correto pra não ir depois pro Instagram e eu ser presa. Ela largou tudo da vida dela, e tem uma outra filha maravilhosa, linda e rica, que foi estudar num colégio na Suíça porque ela não quis que a menina convivesse com a outra filha com distúrbio. Ela tem vergonha de contar para a família sobre essa filha. Conheço duas pessoas, que são conhecidíssimas inclusive, que tiveram filhos com problemas mentais que nunca mostraram pro público, então acho que hoje em dia com esse negócio de internet, tanta literatura sobre doenças, fica mais fácil de explicar num colégio, mesmo assim acredito que as pessoas sofrem muito preconceito.

Assim como depressão, não é?

Acho que não existe problema de depressão nessa doença não. A doença da depressão é silenciosa, e você não percebe. Essa tem coisas que você percebe mais, como a pessoa ficar repetitiva. A filha da Emília repete ‘eu quero um gato, eu quero um gatinho, eu quero um gato’, e ela não pode ser grossa porque é educada.

Ela vai ser antagonista?

Não. Ninguém vai fazer mal para ninguém nessa novela. Não é uma novela típica, e é isso o que difere, o motivo pelo qual todo mundo quer rever. Não existe assassinato nem a outra querendo pegar fábrica de ninguém (risos), nem a irmã gêmea que chega depois. Eu acho que é uma novela das antigas, como era A Sucessora, sem esses problemas de crimes, assassinatos tão em voga hoje e que seguram uma novela das nove.

Vão dar uma mudada no roteiro da novela para não ser aquele final desgraçado…

Mas não tinha nada de mais. Se for um final desgraçado, vai ser sem morte. Para entrar uma novela no ar hoje em dia, tem que ter só polêmica de tudo que é tipo. A novela não trata dessas coisas de preconceitos de hoje, não trata da inveja, é uma novela de pessoas normais da década de 1920. O pai, a mãe, dificuldade financeira, e relações humanas, que eu acho mais importante que tudo. Vão ver filme com relações humanas que vão sair muito mais enriquecidos do que filmes com o irmão que deu um golpe no outro… Isso tudo a gente vê no Jornal Nacional: roubos, corrupção, delação, feminicídio. Então já basta o jornal.

A Branca está fazendo muito sucesso, e as falas dela são muito comentadas, mesmo sendo falas longuíssimas.

Essa mania de eles acharem que televisão hoje em dia tem que ser ‘oi, tudo bem’, bateu a porta e acabou, é ruim. Hoje em dia um capítulo tem digamos 35 cenas, antigamente não era assim. Hoje tem que ser ‘bla bla bla’, acabou a cena, corta pro outro que joga o outro da janela. Hoje é um o texto é um stress, e você não entende o que eles falam. Quando você levantou para fazer um pipi, o cara que era marido da outra, já virou gay na outra cena, tão rápido que você nem viu onde foi que ele arrumou o bofe. Eu não sei que horas o Malvino virou gay nessa novela, eu perdi alguma coisa (risos). Essa pressa, esse desespero…

A audiência de Por Amor está bem alta. Você se surpreendeu com esse sucesso mais de 20 anos depois?

A Globo talvez tenha pensado que o público precisava mudar, só que existem coisas que não há necessidade de mudar. Qualidade não se muda. Qualidade não adianta mudar, você pode de um fazer três, mas só um dos três vai ser bom. Enquanto Manoel Carlos esteve no ar, ele foi bom. Como ele não vai mais fazer novelas, quando ele tiver com um seriado no ar, vai ser bom. Não adianta pegarem quatro [autores] e acharem que vai dar um Manoel Carlos, porque não dá. O público que se senta às 4 da tarde, já se estressou, já teve problema com filho, a empregada que não veio, marido que não chegou, e assiste aquilo com calma, sem aquele stress de mudar de canal. Ali é papo, é vital, orgânico, natural, e a única pessoa que faz um pouco de maldade, não mata ninguém que sou eu (risos).

Você é muita querida pelos jovens que adoram você e fazem memes. Como você se sente em relação a isso?

É maravilhoso. Eles é que sacaram quem eu sou, pelo que falo, pelas entrevistas que dou, pelos namorados que tenho, então acho que eles tiraram conclusões a meu respeito.

Inclusive Éramos Seis tem muita gente nova, e eles disseram anteriormente que aprendem com você.

Uns amores. Tem um pequenininho que estávamos fazendo aula de dança [na preparação] e ele pediu para dançar comigo e disse ‘Susana Vieira, você deveria fazer um monólogo sobre sua vida e sua carreira, porque é muito interessante quando conversamos com você’. O garoto tinha 13 anos e disse ‘eu iria ao teatro todo dia ouvir você’. Acho que é o garoto que a Emília vai pegar para criar, e depois vem um gato lindo…mas oh, não tem sacanagem (risos).

Pela primeira vez Éramos Seis vai ter uma abordagem feminista. Você que se comunica com mulheres, o que pensa sobre essa abordagem?

Eu conheci minha mãe trabalhando, então para mim feminismo nunca significou botar uma camiseta escrita ‘não encosta em mim’. Eu mesmo falei para as pessoas não encostarem em mim, fui ser bailarina porque eu quis, não porque eu precisava ajudar em casa. Minha mãe trabalhava na Embaixada com meu pai, então sempre fui acostumada a ver mulheres que trabalham, que saem, que se maquiam. Sempre vi todo o meu núcleo familiar botando dinheiro em casa, e os maridos machões como sempre, como é até hoje. Homem é assim, se você der um pouquinho de confiança, eles serão machistas. Nunca batalhei por nada, fiz o que quis, entrei na televisão a hora que eu quis, nunca dei confiança no sentido de invadir minha privacidade, nunca dei para ninguém e não precisei fazer sofá de nada, então não estou nessa briga que as pessoas estão. O feminismo na minha vida existiu natural porque fui trabalhar e trabalhar é muito bom, na televisão então, show de bola. Fazer capa de revista no sábado? Puta que pariu, que delícia (risos).

Para você, a parte boa da vida é trabalhar?

Eu descobri isso. Acho que abri mão da minha vida pessoal por causa do trabalho. Eu hoje tenho essa consciência, e algumas vezes me perguntei se fiz bem ou mal, mas fui aceitando. Como na nossa profissão, seja teatro ou televisão não existe um emprego fixo – não é funcionalismo público que eu acho o emprego mais absurdo e nojento do mundo, deixa o país na falência – quando te convidam para um filme junto com um trabalho na TV, a gente faz tudo o que pinta por não ter segurança econômica. Mesmo eu hoje em dia um pouco mais segura, se eu parar de trabalhar quatro, cinco meses, aquele dinheiro lá, já gastei. Eu gasto dinheiro mesmo, não sou de guardar, quero ir toda hora para Miami porque minha família mora lá, quero tomar aquela Dubai Emirados Árabes que é maravilhoso… Eu fui ver como era a primeira classe, e estou pagando até hoje (risos).

Você falou sobre A Dona do Pedaço, você tem gostado da novela?

Eu adoro a Juliana Paes. Acho ela a minha cara na vida real. A gente está sempre com astral bom, ela é carismática, e a parte da novela que mais gosto é ela. Ela entrou e já tomou conta da novela. Amo a Paolla também, mas gosto mesmo de ver a novela pelos atores. Quando são atores que não gosto, não vejo.

O trabalho faz bem à saúde?

Meu amor, tá aqui [a resposta]. Bonita, renovada, não sei mais o que dizer, mas o trabalho me rejuvenesce, é a minha escolinha.

Você está com 77 anos. Teve algum momento em que você se olhou no espelho e se sentiu mal com sua imagem?

Nunca. Posso estar me sentindo gorda, como toda mulher. Tem mulheres magérrimas que se sentem gordas.

De onde vem essa autoestima?

Meu amor, aprenda a ter autoestima, aprenda!

(entrevista feita pelo jornalista André Romano)
(colaborou João Paulo Reis)

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