Ellen ( Rosane Gofman ).

Não existe papel pequeno para um grande ator. Rosane Gofman que o diga. Ela volta e meia rouba a cena cada vez que aparece em A Dona do Pedaço, na pele de Ellen, empregada de Maria da Paz (Juliana Paes) e agora de Josiane (Ágatha Moreira).

A única coisa que as pessoas me pedem é para dar uma surra na Josiane. A personagem dela é muito má, e isso incomoda o público. É uma novela gostosa de fazer, além de ter um Ibope maravilhoso“, festeja a musa, que também está no ar em outro grande sucesso: a reprise de Por Amor (1997), no Vale a Pena Ver de Novo.

Quando eles retornam com uma novela, e bomba desse jeito, dizem que ela é um preparo para o que vem depois. Então, essa repercussão toda é algo incrível“, analisa.

OBSERVATÓRIO DA TELEVISÃO – Como tem sido fazer a novela até aqui?

ROSANE GOFMAN – Tem sido uma delícia! Um núcleo muito legal com a Juliana Paes, Agatha Moreira e Duio Botta, que saiu. É uma novela gostosa de fazer, além de ter um Ibope maravilhoso. A minha personagem, a Ellen, nesse momento da novela está um pouco esquecida, porque está morando com a malvada, a Jô, vivida pela Agatha. Acho que ela era mais feliz quando morava com a Maria da Paz (risos). Elas eram muito amigas, mas a Terra é redonda para rodar e fazer tudo voltar ao que era antes. Ela é muito amiga da Maria da Paz, ajudou a criar a menina desde pequenininha…

E como é a repercussão da personagem? O que as pessoas falam para você?

A única coisa que as pessoas me pedem é para dar uma surra na Josiane. A personagem dela é muito má, e isso incomoda o público, as maldades que ela faz com a mãe.

Você acha que existem pessoas como a Josiane?

Claro, tem muito mais gente ruim do que a gente imagina, ruim em todos os sentidos. No caso da Jô, ela é psicopata mesmo, não tem o mínimo de empatia por ninguém, fria e calculista. É uma doença, não só maldade, mas iguais a ela existem vários casos.

Mas a partir do capítulo 100 a casa dela começa a cair, não é?

A trama começa a mudar de novo. A Maria da Paz mostra sua força, o seu caráter, e que sua luta vale a pena. E essa grande virada é o principal assunto que a novela trata. A gente batalha, a gente vai à luta, e assim é provável que a gente vença, é o que acontece com ela agora.

Mudando de novela, a Betty Gofman, sua irmã, também está no ar, em Órfãos da Terra, e como é? Vocês trocam figurinhas?

A gente se encontra muito pouco, até porque moramos longe uma da outra. Eu tenho uma coleção de netos, e fico praticamente por conta deles. Não trocamos figurinhas nesse sentido, falamos mais sobre o assunto que temos em comum, que é a nossa mãe, mas sobre os trabalhos em si, falamos muito eventualmente.

E deve ser um orgulho para sua mãe, não é?

Com certeza. A Betty mora mais perto da minha mãe, e é uma filha muito especial, muito parceira. Eu sou dentro do que eu consigo ser, mas ela é como dizem, ‘pedra 90’.

Você também está no ar às tardes, com a reprise de Por Amor. A Tadinha também tem semelhanças com a Ellen, não é?

Sim, ambas têm a mesma profissão. O que difere é que a relação com a Maria da Paz começa no momento em que a Maria é pobre ainda, e está melhorando de vida, e a Maria da Paz tem uma personalidade, que elas meio que seguem juntas pela vida. Elas são de fato amigas o que não é o caso da Helena, em que a Tadinha já chega como empregada doméstica mesmo, se mete muito, mas a relação apesar de ser uma relação bacana, elas não são tão amigas quanto a Ellen é da Maria da Paz.

Você consegue assistir às ‘suas’ duas novelas atuais?

Pouco. As pessoas falam muito de Por Amor, sempre falam da Tadinha, e a novela está bombando né?! É muito legal. E os diálogos longos de Por Amor não são cortados mesmo na reprise… É porque deu muito certo. Quando eles retornam com uma novela, e bomba desse jeito, dizem que ela é um preparo para o que vem depois. Então, essa repercussão toda é algo incrível. E incrivelmente ninguém sabe o que virá depois dela… Não se sabe. A gente ouve falar que seria Eta Mundo Bom, que eu iria amar porque participei também (risos).

A Ellen vai chegar até a ajudar a Josiane, dando dinheiro para ela fazer a feira. Como é isso?

Acho que por mais que a Ellen saiba quem é a Josiane, ela tem aquele carinho de alguém que criou a menina praticamente, e ela é do bem, ela ajuda. A gente ajuda as pessoas até onde a gente pode, e quando a gente gosta então…

Você acha que ela volta para a Maria da Paz?

Eu acho que ela volta de novo com a Maria da Paz, não tem sentido não voltar. Ela só ficou na casa porque não pode ficar desempregada, mas a Maria vai querê-la de volta, creio eu.

E nos próximos capítulos vão começar a desvendar a morte do Jardel (Duio Botta), não é?

Vão, mas errado né. Vão falar que é o Régis, mas não é.

Você já chegou perto de alguém desse tipo como a Josiane?

Psicopata não, mas cheguei perto de uma pessoa que se aproveitava de alguém que era muito bacana. Mas não era uma psicopatia, essa é diferença, era uma pessoa ruim mesmo, um filho da mãe.

Você fez sucesso em uma peça falando sobre homossexualidade, Eu Sempre Soube. Dizem que existe muito preconceito. Como você conseguiu patrocínio?

Não consegui! Estou fazendo sem dinheiro nenhum, mas quando recebi o texto fiquei tão apaixonada, e ficou claro que eu tinha que fazer aquilo. A gente está metendo a cara.

O retorno de público é ótimo, não é?

O retorno público é mais valioso que qualquer patrocínio. Eu tenho 40 anos de carreira eu não fiz nada de que eu mergulhasse tanto quanto a peça Eu Sempre Soube. Virou uma missão na minha vida, e espero que muita gente assista, não só porque é bom para a gente, mas porque é importante que as pessoas ouçam aquele recado. Se a gente pudesse mexer com uma pessoa a cada sessão já seria muito transformador.

E você traz essa mensagem mesmo sem ter alguém na família, não é?

Eu tenho um sobrinho gay, e muitos amigos. Só que eu não imaginava que a coisa fosse o que é, do jeito que é. A gente vê no gay pessoas muito felizes, alegres, mas existe a história da aceitação e família por trás que é muito dura. A gente conta casos de pais e mães que matam seus filhos por conta da homossexualidade. É fundamental falar isso para transformar as cabeças das pessoas, para elas começarem a entender que o amor é fundamental e nossos filhos são as pessoas mais importantes das nossas vidas. Existe uma pessoa que foi muito importante para a gente, porque tivemos um gasto razoável para peça acontecer e para pagar a nossa primeira temporada, que ajudou a pagar tudo aquilo que seriam dívidas no nosso caminho, que foi o Aguinaldo Silva. Foi um parceiraço que a gente teve, entendeu toda a nossa necessidade, e a importância daquela peça estar em cartaz. Se não fosse ele, a gente não ia continuar. Agora estamos por conta da bilheteria.

Nesse momento que estamos vivendo no descrédito da cultura, o jeito é ter coragem e fazer mesmo?

Sim. Tem que fazer do jeito que der. Eu acredito que a gente tem que falar coisas que sejam transformadoras. Podemos fazer comédia e coisas mais leves, mas temos também que falar de coisas que são realmente importantes da mesma forma que a gente fazia na época da ditadura. Eu vivi o finalzinho da ditadura e a gente fazia o espetáculo para o sensor, a gente se mantinha ali fazendo espetáculos que pudessem mexer, transformar e ainda hoje temos que meter a cara mesmo. A minha peça está indo agora para a periferia, porque foi uma exigência que eu fiz. Não tem como falar desse assunto só para os meus amigos aqui da zona sul ou ali no centro da cidade, a gente tem que falar para todo mundo porque somos responsáveis por esclarecer. Sinto que estou num momento muito importante da minha carreira principalmente por causa de Eu Sempre Soube, e óbvio que estar fazendo A Dona do Pedaço é sem dúvida o que me ajuda a fazer Eu Sempre Soube. Então de certa forma, o Walcyr também é colaborador da minha peça porque se ele não me dá esse papel na novela, eu não tenho condições de fazer a peça.

Você acha que essa falta de verba é a nova censura que a classe artística está enfrentando?

Com certeza! Claro que eu não posso falar aqui por que eu estaria acusando sem ter provas, mas a gente sabe de histórias absurdas que já estão acontecendo, não apenas do ministério da cultura que é uma coisa clara, mas outras coisas veladas que ninguém fala, coisas miúdas que na verdade são gigantes, mas que vem acontecendo com outros colegas que ainda não falaram publicamente mas que são aterrorizantes, no sentido da cultura. Eu acho que é muito grave o que tá acontecendo, mas nós sempre fomos resistentes ou resistência não no sentido político, mas no sentido de entender a nossa função e cair dentro dela enquanto transformação da sociedade.

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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