Antonio Fagundes anda em um excelente momento na televisão. O ator quebra agora um jejum de três anos longe das novelas – desde que protagonizou Velho Chico (2016) – através do conflituoso Alberto de Bom Sucesso, atual êxito do horário das 7 da Globo. Apaixonado por leitura como seu personagem, ele se mostra entusiasmado com a campanha de incentivo à leitura promulgada no subtexto da atração.

“É uma coincidência feliz fazer um personagem que fala de um amor da minha vida, que é a leitura. E, ao mesmo tempo, quem sabe a gente estimula parte do público espectador a arriscar um livrinho, né?”, torce o bonitão, que, no auge dos 70 anos, ainda integra o hall de galãs favoritos das telespectadoras. “Realmente é muita bondade das pessoas que hoje, na minha idade, eu ainda seja considerado galã. Meu Deus do Céu, só tenho a agradecer!”, diverte-se, modesto.

Confira o bate papo completo do veterano com o Observatório da Televisão.

OBSERVATÓRIO DA TELEVISÃO – Seu personagem em Bom Sucesso tem tudo a ver com você, não? Você sempre comenta que, como ele, gosta muito de ler…

ANTONIO FAGUNDES – É verdade. É uma coincidência feliz fazer um personagem que fala de um amor da minha vida, que é a leitura. Eu realmente gosto muito de ler, e o Alberto também tem esse lado bonito nele… E, ao mesmo tempo, quem sabe a gente estimula parte do público espectador a arriscar um livrinho, né? Existe uma pesquisa feita pela Fecomércio anos atrás, que constatou que mais de 80% da população brasileira jamais leu um único livro na vida. Isso é horrível! Dos 20% que sobraram, a média de leitura é de um livro por ano. Isso quer dizer que, em 30 anos, ele não lê nem um Jorge Amado! É um problema grave. A leitura é uma experiência tão fantástica, e os autores [Paulo Halm e Rosane Svartman] têm conseguido passar isso muito bem na novela. O prazer que esses personagens estão descobrindo na leitura, o prazer que a criança tem na leitura… Se as pessoas arriscarem, elas vão descobrir esse prazer também.

O Alberto está vivendo o melhor momento de sua vida com a chegada da Paloma. Bom Sucesso é uma novela que fala de morte ou de vida?

A novela, na verdade, é uma celebração da vida! A gente leu e gostou muito de um livro da Ana Cláudia [Quintana Arantes], que se chama A Morte é um Dia Que Vale a Pena Viver. É um livro que fala exatamente sobre isso – que a gente deve celebrar a vida até o seu último momento. Eu acho que a novela fala disso. Ela traz, através do meu personagem, esse prazer que a pessoa pode ter até o seu último dia. Morrer todos nós vamos, né? A única diferença do Alberto pro resto da população é que ele sabe mais ou menos quando.

Como é contracenar com a Grazi Massafera?

É uma delícia! A Grazi é uma pessoa muito querida por todos. Muito simpática, muito agradável, bem humorada… E uma atriz de mão cheia! Ela está no auge da carreira dela agora, e com certeza ainda vai crescer muito mais. Ela tem aproveitado cada segundo do que o personagem permite, com sabedoria. É um prazer realmente trabalhar com ela. A gente já tinha se cruzado antes em outra novela [Tempos Modernos, de 2010]. Mas, como éramos de núcleos diferentes… Às vezes a gente passa uma novela inteira sem nem ver no corredor os seus colegas – foi o nosso caso aí. Agora, eu tenho o prazer de ela estar até no mesmo cenário que eu! E tem sido ótimo.

Você gravou cenas de Bom Sucesso no Cacique de Ramos. Foi a primeira vez lá não só para o seu personagem, mas também para você. Como foi essa experiência?

Eu tive essa vantagem, não precisei nem fazer laboratório, né? [risos] E fingir que eu não conhecia [o lugar], porque eu não conhecia mesmo. Mas eu sabia de nome, é uma coisa que a gente sempre houve falar, a feijoada é uma coisa muito famosa de lá também… É um ambiente extraordinário! Eu tirei foto, inclusive, com a escultura do Cacique. Foi uma gravação muito gostosa. Eu imagino que aquele lugar, no seu período normal, deve ser a maior muvuca. Seria impossível gravar. Mas, como fecharam para a Globo, ficou gostoso.

Você e a Grazi têm protagonizado cenas peculiares juntos, com duração mais longa, diálogos muito bonitos, que as pessoas têm até elogiado. Como você recebe isso?

É uma sabedoria dos autores, do Paulo e da Rosane, aproveitar essa possibilidade de a gente retomar os diálogos longos. Todos os personagens da nossa novela têm o que dizer. Todos, de todos os núcleos, têm uma profundida muito grande na sua construção. E, quando é assim, o público quer acompanhar esses pensamento, quer sofrer junto, quer torcer junto, quer se identificar. O que quer que seja que os autores querem passar, eles estão passando de uma forma muito agradável, permitindo que os personagens se coloquem e permitindo que o público se identifique com eles.

Por que você acha que o público tem comprado tanto a mensagem da novela?

Primeiro, porque a Rosane e o Paulo estão sendo muito espertos na forma como estão colocando [o incentivo à leitura]. Não são apenas citações. Eles colocam os personagens dentro de situações parecidas com aquelas da obra literária analisada. É uma identificação que o personagem tem com o romance, que aqueles que não leram ficam curiosos pra saber a respeito e aqueles que leram reconhecem a similaridade do problema. Eu acho que é uma sabedoria deles colocar dessa forma, porque só pode instigar o público a correr atrás [das obras referenciadas].

Você, como leitor inveterado que é, tem dado sugestões para os autores nesse sentido?

Eu dou uns pitacos de vez em quando… Mas o mérito é todo deles. [risos]

Qual a importância de uma novela incentivar a literatura, sobretudo nesses tempos de tantos ataques à cultura?

A televisão, particularmente no Brasil, veio suprir um vácuo, justamente o vácuo da literatura, da falta de cultura do povo brasileiro. A televisão entrou com uma força muito grande dentro desse barco e vem suprindo a nossa população com muita informação. As nossas novelas são novelas dramaturgicamente muito bem estruturadas. Se você comparar as nossas novelas com quaisquer outras novelas – da Turquia, do México, da Venezuela -, você que nossas novelas são muito elaboradas dramaturgicamente. Isso quer dizer que a gente cresceu dramaturgicamente e incluiu na nossa dramaturgia temas que as outras novelas muitas vezes não ousam incluir, como problemas sociais, problemas políticos, homossexualidade… A gente discute não só problemas familiares, mas também problemas sociais. Numa época em que a cultura está sendo desmanchada, evidentemente desmanchada, uma reação interessante por parte da população que não concorda com esse desmanche seria assumir que a leitura é uma coisa e que a educação é importante.

Como é sua relação, dentro e fora dos sets, com a atriz mirim Valentina Vieira, que interpreta sua neta em Bom Sucesso?

A Valentina é um geniozinho! Eu dei dois livros pra ela recentemente, e ela disse que já está lendo. Daqui a pouco eu vou fazer uma chamada pra ver se ela leu mesmo. [risos]

Qual tem sido o retorno da audiência nas ruas a respeito da novela?

Aqui [no Rio de Janeiro] eu quase não saio. Geralmente é de casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Mas realmente em São Paulo e no aeroporto – por onde passa gente do Brasil inteiro -, a gente percebe que as pessoas estão bem animadas mesmo [com a novela]. Porque tudo isso que falamos está sendo tratando de uma forma suave, bem humorada, gostosa, gentil, alegre… Acho que tudo isso contribui para que as pessoas gostem mais da novela.

Você também está no ar como Atílio, na reprise de Por Amor (1997). Acha que a imagem do galã mudou um pouco de lá até aqui?

As novelas hoje mostram mais o homem como ele é. O homem como era retratado antigamente [nas novelas] é que não existia. Aquele homem perfeito, imaculado; o herói, que não erra nunca… Não, o ser humano erra – nem sempre de propósito, às vezes sem querer. Acho que isso é uma coisa boa da novela contemporânea, de mostrar as possíveis máscaras de cada um. Tanto que às vezes você mostrar, no vilão, lados bons também.

Seu nome ainda figura na lista dos galãs favoritos do público. Como você enxerga isso?

A minha filha, Dinah [fruto do casamento com a também atriz Clarisse Abujamra], sempre me liga quando falam isso [sobre ser considerado galã]. ‘Que povo bom, não é, meu pai?’ [risos] Realmente é muita bondade das pessoas que hoje, na minha idade, eu ainda seja considerado galã. Meu Deus do Céu, só tenho a agradecer! [risos]

*Entrevista realizada pelo jornalista André Romano

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