A atriz Fernanda Torres volta para a segunda temporada de Filhos da Pátria para interpretar a materialista Maria Tereza, uma alpinista social confessa, obcecada pelos modos e tradições da alta sociedade.

Ao Observatório da Televisão, a atriz falou sobre os rumos de sua personagem na nova temporada da trama, a mudança de século da história e como a sociedade pouco evoluiu do período em que se passa o enredo de Filhos da Pátria para os dias atuais.

Nova Temporada

Como está a segunda temporada de Filhos da Pátria?

A mudança de século veio desde que começamos a trabalhar: queríamos dar um pulo [no tempo] numa época em que tudo no Brasil continua igual. Quem era escravo, vira empregado doméstico, quem era corrupto continua na mesma forma, os donos do dinheiro ainda continuam assim. Vamos partir da época em que as forças do exército do Getúlio Vargas atravessam o país e ele amarra o cavalo no obelisco. Maria Tereza, minha personagem, fala menos da ascenção social e aborda a loucura que ela fica com os militares. Ela os acha lindos e fica sonhando que o filho seja militar, ela entra para uma liga das donas de casa perfeitas, mulheres dos militares. Depois ela entra na menopausa. O legal da série é que ela mostra que o esqueleto da sociedade continua sempre igual. Nesta temporada, ela entra em conflito com a empregada dela porque ela acha um absurdo a empregada ter folgas e horários. Como tudo no Brasil, essas relações se dão pelo afeto, então ela fica magoada e triste porque a empregada tem folga. O Matheus Nachtergaele faz o corrupto mor da série e o Alexandre Nero interpreta o Geraldo, uma pessoa deprimida. Ele tem uma mistura do brasileiro, que é um pai amantíssimo, uma pessoa de família. Ele é um pai bem intencionado, mas também um canalha. São as nossas mazelas que nunca se resolveram. Maria Tereza diz coisas racistas e é uma débil mental. Você chega a ter um sentimento afetuoso por pena.

Os problemas do Brasil

O casal Bulhosa, Maria Teresa (Fernanda Torres) e Geraldo (Alexandre Nero). (Foto: TV Globo/Paulo Belote)

Você acredita que essas mazelas do Brasil um dia tenham fim?

Eu acho que teremos conquistas mínimas. Estamos vivendo num período meio apocalíptico, sem previsão de um bom futuro. Eu nasci na ditadura, vivi redemocratização e sonhava que a sociedade fosse diferente. Hoje temos uma sociedade mais aberta do que quando eu era criança. A crise econômica melhorou e hoje temos um pais mais imerso no mundo. Por outro lado, a democracia nos provou que o problema do Brasil é estrutural e mostrou que o jogo do poder se mostra desde as nossas raízes. Nossa desigualdade social a gente nunca consegue resolver, assim como o problema da violência e da educação. Eu não vejo num futuro próximo nenhuma solução. Não temos saneamento básico no Brasil, então não vejo isso. Vivi 50 anos para ver que o Brasil não mudou nada.

Você se inspirou em alguém em especial para compor a Maria Tereza?

Não, desde a outra temporada, sempre acreditei que a Maria Tereza está em todo mundo. Não tem uma pessoa que eu tenha me inspirado. É um espírito que habita até em nós mesmos. Ela parece sua tia, sua mãe… Então você tem um amor por ela, mesmo que ela seja um monstro.

Ela é a mesma personagem da outra temporada?

É a mesma, porém pior. Eu acho esta temporada mais dark porque tem um conhecimento dos personagens. O Geraldinho vira fascista e fala na mesa assume isso, com orgulho. Ele define isso como uma forma de conseguir tudo mais facilmente. A Laila está mais feminista do que era, uma mulher mais moderna.

O tom da comédia na história

Família Bulhosa – Geraldo (Alexandre Nero), Maria Teresa (Fernanda Torre ), Geraldinho (Johnny Massaro), Catarina (Lara Tremouroux). (Foto: TV Globo/Paulo Belote)


Você acha que a Maria Tereza se coloca num pedestal?

Eu não sei se ela está num pedestal. Pelo contrário: acho que ela mais parecida com a mulher da rua, da esquina. Temos vivido num mundo mais polarizado em que era feio ser de direita e hoje uma pessoa tem orgulho disso, dizendo o que pensa do mundo. Tá todo mundo falando o que acha.

Como é falar sobre assuntos tão sérios sob a proteção da comédia?

Essa é do Bruno! Tem um humor horrível e várias coisas da Maria Tereza são assim. Tem uma cena em que a Maria Tereza está fazendo caridade no morro e fala ‘nossa, como lugar exótico é este aqui. Nem parece que estamos no Brasil’. Ela é moradora da Tijuca e acha que o Brasil é a casa dela.

Como é pra você, Fernanda, a carga de falar algumas atrocidades como esta?

Não tem carga. O negócio é que eu fico pensando como isso ficará montado. O Bruno (Mazzeo, autor) e a galera dele têm humor. É um humor muito parecido com o Tá no Ar, inclusive um dos diretores veio de lá. Tem algumas cenas que são um verdadeiro horror, mas você se enxerga ali. A gente ri de nervoso.

No teatro você percebe de imediato se a piada funcionou. Como é numa série?

A primeira temporada funcionou, você assiste e tem isso tudo.

Mudanças na Sociedade

Família Bulhosa – Geraldinho (Johnny Massaro), Maria Teresa (Fernanda Torres), Catarina (Lara Tremourou ) e Geraldo (Alexandre Nero). (Foto: TV Globo/ João Belote)

Você acredita que a sociedade machista mudou em algum ponto?

Acho que mudou sim. Mesmo com as taxas de feminicídio lá em cima, acredito que alguma coisa mudou. Quando comecei a trabalhar como atriz no filme Inocência, foi considerado uma aberração porque era um filme que não tinha sexo. Foi uma surpresa absoluta porque o que sustentava o cinema no Brasil era a pornochanchada, como o Bye Bye Brasil, que tinha esta pegada. Era quase que uma obrigação de ter uma cena de nudez. Depois não teve. Acredito que as relações pessoais mudaram e acho que tiveram algumas mudanças sim. Não acho que seja igual. Acredito que as relações dos meus filhos hoje são diferentes do que na minha época. Acho que tem um viés machista sim, tanto que nunca se matou tanta mulher ou nunca soubemos. Há uma consciência de mudança.

Você é uma atriz que faz bastante comédia e o que tem achado deste tema mais politizado que tem feito sucesso? Acha interessante?

Eu acho que a sociedade está assim. A internet mudou este parâmetro. Na época da ditadura existia este humor politizado e, depois, a sociedade viveu outras coisas, veio o TV Pirata com um humor de comportamento e a política voltou para a mesa de jantar. É natural que o humor acompanhe esta tendência.

Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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