Glamour Garcia está fazendo sucesso em A Dona do Pedaço, atual novela das nove da Globo. Interpretando a divertida e decidida transexual Britney, a atriz conquistou o público com seu carisma demonstrado no núcleo da família de Eusébio (Marco Nanini).

No enredo criado por Walcyr Carrasco, Glamour, que é uma mulher trans, protagonizou uma das cenas mais marcantes de sua personagem: após passar anos no interior estudando Ciências Contábeis, Britney deixou seus parentes com o queixo caído ao surgir na rodoviária toda poderosa e usando um salto alto – ela saiu de casa como o inteligentíssimo Rarisson.

Em entrevista ao Observatório da Televisão, Glamour Garcia comentou a repercussão do seu trabalho na novela, o futuro do casal Britney e Abel (Pedro Carvalho) e também sobre a relação com o elenco.

Além disso, a artista ainda falou sobre família, militância LGBT, preconceito e violência. “As pessoas trans ainda são o foco desta violência, são vistas como aberração, tidas como monstros, mas não são, afirmou. Confira a seguir:

A novela

Como surgiu o convite para integrar o elenco de A Dona do Pedaço?

Recebi um convite para um teste do Walcyr Carrasco [autor da novela]. Nunca tinha estado na emissora [TV Globo], e em janeiro, a gente oficializou o contrato e a minha participação na novela. Tem sido tudo incrível.”

Como anda a repercussão da personagem Britney nas ruas?

A repercussão é maravilhosa, fico muito emocionada. Às vezes, nem consigo expressar tudo o que eu sinto de tão emocionada que fico. Estou muito feliz, não só por mim, mas fazer a Britney que é um sinônimo de alegria, emoção e amor. As pessoas podem se reconhecer nela, não só no tom de representatividade que ela tem para a comunidade LGBT e para a população trans, mas todo mundo ama a Britney. Este amor alimenta as pessoas, traz um carinho e elas se sentem felizes, alegres. A personagem repercute de diversas formas, mas em sua maior parte é muito carinhosa. Estou muito feliz! Fico tão emocionada que nem consigo entender.

Aos 30 anos, Glamour Garcia vira sensação na internet ao interpretar a personagem Britney em A Dona do Pedaço (Reprodução: TV Globo)
Aos 30 anos, Glamour Garcia vira sensação na internet ao interpretar a personagem Britney em A Dona do Pedaço (Reprodução: TV Globo)

A personalidade de Britney

Como você descreve a Britney?

Acho que ela tem muitas frentes. Só o fato de ela ser trans já é algo muito construtivo dentro da trama. Ela é jovem, volta da faculdade imbuída da força e capacidade dela, consegue um emprego na área dela, o que é uma temática muito importante. A inserção das transexuais dentro do mercado de trabalho é uma discussão de uma riqueza necessária. Eu falo isso como uma pessoa trans. Sou extremamente privilegiada diante de toda a população transexual, e não digo isso com arrogância. Apenas estou reconhecendo que esta discussão é importante. Infelizmente, boa parte das pessoas transexuais ainda são miseráveis e trabalha em setores informais. Isso não quer dizer que não seja digno, mas o mercado de trabalho tem de se abrir para a capacidade e inteligência dessas pessoas. O mercado está fechado por preconceito, o que torna tudo muito pior: perda de direito e agressões o dia a dia.”

Como ficará o romance de Britney e Abel na trama?

Todo mundo quer saber do romance da Britney com o Abel. Acho que tem muita importância falar desta trama, mas este romance ainda vai se desenvolver de muitas formas. Eu mesma não sei onde vai dar e o que vai acontecer. Eu tenho minhas projeções como público e artista, mas não sou eu a criadora da obra, então não sei no que vai dar.”

Britney (Glamour Garcia) e Abel (Pedro Carvalho) em A Dona do Pedaço
Britney (Glamour Garcia) e Abel (Pedro Carvalho) em A Dona do Pedaço (Reprodução)

Britney tem uma vida semelhante à sua?

Não, ela [Britney] tem uma vida diferente, mas claro que eu uso minhas experiências pessoas para criar a Britney.”

Relação com o elenco

Como é a relação com o elenco nos bastidores?

Honestamente, eu sou uma pessoa dada, extrovertida, que adora fazer amizades. Nem sempre consigo fazer amizade com todo mundo, e amo ter uma relação de paz com todos. Acho que já fiz amizade com todos, mas nem todo mundo participa da minha vida íntima. Tenho muito orgulho de trabalhar com pessoas que são referência no teatro e no cinema brasileiro. Tenho orgulho de trabalhar com Rosi Campos, Suely Franco e Betty Faria. Essas três mulheres não são apenas referência para mim, mas pessoas que mudaram a minha vida. Sou uma atriz mais feliz por trabalhar ao lado delas porque elas têm histórias, lutaram, foram feministas e chegaram onde estão. As três estão sempre comigo e incentivam minha capacidade profissional e criativa. Amo demais! Também me apaixonei pela Juliana Paes, por quem sempre fui apaixonada. A generosidade dela como artista é impressionante. Vou levar para sempre comigo esta experiência de tê-la conhecido no set. Ela transforma a gente na cena porque sua generosidade é impressionante. Para não dizer que sou injusta, também quero falar do Tonico Pereira e do Marco Nanini que estão marcando a minha vida de uma forma incrível. O Pedro Carvalho já se tornou meu melhor amigo, e não tenho como dizer da capacidade dele de levar a cena para um status ainda melhor. Sinto que eu tenho uma família nesta novela.”

Maria da Paz (Juliana Paes) ajuda Britney (Glamour Garcia) em A Dona do Pedaço
Maria da Paz (Juliana Paes) ajuda Britney (Glamour Garcia) em A Dona do Pedaço (Foto: Divulgação/ Globo)

Resistência LGBT

Brasil é o país que mais mata pessoas da comunidade LGBT.  Você é uma pessoa militante?

Eu sou uma pessoa muito militante, tenho este discurso. Eu tenho 10 anos a mais do que a Britney, isso faz diferença na época e na forma que fomos criadas. Tive uma luta pessoal, tal como toda transexual tem. A Britney tem um papel didático e, por meio dela, vamos ver muitas cenas de barbaridade, preconceito, tristeza e dificuldade. Não que ela vá se abalar por isso, mas será muito construtiva em termos sociais. Ela vai demonstrar na trama alguns fatos que a sociedade vai ter de parar para pensar. Ela foi bem resolvida, eu também sou muito bem – ainda mais agora como atriz global. A vida muda muito, ainda mais eu que sou uma pessoa carinhosa e estou nesta carreira há quase 20 anos. Não é só sobre o carinho ou arte, mas amor e conseguir construir algo concreto. A atuação não é um mundo de mentiras, uma falsidade. É uma construção com base em fatos concretos da sociedade. Eu, como militante, digo que sou um ser humano. Cada um de nós sabe o que aconteceu com nossas próprias vidas, então é necessário lutar contra as injustiças sociais que existem com relação aos LGBTQs, principalmente às trans.”

O trans na sociedade

Uma pessoa transexual é mais condenada pela sociedade?

“Os LGBTs ainda são cisgêneros, mas ser transexual é praticamente nascer morto. Pode parecer muito forte isso que estou dizendo, mas a sociedade incentiva as pessoas trans à morte, infelizmente. Falo isso abertamente porque nunca tive tanto espaço para falar sobre isso (chora). É necessário que seja dito. As pessoas não terminam de estudar porque são sistematicamente perseguidas, não conseguem trabalhar ou ter relações familiares porque os outros são desestruturados e agressores reproduzindo agressões e um sistema violento.  As pessoas trans ainda são o foco desta violência, são vistas como aberração, tidas como monstros, mas não são. Elas são seres humanos como qualquer um, com direitos à cidadania, votar, comer, respirar e viver. Quando tem de cobrar, o governo cobra. Além de cobrar, a pessoa sai na rua e é espancada ou esfaqueada. A gente precisa falar disso. Não cheguei aqui sem me omitir a isso. Consegui o papel da Britney, ela existe, sim, para que haja uma discussão amorosa sobre isso. É claro que existe esta violência na sociedade, mas estou com um papel de arte construtiva aqui. Vamos usar o espaço do amor e da arte para lutar para isso.”

Relação com os pais 

Como é a relação com os seus pais?

Eu tenho uma ótima relação com a minha família (chora), principalmente com o meu pai e minha mãe. Com certeza, meu pai e minha mãe são as pessoas mais importantes da minha vida (chora), e devo tudo a eles. Não no sentido da vida, mas tudo o que sou e sinto. Nós passamos muitas dificuldades juntos e isso é o mais valioso: tê-los como meus pais. Sou a mais velha dos meus irmãos, tenho 30 anos, e tudo era diferente. Meu pai é da década de 80, viveu em um período muito machista, reproduziu isso. Veio de uma cidade muito pequena, em Sarutaiá, no interior de São Paulo. Eu nasci em Marília. Minha mãe é psiquiatra e sempre teve um entendimento de uma perspectiva sobre a situação. Não havia uma abordagem sobre este assunto e eu fui a primeira transexual que minha família conheceu, com quem convivi durante muitos anos. Se não me engano, a primeira transexual que conheci, eu tinha 21 anos. Isso foi uma grande revolução na minha vida porque entendi que eu era a evolução construtiva no meu meio e tinha este papel. Por isso que tenho um nome artístico, desenvolvi minha militância e senti a necessidade de ser mais comunicativa e ter uma posição. O amor e o carinho me fizeram a pessoa que sou, ter a força que tenho. A Britney também é muito amada pelos pais dela. Não só pelo apoio, mas pelo carinho que eles tiveram em torna-la nesta mulher corajosa que quer ajuda-los.”

Mudança de sexo

Você pensa ou já pensou em passar pela cirurgia de redesignação sexual?

Desde que me tornei independente, não tive tempo e dinheiro. Como uma mulher independente, tive de trabalhar para me manter. Tenho orgulho disso, ajudar quem eu quiser. Também tem um tempo exigido mínimo de pós-operatório que é necessário para a recuperação. Eu não quero fazer cirurgia para ter complicações. No passado, as intervenções não eram tão avançadas. E, com o tempo, o Brasil se tornou um país referência no assunto, é um dos que tem mais tecnologia, mas este pós-operatório precisa ter uns 6 meses para estar com saúde para trabalhar. São quase 3 meses deitada na cama, sem poder trabalhar. Sempre quis operar, mas hoje em dia não me sinto mais paralisada nas minhas intimidades por não ser operada. Me sentia frágil, fraca e incapaz. No passado, eu lamentava por não ter dinheiro nem tempo para realizar a cirurgia, mas Deus sabe o que faz. Agora que tenho dinheiro sobrando sei me amar mais. Me sinto a mulher mais incrível do mundo, que luta e tem capacidade de ser quem sou. Somos mulheres incríveis.

Descobrindo ser trans 

Quando você percebeu que era uma mulher transexual?

Todas as pessoas transexuais sentem isso desde a infância. Isso já foi comprovado. A percepção já se dá desde os primeiros anos. Hoje em dia, a gente vê pessoas trans com 60 anos que ‘se tornam’ e muita gente não acredita. Ela já nasceu assim, mas por um contexto histórico, ela não desenvolveu. Eu amo a Laerte, que é uma amiga pessoal minha, que foi muito polemizada. Ela viveu na ditadura, tem um filho e dentro dela era diferente. Eu comecei a desenvolver a feminilidade na adolescência. Aos 18 anos, fui viver minha vida e lutei pela minha própria vida.”

Relacionamento

No momento da paquera, você costuma a contar logo no início que é trans?

Eu nunca contei. Independente do risco que eu corria. Tive muitos amigos e amigas que foram violentadas em episódios como estes. Sou uma mulher e sempre senti que este era o meu direito. Eu não poderia ficar me violentando por ser uma mulher transexual mais do que a sociedade me violenta como pessoa. Esta questão é nociva porque tira o direito da transexual de ser mulher. Não interessa a sexualidade dela! Cada corpo tem sua especificidade, mas já passei muito por isso. Faz muito tempo que comecei meu tratamento hormonal e tenho um físico que não traz essa discussão à tona. É só na hora do ‘vamos ver’ que o cara vai saber.

Glamour Garcia vive Britney em A Dona do Pedaço (Divulgação / Globo)
Glamour Garcia vive Britney em A Dona do Pedaço (Divulgação / Globo)

Por que Dani virou Glamour?

Eu era muito jovem, tinha um fotolog, e achava que Daniela Garcia e criei este nome. Na época, eu já tinha começado meus trabalhos e pensei: ‘Por que não?’. Usar Daniela, Joana, Maria… Estou fora! Eu sou é Glamour!”

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano.

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