Flávio Tolezani
Flávio Tolezani (Divulgação/ TV Globo)

Depois de viver o pedófilo Vinicius em O Outro Lado do Paraíso, Flávio Tolezani encara um personagem mais leve em Verão 90. No ar como Raimundo, ele conquistou o público, que torce pelo romance do personagem com Janaína, interpretada por Dira Paes.

Em conversa com o Observatório da Televisão, o ator falou sobre a importância de interpretar um homem nordestino suas referências, e ainda citou o carinho do público com o personagem. Ele agradeceu por estar cercado de grandes atrizes em todos os seus trabalhos. Confira o bate-papo completo.

Como está sendo para você interpretar este nordestino?

Eu adoro o Raimundo. O jeito dele me agrada muito, um cara tão do bem, que gosta de ajudar todo mundo. Com relação de ser nordestino, para mim é um prazer fazê-lo, e tem uma questão de que ele está no sudeste há 30 anos, então já está ambientado. Essa miscelânea é o que vira o Raimundo.

Você recebe comentários de pessoas do Nordeste? Qual é o feedback deste público?

Recebo algumas mensagens com coisas bacanas de ouvir, dizendo que estão muito bem representados, algo que é muito agradável para mim.

O Raimundo teve uma passagem com a Madá. Como foi para você fazer o Raimundo com a Madá?

Eu acho que essa trama que aconteceu foi muito clara para revelar que eles juntos não funcionam porque os coração são de outros. Isso pode acontecer com qualquer um, e acho bacana que eles têm essa clareza. Ele diz ‘A Janaína está no meu coração’, mas a vida segue. E ela também retornou dizendo que o Álamo é o grande amor dela, que ela não esquece. Eles tiveram uma amizade colorida, mas essa lucidez.

Raimundo e Janaína

Raimundo (Flávio Tolezani) e Janaína (Dira Paes) na novela Verão 90
Raimundo (Flávio Tolezani) e Janaína (Dira Paes) encerram rivalidade na novela Verão 90 (Foto: Globo/Cesar Alves)

Você lutaria por um amor de uma mulher se amasse ela como o Raimundo ama a Janaína?

Sim, mas acho que tudo tem um limite. Acho que eu ficaria mais parecido com o Raimundo nesse aspecto porque não avançaria muito o sinal. O Raimundo é super contido, ele pode revelar os sentimentos, mas não vai muito atrás. Talvez por uma mistura de timidez e orgulho. Ele respeita o outro.

Raimundo e Janaína vão terminar juntos não é?

Terminar eu não sei. Quem sabe são as autoras. A gente sequer recebeu [os capítulos] até o fim, não estou escondendo, só não sei mesmo (risos).

Qual a sua expectativa para o seu personagem?

Acho gostoso o amor entre Raimundo e Janaína, que eu ficaria muito feliz com esse final. Tem tanta coisa para acontecer que eu ficaria feliz.

Como é a recepção do público diante do envolvimento do Raimundo com a Madá?

Eu acho que quando começou acontecer coisa com a Madá tive uma resposta do público, mas as coisas que vejo além de ter criado essa expectativa de Raimundo e Janaína, quando a Madá chega, ela não só interfere, mas a relação é construída de uma forma que mostra que eles são incompatíveis. Além do momento gostoso que eles viveram, o coração não estava envolvido, talvez por isso o retorno que tive sobre o casal é que não estava batendo, e de fato não é para bater.

Construção do personagem

Janaína (Dira Paes) e Raimundo (Flavio Tolezani) em Verão 90
Janaína (Dira Paes) e Raimundo (Flavio Tolezani) em Verão 90 (Divulgação/ TV Globo)

A gente vê nas redes sociais o pessoal shippando Janaína e Raimundo. Queria saber se o trauma que esse homem teve no passado em relação a um amor, o fechou e fez com que ele só conseguisse se abrir com a Janaína.

Aí tem elementos que estão escritos, ditos em sinopses, e outras que acabo construindo para mim. O que fica muito evidente é que além de qualquer trauma, ele é um cara que foi muito focado em trabalho, porque ele saiu da Paraíba com isso na cabeça. Ele tinha uma vida lá tão difícil que saiu obstinado a conseguir ter uma vida estabelecida e razoável para que nunca mais passasse fome. Minha construção é toda em cima disso. É um cara que foi tão focado, que o prazer dele foi além de conquistar essas coisas profissionais, foi ajudar os outros, que não tinham condições, é o que ele faz o tempo todo em muitas passagens da novela. Ele não tem a cabeça voltada para o amor, mas na convivência boa com as pessoas.

Ele vai crecser muito na trama, e vai acabar virando um leão perto da Janaína. E ele vai para cima do Jerônimo, para não ficar em cima da sua mãe. Como é isso?

Eu acho que o Raimundo quando ele assume estar ao lado da pessoa, e a relação se concretiza – e isso se dá com qualquer pesosa -ele compra as brigas daquela pesosa. Claro que o que acontecer de ruim com a Janaína, ele vai intervir, então nada mais natural que uma reação ao Jerônimo, dado tudo o que ele fez.

Comparação Vinícius e Raimundo

Vinícius (Flávio Tolezani) em O Outro Lado do Paraíso
Vinícius (Flávio Tolezani) em O Outro Lado do Paraíso (Reprodução)

Você saiu de um personagem terrível, um pedófilo em O Outro Lado do Paraíso, que as pessoas odiavam, e agora já está sendo amado pelo Raimundo…

Eu acho que as pessoas não esqueceram, o que acho muito bom porque a novela marcou, ficou muito forte, e tudo o que acontecia lá, ia muito ao extremo. Espero que as pessoas não esqueçam mesmo porque não é só um olhar para o trabalho, mas para o que foi dito lá. Sair de lá e vir para cá, não tem nada mais gostoso para o ator. Adoro essas diferenças e salt0s. Quem puder ter isso ao longo da carreira é genial, porque o ator no geral quer encontrar coisas por onde ele passa pela vida.

Houve um tempo que o público estava glamourizando os vilões. E como é para você fazer um cara assim retilíneo, com um comportamento de bom moço?

O que vejo no Raimundo, é que não é um cara frouxo. É diferente fazer um cara assertivo. Eu tento evitar alguns termos como dizer que é um cara do bem, por exemplo porque é perigoso, por mais que eu queira usar esses termos, posso cair na situação política que toma conta do país, e ‘do bem’ hoje tem outra conotação. Acho interessante mostrar que ele não é vilão de forma alguma, mas não é frouxo. É um cara humano simplesmente.

Cultura nordestina

A gente tem no Rio de Janeiro um cantinho nordestino, a feira de São Cristóvão. Queria saber se você já foi lá.

Eu estive lá antes da novela, e não voltei mais. Isso é falha minha, preciso voltar. É uma referência muito grande para mim, até porque lá estão os nordestinos que estão há mais tempo aqui, que são interessantes para uma pesquisa sobre o Raimundo.

Você sabe cozinhar? Sabe fazer a comida nordestina?

Sei cozinhar. Não sei fazer a comida nordestina (risos). O baião de dois da novela é mentirinha mesmo. Eu faço umas coisas italianas, e como minha família é italiana, tenho muito mais menu nesse sentido, e algumas coisinhas genéricas brasileiras. O que faço na novela é o que o chef João Marcelo prepara para a gente (risos).

Como está sendo a troca com a Dira Paes? Porque a Janaína está crescendo pela garra dela como se fosse o Raimundo de saia…

Ela está muito mais à frente do tempo por causa do feminismo. Ela tem o discurso feminista, que naquela época era muito mais difícil. A gente tem que lembrar o tempo todo que está fazendo novela de época, e que se hoje as coisas que ela fala são normais, naquela época não era. Não sei se ela é um Raimundo de saias, mas vejo a Janaína como uma potencia muito maior. A guerra dela é mais árdua, principalmete por ser uma mulher. A troca com ela, tenho tido muita sorte com as pessoas com as quais contraceno. Sempre admirei demais a Dira, e tive uma conversa uma vez com ela, porque a respeito demais, e ela é maravilhosa. Foi assim também com a Sandra Corveloni, que para mim são as melhores do país.

Cantadas

Com a Grazi também, não é?

Eu não tenho do que reclamar, e repito que só tive sorte de cair com grandes atrizes, porque estamos falando de atrizes. Acho que a Grazi teve um trabalho espetacular desde o começo de Verdades Secretas.

Você tem algum sonho de personagem?

Posso falar isso mais do teatro, porque lá a gente tem um pouco mais de domínio do que a gente faz. A TV é maior do que a gente. Eu falaria do Hamlet no teatro, que há muito tempo falo, e me preocupo porque não quero deixar passar.

Você recebe cantada da mulherada?

Acho que o Raimundo é um coroa mais centrado, então recebo dessas idades de acordo com o Raimundo.

Você é bem tranquilo nas redes sociais, não é?

Eu não sei lidar muito com expor demais a minha vida, e fico mais quietinho.

Como é o Flávio Pai?

Minha filha está crescendo, agora ela já é a filha que passa rasteira no pai no sentido de me ensinar muito mais do que eu ensino hoje. Ela é um mulher, faz 15 anos esse mês, e 15 anos hoje é muito adulto. A independência dela está muito conquistada e eu preciso me podar e dizer ‘opa, esse é o espaço dela’. A Ana está muito bem encaminhada. Não tenho ciúme, achei que eu teria, mas nunca tive.

Ela curte esse lado artístico? Você acha que ela que pode enveredar por este caminho?

Ela tem muita vontade, e ela estava matriculada para começar o curso de teatro, o mesmo que fiz em São Paulo, mas bateu com o horário da escola e ela teve que trancar. Ela já faz cursos livres há um tempo, e algo que ela sempre pediu.

Leveza do personagem

Você quando sai do estúdio aqui em Verão 90, sai mais leve que dos trabalhos anteriores?

Sem dúvida. O Outro Lado do Paraíso, e Verdades Secretas tinha um emoção e uma carga que não foram fáceis. Tiveram dias de a gente sair chorando, e falar ‘vamos pra casa que hoje o dia acabou’. Saíamos muito esgotados. A gente como veículo para aquilo, precisamos estar envolvidos com aquilo. Discursos terríveis saem da sua boca na hora da cena, e depois a gente pensa ‘não foi legal falar isso para a minha colega’. Aqui é tudo muito alto astral.

E você gosta desse clima de nostalgia dos anos 90?

Muito, minha época de adolescente. Rola sempre uma coisa nostálgica muito boa principalmente em relação à música.

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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