Kléber (Kelner Macêdo) e Décio (Bruno Garcia) em Sob Pressão
Kléber (Kelner Macêdo) e Décio (Bruno Garcia) em Sob Pressão (Reprodução)

Kelner Macêdo é certamente um dos destaques da atual temporada de Sob Pressão. Além de abordar os dramas da saúde pública no Brasil, a série médica da Globo traz para o debate o amor entre dois homens. O detalhe é que este amor esbarra na relação médico e paciente.

Na história, Kléber, um rapaz soropositivo, é agredido numa balada e atendido por Décio, médico do hospital onde se passa a história escrita por Jorge Furtado. Nas duas temporadas anteriores, Décio (Bruno Garcia) já deixou evidente sua orientação sexual, discreto, porém, o clínico geral vem se abrindo aos poucos para familiares e amigos.

Mas no episódio da última quinta-feira (23), data histórica para o Brasil, em que o Supremo Tribunal Federal classificou como crime a homofobia, o casal protagonizou um beijo e se entregaram à paixão. Com muita delicadeza, a produção mostrou o encontro entre dois homens.

Sob Pressão

Elogiada por público e crítica, Sob Pressão aborda ainda temas sensíveis à sociedade. Além disso, por meio do merchandising social, a Globo discute a importância da prevenção e o tratamento da AIDS, além, é claro, de outras enfermidades ao mesmo tempo.

Em entrevista ao Observatório da Televisão, Kelner Macêdo, 24, formado em teatro pela UFPB, comemorou o beijo entre seu personagem com o de Bruno Garcia. De acordo com o ator, Kléber faz com que Décio vivencie seus desejos de uma forma livre e digna: “Quando o desejo é reciproco, ele aparece, não há como negar”. 

Já assistiu ER (Plantão Médico), Greys Anatomy, Chicago Med, séries médicas que retratam os dramas dos pacientes?

Vi pouquíssimo Greys Anatomy. Mas não tinha acompanhado realmente nenhuma dessas outras séries médicas, até aparecer Sob Pressão, que eu acompanho desde a primeira temporada.

O que passa na sua TV?

Eu me interesso muito pelas produções nacionais, tento ver o máximo possível do que está sendo produzido aqui. Na TV, por exemplo, acabo acompanhando as séries que acabam me fisgando mais facilmente. Acho que estamos num bom momento de efervescência, e de mudança mesmo nos formatos das produções que vão para a TV, e isso me interessa.

Qual é a importância de se abordar os dilemas da saúde pública no Brasil? 

A TV é um espaço de diálogo muito direto com as pessoas, então acho que a série questiona muito bem os dilemas da saúde pública brasileira, retratando e aproximando as histórias dos personagens, com o público que assiste. Vivemos num país ainda muito desinformado e carente de educação, onde as pessoas são treinadas para serem intolerantes e preconceituosas. Então, é muito louvável que uma série como esta aborde e levante essas discussões em rede nacional.

Direitos

Como se preparou para dar vida ao Kléber? Ele é soropositivo, não é portador do vírus HIV.  Fez algum tipo de estudo sobre o tema?

Foi um trabalho de pesquisa e construção muito importante para a vida toda. Um exercício diário de encontrar beleza nos dias, apesar de qualquer coisa. Quando li o roteiro fiquei muito excitado de poder criar um personagem que é portador do HIV, e que tem uma vida normal, longe do velho estereótipo da AIDS. Fiz uma pesquisa mais técnica para entender os processos de tratamento, da possibilidade de zerar a carga viral no corpo e ter uma vida tranquila. Foi duro perceber o quanto essas pessoas são discriminadas e marginalizadas socialmente. Foi um exercício de cidadania.

A violência entre membros da comunidade LGBTQ+ é crescente. O episódio retratou a forma como muitos são tratados no dia a dia. Como analisa esse contexto? Serve de alerta tanto no caso sobre a questão da prevenção e tratamento, quanto da violência?

Acho que o episódio serve de um alerta geral para a população, tanto na conscientização da prevenção da doença e do tratamento, quanto na luta contra a violência sobre a comunidade LGBTQ+. O Brasil é o país que mais mata LGBTQ+ no mundo, e precisamos mudar esse cenário de alguma maneira. Uma delas é começar a criar novos imaginários para essa população. Novas referências, novas possibilidades de narrativas. E acho que o Kléber faz parte dessa busca por novos caminhos de dramaturgia para a comunidade.

Homofobia

E sobre a decisão do STF? Tem algo a comentar?  

Muito feliz com a decisão do STF em criminalizar a homofobia. É muito duro viver esse momento de apologia à violência, de incentivo à guerra geral. Atos, como esse do STF, me fazem criar alguma esperança de caminharmos para um novo momento da existência, pelo qual as pessoas se respeitam, e vivem juntas, apenas.

A relação entre médico e paciente é complexa, há códigos de ética, etc. Mas os personagens acabam se relacionando, já com Kléber sob alta. Como analisa o romance dos dois?

O Kléber e o Décio se encontram e alguma coisa acontece. Um interesse brota desse encontro, e o Kléber resolve que quer viver esse desejo, e busca-o. E é correspondido por Décio, que inicialmente resiste, e depois se entrega a esse desejo também. Acho o encontro dos dois lindo. Poderia ser em qualquer lugar, em qualquer situação, por acaso foi no hospital, e por acaso foi num plantão do Décio. Mas quando o desejo aparece, não há como negar. Nada os impediria, nem mesmo o código de ética, ou qualquer outra desculpa. Um desejo recíproco!

Kelner Macêdo integrou o elenco de Onde Nascem os Fortes e Corpo Elétrico (Foto: Mateus Cabral/Divulgação)

Liberdade

Acredita que Kléber ajuda a transformar de alguma forma a vida de Décio? No caso se sentir mais livre?

Sempre acreditei que os encontros nos modificam muito. As pessoas atravessam nosso caminho e deixam rastros. Nesse caso, o Kléber passa pela trajetória do Décio e revira algumas questões, provoca desejos, faz sair do padrão. Acho sim que depois disso a vida do Décio vai ser muito mais leve e tesuda.

Como foi gravar as cenas de romance entre os dois?

Nos dedicamos muito a todas as cenas, para trazer sutilezas e realismo a tudo. E contamos com uma direção muito afiada de Rebecca Diniz, que soube conduzir muito bem o nosso trabalho em conjunto. O Bruno Garcia é um ator dedicado e generoso, foi uma grande parceria para chegarmos a esta relação.  

Afinal, quais eram as preocupações da direção e de vocês?

Fugir dos exageros e dos estereótipos que tanto vemos retratados em personagens LGBTQ+.

Aliás, como tem sido o retorno do público?

Desde a exibição do episódio estou recebendo mensagens muito carinhosas de fãs da série, e da comunidade LGBTQ+ vibrando e comemorando muito pela história que contamos em TV aberta. Muito feliz com tudo!

Por fim, quais são seus novos projetos?

No teatro sigo com a peça Lobo, de Carolina Bianchi y Cara de Cavalo. No cinema estou aguardando os lançamentos de alguns filmes que gravei entre 2018 e 2019, como o primeiro do diretor Flávio Botelho, Depois. E dos curtas Agreste, de Diego Carvalho Sá, e A Mordida, de Pedro Neves Marques (ambos protagonistas). Agora, estou iniciando um projeto na TV, mas ainda não posso falar sobre. Mas vêm coisas muito legais por aí!

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