Sabrina (Miguel Rômulo) em Verão 90
Sabrina (Miguel Rômulo) em Verão 90 (Reprodução/TV Globo).

Em um dos momentos mais importantes de sua carreira, o ator Miguel Rômulo atualmente está no ar como a Drag Queen, Sabrina, em Verão 90. O personagem é um desafio para o ator, mas que tem uma carga importante e mostra que ele tem se saído muito bem.

Em entrevista ao Observatório da Televisão, Miguel falou sobre como está sendo viver a personagem e ainda revelou detalhes do possível final de Sabrina. Confira:

Como está sendo para você interpretar a Sabrina?

“É uma honra fazer um personagem tão importante, não só para mim, mas para todo mundo na sociedade que a gente vive hoje em dia. Poucos atores têm esse privilégio, eu tive a sorte de poder ser escolhido e fazer esse personagem.”

Como foi quando você recebeu o convite?

“Quando você recebe um personagem tão importante, tão forte e tão necessário, ainda rola um baque. Porque é uma coisa muito importante, muito forte. Então quando eu recebi, eu estava em Taquari com a minha namorada e os pais dela, jantando. O telefone tocou com o convite para fazer a Sabrina e eu na hora cheio de barba na cara.”

Comentários

Como é o comentário dos pais da sua namorada e das pessoas?

“Eu sou cercado de pessoas muito importantes na minha vida e acho que esse é o objetivo. Sair de perto de pessoas com pensamentos retrógrados, com pensamentos errados e se aproximar de pessoas boas. Então tanto a minha mulher, como meu sogro, a minha sogra, a minha mãe e meu pai, meus irmãos e meus amigos são pessoas do bem, que ao saberem da Sabrina ficaram muito felizes.”

O público fala com você nas ruas sobre a personagem?

“Fala! E o mais legal é que até agora não veio nada de negativo. Eu acho que com a internet e com o tempo, a sociedade vai evoluindo nesse sentido de que o preconceito é uma coisa completamente inadmissível e acho que por conta da união de pessoas boas, nada de ruim chegou em mim. Nenhum tipo de comentário homofóbico, nenhum tipo de preconceito, apesar de saber que isso existe. Para isso que eu também estou fazendo esse personagem, para fazer parte da luta, para mostrar que ninguém está sozinho.”

Em que você se inspirou para fazer a Sabrina?

“Em tudo, no lado Miguel Rômulo que eu não conhecia. Eu acho que o mais legal de fazer um personagem é isso, eu explorei um lado feminino tão forte, que eu acho que todos têm. É tão necessário e importante, eu me entendi como homem e tive referencias muito boas. Eu tenho muitos amigos gays, morei seis meses em Nova York e vi dois shows de Drag Queens lá. A primeira vez que eu coloquei a maquiagem, o figurino, o cabelo e eu falei que aquilo estava sendo uma aventura linda, que é necessária e importante, porque eu como ator estou aprendendo a cada dia que passa.”

Preparação

Qual o tempo que você demora para fazer sua maquiagem? Você está dando mais valor para as mulheres?

“Eu acho que falar de valor das mulheres é um assunto muito simples. Eu acho que me vestir de mulher, não é uma questão de pensar nas mulheres, é só umas coisas que ninguém está se importando, por exemplo o salto alto. Quando eu coloquei o salto, eu falei que aquilo era um instrumento de opressão machista, porque meu Deus do céu, como dói isso.

A gente observa esses lados, mas eu acho o salto uma coisa tão legal. A saia é uma coisa tão linda e eu adorei meu figurino, meu cabelo e adoro a minha unha pintada. Eu não gosto muito de pensar em coisas de homem e coisas de mulher, eu explorei um lado feminino, mas uma coisa mais poética mesmo. A gente tem uma equipe muito boa de caracterização, então eu me arrumo em uns quarenta minutos.”

Qual final você daria para a Sabrina?

“Acho que o final da Sabrina, é o final feliz de qualquer homem gay dos anos 90. Um final positivo e que mostre que você não tem que ter medo de quem você é. Porque ser gay nesse país hoje em dia, é uma luta diária, é um desafio. Porque o preconceito existe. A gente vive no país que mais matam gays, independentemente de ser proibido ou não e a gente tem um presidente que não olha para isso, não presta a atenção nisso.

E fazer um personagem desse, nesse momento atual, não é só um presente, é um desafio. Desafio para me posicionar na luta e contra o preconceito, dos direitos e tudo o que é importante. Eu acho que o governo está prestando muito a atenção em coisas que não tem que prestar e fecha os olhos para coisas como a educação.”

Dificuldades

O que foi o mais difícil para você?

“Eu acho que não é o que é mais difícil, acho que é o que é mais desafiador. Ser mulher é muito difícil, eu não consigo nem imaginar o quanto deve ser. Então se eu pudesse escolher uma coisa que incomoda mais, seria uma roupa. Às vezes elas usam uma coisa mais apertada, uma coisa que pinica… Só que quando eu venho aqui, eu venho de Sabrina e imagino que ela não se incomoda com o que ela usa, porque ela é um pavão.”

Tem uma cena do Candé preso e a Sabrina é a única a ir visitar ele, todos os outros viraram as costas. Como é para você fazer essa cena e ver que é algo tão real?

“O que mais marca isso é a humanização do Candé através da Sabrina. A atitude dela não é por causa da orientação sexual dela, ela é uma pessoa muito boa, que tem o caráter bom e a índole boa. Ela ir ajudar o Candé é muito legal. É muito legal fazer a Sabrina que é um personagem gay, de família humilde e que se aproxima dele não por uma questão sexual, é um cara que está perdido e ela enxergou isso, falou que não iria desistir dele e que iria tentar mudar ele.”

Casal?

Você acha que existe a possibilidade do Candé ficar com a Sabrina no final?

“Acho que existe, mas eu não sei. Eu torço para que os dois sejam felizes, terminando com o Candé ou não. Mas o público vai decidir.”

Você começou muito cedo e teve uma transição da criança para o adulto, como foi isso?

“A minha família sempre me apoiou, não me forçou. A minha mãe se apaixonou pela arte depois que eu comecei a fazer novela e inclusive se formou em teatro. Todo mundo sempre me apoiou muito e quando eu fiz Coração de Estudante, eu tinha nove anos e comecei essa brincadeira de ser ator. Fui crescendo e fazendo novos trabalhos e sempre amei fazer tudo isso.”

E se a Sabrina ficar com o Candé e rolar o beijo entre dois homens?

“Aí é a cereja do bolo, né? É você receber um personagem lindo, fazer um personagem com tanta vontade, tão importante em uma sociedade e no final ter um beijo, que é uma realidade. Eu não sei se já teve um beijo gay em uma novela das sete, mas até me emociona.”

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano.

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