Francisco Cuoco
Francisco Cuoco (Divulgação/ TV Globo)

Francisco Cuoco será Nestor um ex-militante, revolucionário que devido ao exílio, ficou longe de seu grande amor, Naná, interpretada por Arlete Salles em Segundo Sol, nova novela das 21h da Globo, escrita por João Emanuel Carneiro. Durante a coletiva de lançamento do folhetim no Rio de Janeiro, o ator conversou com nossa reportagem e falou sobre o personagem, e sobre acreditar tanto no texto do autor com quem já trabalhou anteriormente em Cobras & Lagartos. Confira:

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Como está sendo fazer este personagem?

“O que é muito atraente é saber que ele foi um revolucionário e foi exilado, porque sou da época que a ditadura fazia isso. Ele deve ter apanhado muito porque irei dar sinais de alguma coisa física, algo que ainda conversarei com o Dennis Carvalho (diretor da novela) e sei muito pouco. Só tive duas cenas. Como é um personagem ligado à Naná (Arlete Salles), ele vai ser um personagem que deixa o Dodô (José de Abreu) meio desconfiado. Estímulos não faltam para fazer um trabalho centrado. Fico esperando meus momentos, com a maior tranquilidade para ir construindo e aprendendo.”

Como é para você participar de uma novela de um autor que revolucionou a teledramaturgia?

“Uma honra. Trabalhei com o João Emanuel em ‘Cobras & Lagartos’, e já dava para sentir o talento dele. Fiquei honrado porque existe um subtexto, que dá uma segurada na coisa toda, e temos uma intuição que pode ser uma história interessante, bem contada, que vai atrair o telespectador, o que é o objetivo da casa e o nosso. O público conhece bem a telenovela e sabe eleger o que é bom, e rezo para ter saúde e disposição, porque é um trabalho longo, duro, e tem muito da presença física.”

Como você lida com o passar do tempo?

“Às vezes eu acho que lido muito bem porque ainda sou chamado pela televisão e quando se tem trabalho é muito bom. Aposentadoria deve ser uma coisa que atordoa, um vazio horroroso. Eu vejo as pessoas jogando dominó na praça, e fico um pouco penalizado porque prefiro estar na ativa, e de preferência se for o caso, finalizar a vida na ativa.”

E como o senhor recebe e lida com o carinho do público nas ruas?

“Muito bem, sou incapaz de recusar uma foto ou pedido. Creio que temos que agradecer o público a todo momento porque é para ele que fazemos isso. Temos que tomar cuidado para não atender só a nossa vaidade, temos nossa responsabilidade e obrigação para com o público.”

Você, que tem muitos anos de profissão, já viu muita gente quebrar a cara ao abraçar o ego?

“Vi. O perigo principalmente são os jovens, e é muito doloroso. Já vi carreiras interrompidas pelo excesso de ego, de ‘sabe com quem está falando?’, algo que não devemos fazer nunca em nenhuma atividade, porque somos seres humanos. Somos um misto, fortes, frágeis, delicados, e quebramos com facilidade.”

Como lida com a pressão de participar de uma novela das 21h?

“Faz um tempo que não faço novela, a última foi ‘Sol Nascente’ (2016). Sobre a pressão vamos levando, os diretores hoje em dia têm uma compreensão maior, até porque eles próprios não conseguem fazer sozinhos.”

A Fernanda Montenegro comentou que fazer novela hoje é como fazer um longa-metragem por dia…

“Sim. São 1 hora e 15 minutos no ar diariamente. É admirável ver a Laura Cardoso, a Fernanda Montenegro, o Lima Duarte em ‘O Outro Lado do Paraíso’. É um reflexo para a gente, e creio que eles acabam vendo isso em mim também, esse vigor na medida certa.”

‘Segundo Sol’ fala sobre recomeços. O senhor já teve recomeços ou medos de recomeçar algo?

“Muitos medos. Tive sim, tive separação, fiquei afastado de filhos, o que é muito doloroso. É uma pena que a gente não nasça sabendo muita coisa, porque a gente tropeça na vida muitas vezes e isso dói.”

O senhor chegou onde sempre sonhou?

“Eu acho que é um privilégio, mas creio que sempre tem mais coisas para fazer. Prefiro pensar assim, porque sempre me leva ao encontro dos trabalhos.”

A dona Laura Cardoso renovou contrato recentemente, então, a Globo enxergou nela grandes possibilidades mesmo aos 90 anos…

“É lindo isso, e necessário, porque a gente precisa. A gente é de uma geração que ganhava e gastava com filho, ex-mulher, com besteirada. Nunca fui extravagante, mas gastei, e o que você construiu lá atrás, hoje está deixando para os filhos.”

No país em que vivemos hoje, ter plano de saúde já é um privilégio, não é?

“É mesmo! São absurdos os valores. Tem gente que paga até 5 mil, gente que paga 7 mil de condomínio. Estamos ferrados com a política que a gente teve e espero que isso se corrija um pouco.”

Qual é o Brasil do Francisco Cuoco hoje?

“Brasil está caquerado, lastimável! Uma pena, não vejo esperança, gostaria de tê-la, mas não vejo esperança infelizmente. Os nomes que nos foram apresentados, são duvidosos, e na situação que estamos, apostar em alguém é muito perigoso.”

Como você lida com críticas? Teve uma época que falam que você era um ator meio canastrão…

“Lido bem, porque é impossível agradar a todos. Sempre aprendi com a escola de arte dramática que vivemos um dia depois do outro e nada é definitivo.”

Como está sendo a troca com a Arlete Salles?

“Ainda não gravei com ela, mas ela vai me trazer uma memória maravilhosa. Trabalhamos juntos em ‘Selva de Pedra’ e depois não trabalhamos mais, mas tenho certeza que será lindo, porque ela é uma profissional de tirar o chapéu. A respeito totalmente.”

O senhor quando sair desse plano, terá seu nome alicerçado na dramaturgia do Brasil… 

“É uma honra. Acho bonito. Se alguma coisa pode ficar, que seja isso. Um epitáfio escrito: ‘Estive por aqui, gostei e amei muito’. Enfim!”

O que podemos esperar de Segundo Sol?

“Sucesso, é a minha expectativa. Que o público ame.”

* Entrevista feita pelo jornalista André Romano