Letícia Colin
Letícia Colin (Divulgação/ TV Globo)

Letícia Colin será Rosa, uma moça muito impulsiva e corajosa em Segundo Sol, próxima novela das 21h, que estreia no dia 14 de maio. O Observatório da Televisão conversou com a atriz durante a coletiva de lançamento da trama, que relatou que sua personagem se envolverá com prostituição por viver numa situação financeira complicada, além de ter que aguentar os maus tratos do pai, interpretado pelo ator Roberto Bonfim.

Letícia falou ainda sobre a princesa Leopoldina, sua personagem na novela Novo Mundo, e afirmou que os trabalhos anteriores a ajudaram a desabrochar e até mesmo construir Rosa. Confira o bate papo completo com a atriz:

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Você acha que de uma certa forma, a Leopoldina te deu essa Rosa, de presente?

“Eu acho que a vida é uma continuidade de belos desafios. Eu acho que tudo, desde que eu comecei, eu comecei a trabalhar com oito anos, então, eu acho que muitos personagens ajudam a gente aprender coisas, a se transformar como ser humano, como ator e melhorar como ator. Por exemplo, meu encontro com o Vinícius Coimbra da novela, que foi um grande diretor para mim, que me ensinou muito sobre atuação, sobre confiar, sobre acreditar na direção, no encontro. Como meu parceiro Caio, falando de ‘Novo Mundo’, a Júlia Rezende do ‘Ponte Aérea’. São muitos trabalhos que vão ajudando a gente a desabrochar e eu estou muito feliz com a Rosa.”

Quem é essa Rosa?

“A Rosa é uma baiana de uma família bem pobre, que está passando por um momento difícil, ela tem muitos problemas de relacionamento com o pai, porque o pai que é interpretado pelo Roberto Bonfim, é um cara muito machista, é um cara que pertence a um outro tempo, sabe? E a minha personagem não aceita, ela é muito solta, ela é muito inteligente, ela é uma mulher que preza muito por independência, por autonomia, são temas caros a ela, só que ela mora ainda sob o teto dele e não tem grana para se bancar, porque eles são uma família pobre e ela não consegue emprego. Ela tem que ficar engolindo aquelas coisas que o pai diz, principalmente nos maus tratos à mãe. Ele é um cara que trata muito mal a esposa e a gente vive isso, é muito sofrido, acho que quem conhece pessoas que vivem assim, vendo uma pessoa que você gosta sendo maltratada é muito difícil. Ela é um personagem que sofre muito essa dor, mas que vai se emancipar, ela está indo para o mundo, ela precisa ganhar dinheiro, ela precisa sair de casa, para dizer que ela realmente não aceita aquilo. E nesse meio tempo ela se apaixona, conhece o personagem do Chay.”

Mas ela cai na prostituição?

“Ela vai ter uma passagem pela prostituição. A gente ainda está bem no começo, é uma prostituição de luxo, ela recebe esse convite para experimentar, para ver qual é e ela está muito infeliz com a situação da família, de ganhar pouco dinheiro, de não conseguir trabalho, a falta de dignidade, né? É bastante contraditório, a maneira que ela se envolve com isso, ela é muito corajosa, ela é muito dona do seu próprio corpo, dona de si. Ela tem um pensamento feminista, progressista, porque tem várias linhas de feminismo que eu estava lendo e estudando sobre isso, mas que ela acha que isso é uma profissão como outra qualquer, que é lugar de uma mulher não como vítima, mas de uma mulher empoderada que escolhe o que quer fazer, e como quer ganhar dinheiro. O ponto de vista dela sobre esse trabalho que vai ser interessante. Eu ainda sei pouco, mas de cara eu vejo que ela se posiciona de uma maneira muito livre. É principalmente um olhar para esse assunto, com menos hipocrisia, com mais coragem de pensar sobre isso, de falar sobre isso, acho que pode ser bem interessante.”

Como foi o seu contato com essas meninas de uma forma geral? Com as prostitutas de luxo…

“Eu conheci, eu tenho contato com algumas pessoas, mas é muito vasto, porque não é só a prostituição de luxo, tem a prostituição que é a da exploração, o tráfico de órgãos, o tráfico infantil. É um assunto muito complexo, porque isso pode se dar de várias maneiras, eu ainda estou pensando e ouvindo tudo isso.”

Você se identifica com a personalidade dela?

“Ela tem uma autoconfiança, uma coragem que acho que eu não tenho. Eu até tenho uma determinação para conseguir as coisas que eu quero, mas a Rosa é impulsiva demais, às vezes ela poderia pensar duas vezes antes de falar alguma coisa e ela estoura sabe, ela fala, ela se coloca. Ela é uma personagem muito corajosa, muito forte, ela evoca essa imagem de Rosa Palmeirão, do Jorge Amado, ela tem uma coisa do arquétipo feminino de guerreira.”

E ela é assim dentro de casa mesmo?

“Também. Ela é assim em qualquer lugar, com ela não tem problema.”

A família acaba perdendo a casa e com esse dinheiro da prostituição, ela leva eles para viverem bem, mas ele (o pai) é turrão, vê ela junto com a Laureta…

“Essa parte eu nem recebi ainda, nem li ainda, não sei. Mas eu acho que em algum momento eles vão descobrir, imagino que seja isso. É o que a gente imagina.”

Ela vai ter uma relação dupla, ela vai se apaixonar por um e depois vai se apaixonar pelo meio irmão. Como é para você ser disputada pelos irmãos?

“É uma grande história, né? João Emanuel, é uma história que rende muito.”

Dizem que ela faz muito sucesso com os boys, quer dizer que não é só eles dois…

“Ela é uma mulher sensual, a Bahia tem disso, né? A pessoa estar muito livre, sem pudor, é um lugar quente, um estilo da Bahia, a cultura que a gente vê através das roupas, é uma coisa de muita sensualidade natural, que acho que vem uma coisa africana, de uma aceitação do corpo. Ela é muito segura, muito descolada, acho que isso é muito encantador, ela tem um temperamento que é muito encantador.”

Nesse processo, como está sendo a sua rotina? Em termos de exercício, de alimentação?

“Eu tenho comido muito melhor, eu tenho estado muito mais próxima de uma alimentação saudável, tenho cozinhado também, acho que tenho conhecido o poder dos alimentos, meu vocabulário alimentar melhorou muito e estou muito feliz por essa conquista. Eu acho que é uma conquista a gente conhecer mais os alimentos, eu nunca cozinhei e tenho tido vontade de cozinhar, eu me interessei pela comida, sabe? E malhação, eu tenho um personal maravilhoso que ele vai na minha casa das seis da manhã às dez da noite, eu estou malhando para caramba, de quatro a cinco vezes por semana, mas eu amo malhar, eu acho que eu sempre não coloquei isso como uma prioridade e agora como eu acho que a personagem tem que ser exuberante, bela, acho que isso virou uma coisa para mim, que eu coloquei muito na minha rotina e estou muito feliz porque eu amo malhar, estou me cuidado muito mais, é uma personagem que está fazendo eu me cuidar, então, eu estou entendendo água, de vitaminas, de exercícios físicos, entendendo o que faz você malhar isso e aquilo, exercício de cross fit, exercício funcional. É um vocabulário novo e eu me divirto muito compondo o personagem, eu acho que mudar me atrai muito, então, quando ele falou que era morena, eu estava com o cabelo loiro branco para fazer o cine hollywood, então eu falei: ‘Cara, vamos fazer, porque eu acho que tem mais a ver com essa personagem também, acho que nunca tive essa cor de cabelo’. Então, eu sou muito aberta, eu adoro, acho que uma das grandes partes da minha carreira é me ver com uma cara diferente.”

Qual foi a reação quando você se viu morena no espelho a primeira vez?

“Eu achei bem diferente. Eu imaginava como iria ficar, mas nunca é como você imagina. Eu passei uns dias tomando susto no espelho falando: ‘A sou eu’. Mas eu estou apaixonada, estou achando incrível ser morena, que é um novo mundo, porque as pessoas mudam.”

E você se vendo bronzeada?

“É bom, eu acho maravilhoso. Eu acho que essa coisa camaleão vale para tudo, de pensar na composição que vai desde a pele até a voz, porque é no corpo que o personagem acontece, então, acho que a composição, ela traz o personagem sim.”

Você está fazendo bronzeamento artificial? Como é que você vai manter o bronzeado oito meses?

“Segredo, segredo absoluto.”

O que na sua personagem despertou esse desejo de se cuidar?

“Eu estava contando a minha trajetória e quando eu fazia a Leopoldina, era uma personagem de época, que era uma personagem que usava enchimento, era muito diferente a minha relação com o meu corpo naquele momento. Você fazer atividade física todo dia, exige uma organização da sua vida e do seu tempo, que eu achava que não poderia, achava que era um luxo para a minha vida malhar, não era uma prioridade então eu fazia outras coisas. Agora como essa personagem desperta paixões, ela é uma personagem que tem uma pegada sensual, uma pegada baiana, eu acho que ela precisa ter uma coisa que seja esteticamente atraente. A verdade é essa, a personagem tem que ser uma coisa que você queira, deseja. Eu tenho uma equipe de médicos, meu personal maravilhoso, a gente falou: ‘Pô, vamos dar uma malhada legal, vamos dar uma secada’. Enfim!”

Foi uma dica daqui também, dos diretores?

“Não, zero. Eles nem nada. É porque quando a gente lê o personagem a gente tem uma imagem, né? E aí eu falei: ‘Cara, eu tenho que colocar isso na minha vida’, e virou parte da minha rotina para ela, porque cada personagem é uma coisa, a Leopoldina eu ficava lendo muito, fazia aula de piano, ela tinha essa energia, entende? Essa personagem da Rosa, ela é fogo, ela provoca as pessoas, ela tem uma opinião forte, ela não leva desaforo para casa e ela tem essa coisa que é muito baiana que é um corpo muito confiante, muito solto, muito livre, cheio de malemolência, de musicalidade e eu queria que meu corpo trouxesse um pouco dessa vibe, A atividade física foi muito para isso e é para isso, eu sinto que isso evoca em mim uma energia que tem a ver com ela.”

A Leopoldina foi um sucesso, você acha que foi um divisor de águas na sua carreira?

“Acho que foi.”

Como é que é fazer um personagem depois dela?

“Então, eu já fiz um outro que ainda não estreou, estreia em julho, é o Cine Holliúdy, que eu fiz a Marylin, que é uma série da Globo que se passa nos anos 70 e tal. É a vida, eu sou muito apaixonada pela Leopoldina, sou muito grata pelo meu encontro com o Vinícius Coimbra, diretor da novela, o Caio, acho que tudo que a gente viver naquela novela, de contar a história do Brasil, tem coisas muito ricas, mas essa é a vida, a gente tem que seguir, começar de novo e se desafiar. Todas as personagens para mim, elas atravessam minha vida, elas me deixam louca, elas me deixam sem dormir, elas mudam minha alimentação, minha cor, meu cabelo, meus pensamentos, meus sonhos, elas me atropelam.”

É um combustível maior ter feito um sucesso tão grande, é uma vontade assim: ‘Nossa, fiz tão bem e vou fazer de novo’ É um combustível para você?

“Eu acho que sempre tive esse combustível. Eu não penso assim não, isso poderia ficar pesado. Eu não acho que a vida é vertical, acho que a vida vai ramificando e expandindo. Uma coisa não necessariamente quer dizer que vai ser outra, que vai ser melhor ainda ou pior, eu prezo muito pelo meu trabalho, eu amo muito o que eu faço, eu tenho vinte anos de carreira, olha que louco.”

Você acha que a Leopoldina fez um reconhecimento por todos esses anos?

“Claro, é uma personagem muito carismática, tem uma história muito linda, o povo brasileiro ama ela e quem não conhecia, acho que pode também pela história, pela mulher que ela foi e ela era incrível. Os louros são dela, ela tem uma história de vida tão incrível.”

O povo adorou tanto a ponto de mudar o final.

“Mas acho que isso surgiu e virou uma verdade, a novela sempre iria terminar na coroação dele como imperador, então, eu fico feliz por ser um gesto de amor. Eu entendo isso. É o máximo, eu fiquei muito feliz.”

E aquela prosódia? Sair daquela prosódia super rebuscada e com um pezinho naquela coisa meio estrangeira e agora entrar numa prosódia baiana. Como é que foi?

“Super difícil. No meio do caminho a Marylin que eu estava falando, ela é paulista e eu sou paulista, então foi um lugar de conforto, de poder eu falar um pouco a minha língua materna, mas eu adoro composição. Essa vibe de mudar, isso é o que me faz feliz, mas assim, o sotaque baiano é um super desafio, né?”

Uma das coisas que as pessoas mais elogiavam na sua personagem da Leopoldina era o sotaque, né? E aí como vai ser o sotaque baiano?

“Rapaz, sei não viu? Bora vê. Olha, é difícil. O sotaque baiano é muito difícil, é muito mais difícil do que o sotaque austríaco por exemplo. Acho que porque é uma musicalidade, é uma coisa que a gente escuta muito e que ao mesmo tempo você acha que conhece, mas não conhece. A responsabilidade é maior porque a Bahia está aqui né? E a Áustria está lá, então a gente tem muita referência, tem muito artista baiano, muita gente baiana que a gente conhece e escuta, é fácil você ver quem está cometendo uma fraude.”

A sua personagem é malvada? 

Porque parece que o principal conflito vai ser em relação com a família e com a irmã.

“Por ela ter esse jeito explosivo e tal, o pai cobra muito que ela trabalhe, que ela pague as contas e passa muito a mão pela cabeça da outra irmã, sabe quando tem uma diferença na família? Então, é um pouco isso. Difícil de conviver.”

Teve alguma dificuldade na personagem nesse sentido na trama, algo que para você vai ser difícil de fazer?

“Família é um mundo, né? Você começa a pensar em relações familiares e descobrir essas relações. A gente se encontrou muito antes de começar a gravar a novela, foi demais, a galera ia na minha casa, Bonfim, Nanda e a gente ia na casa da Nanda para ler, conversar e cada um contava também suas histórias, então virou uma grande sessão de análise coletiva. É muito rico a relação humana e eles são uma família que eles estão passando por muita dificuldade financeira, eles estão morando num prédio que foi entregue às pressas, que não está pronto, que é cheio de vazamentos, de goteira, eles estão numa situação de muita dificuldade. As meninas têm dificuldade de conseguir emprego, a Rosa, tudo é muito brasileiro, é uma realidade que a gente conhece muito, as pessoas podem se identificar. E ao mesmo tempo tem essa dificuldade de manter essa sanidade, as relações vão se desgastando, acho que eles têm essa coisa de que quem cabeceia isso é o pai e diz coisas muito machistas e diz coisas muito pesadas para a mãe, lidar com isso tudo é delicado, então vamos mostrar um pouco isso. É uma família que está muito abalada, uma família que está com problemas, que está batalhando na vida, muito humano.”

Fazer uma personagem feminista desse jeito para você é bom? Você é feminista?

“Sou feminista, comecei a ler e estudar muito sobre isso e tem muitos tipos, né? Tem muitas linhas, mas eu acredito que sim, eu acho que tem que lutar pela igualdade dos direitos e do espaço para a mulher, mas eu não acho que a mulher é igual sabe? Acho que tem que lutar pelos direitos, mas a mulher não é igual ao homem, acho que é diferente mesmo e diferente não quero dizer que é mais ou menos, a gente tem dificuldade de entender isso, para mim também é difícil. Eu tenho pesquisado e lido muito sobre isso, porque é uma personagem que pensa muito sobre isso também, do jeito dela explosivo, mas eu acho que ainda não tenho respostas.”

Essa questão de ser uma família que está perdendo dinheiro, vocês vão falar sobre a crise brasileira atual?

“Eu acho que de qualquer maneira é, né? É a crise que se vive há muitos anos, a atual, a passada que se repete, esse que é o drama, porque a gente se repete nesses assuntos que são difíceis. Acho que é a figura desse brasileiro, batalhador, que é difícil, que é um pai que veio de uma educação mais retrógada, mais machista mesmo. São personagens muito humanos, acho que todo mundo vai se reconhecer. O João tem essa característica, a novela toda é cheia dessas relações, essa marca social diferente, acho que deu para ver o personagem do Fabricio que descobre que é filho, essa questão do social, da pobreza, dessa ascensão, o que as pessoas fazem para ganhar dinheiro, o que as pessoas com poder podem fazer, o bem ou o mal que elas podem causar.”

E como é fazer uma novela do João?

“Eu sou fã dele, fiquei muito feliz de estar nessa novela. Porque eu acho ele um dos grandes autores do nosso tempo e o texto dele, os personagens e as tramas que ele propõe, tudo muito complexo, as personagens são ambíguas, são contraditórias e isso é importante, porque ninguém quer ver uma coisa bom, bom ou mal, mal. É uma trama de reviravoltas, uma descoberta ao ler o capítulo, você lê e é uma reviravolta.”

Você lê as outras tramas ou fica só na sua?

“Eu gosto de ler as outras tramas, porque a novela é muito boa, eu gosto de ler o que é bom, né? Se é bom, a gente está lendo.”

Acho que é sua primeira novela na Globo que você vai ter mais essa pegada sensual, né?

“Isso, de sensualidade, de ser um personagem mais quente. É também uma coisa da Bahia, né? Acho que a Bahia emana uma coisa, que acho que vem da comida, vem da música, tem um afrodisíaco. A Bahia tem isso que a gente sentiu um pouco ali na novela. Eu quando li a Rosa, eu sentia ela borbulhando assim, ela é uma mulher que passa e as pessoas notam, ela tem uma relação com o corpo que é muito tranquila, é muito livre, que é uma afirmação da sensualidade, da naturalidade, isso é liberdade, você poder andar como o baiano anda.”

* Entrevista feita pelo jornalista André Romano