Ricardo Tozzi
Ricardo Tozzi (Divulgação/ TV Globo)

Depois de conquistar o público em A Lei do Amor (2016, Globo), Ricardo Tozzi voltará às novelas com um papel de coadjuvante em Orgulho e Paixão, nova produção das 18h, da Globo. Na trama, conta o ator em entrevista ao Observatório da Televisão, ele será Xavier, um personagem do mal que vai ter muitas ações, no mínimo, questionáveis.

Ainda no bate-papo, Tozzi releva como é a experiência de fazer um vilão e as dificuldades do figurino de época e pesado no calor da cidade do Rio de Janeiro, onde ficam os Estúdios Globo. Além disso, o galã se aprofunda em um dos temas centrais da novela, que é a luta contra o preconceito na busca pela igualdade. Confira.

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Como é o seu personagem?

Ele tem uma estrutura de vilão, não é um cara que eventualmente foi mal caráter não, o Xavier é ruim. E eu não sei de onde vem tanto ódio, a trama vai mostrar pra gente de onde vem tanto ódio. Ele quer destruir o pessoal de malvino, ele bota fogo no cafezal, ele é mal caráter, ele é o cara que se sente o dono da cidade. Ele é um cafeicultor rico, aí chega o personagem da Gabriela (Julieta), que é chamada de rainha do café, começa a comprar tudo e ele começa a ficar desesperado, da porrada, queima café… E aí nas corridas de moto, que ele é meio que o líder, por ser meio clandestinas na época, ele sabota todas, ele tenta derrubar o Malvino que é o coronel. Então, ele é ruim.

E de onde ele vem, dos livros da Jane?

Ele é colocado para fazer maldade, ele não vem exatamente de um livro.

Todo ator fala que fazer vilão é uma delícia, porque você pode liberar coisas que você não liberaria na vida real. Está sendo assim mesmo?

É bem engraçado, tem horas que você fala assim: “Mas espera aí gente, porque eu vou dar um murro nele?”. E aí te respondem: “Não, vai lá e dá um murro nele”. É bom, é interessante porque o vilão, eu acho que ele sempre tem um lado assim de uma inteligência, uma perspicaz, quase de humor. Ele tem uma visão diferente da vida e eu acho divertido, é bem legal de fazer.

E como está sendo trabalhar em uma novela dominada por mulheres, com o protagonismo feminino muito forte?

Isso é verdade. Eu acho sensacional, eu adoro o enredo todo, sou muito fã de Orgulho e Preconceito (um dos livros inspirados). Eu acho que tem uma coisa muito engraçada, porque essa novela tem um monte de mulher encalhada. Não encalhada, elas precisam casar e é muito louco porque em 1900 isso era uma questão em contraponto de hoje. As mulheres querem casar? Elas não querem casar? Tá tão diferente né?! Eu acho incrível, mas eu gosto daquela época porque tudo era muito mais simples, assim, tem que casar cria filhos e a vida estava pronta. Hoje em dia é tudo muito complexo.

E o figurino de época, como está sendo isso? Porque está calor, né?

Ricardo – Estaremos todos suados na tela, porque não tem o que fazer, é um suor que sai do cabelo e pula. É muito quente, são três camadas de veludo. Eu ando a cavalo, eu ando de moto, é puxado. Mas eu adoro fazer época, acho que época tem uma coisa muito lúdica, na verdade uma coisa mais simples, as pessoas tinham menos conhecimento do mundo, então menos ambição. A ambição era: “Eu quero aquela fazenda para mim”, era o máximo que você queria. Hoje em dia, você vê o mundo inteiro e fala: “Cara eu posso muita coisa”, naquela época a visão era mais limitada. Então era mais simples, mais agradável, mais gostoso.

Isso significa que seria melhor para você viver naquela época?

Eu devo ter vivido numa época antiga, eu acho. Sim, sim eu tenho um espirito meio velho, eu sou um cara meio à moda antiga, as vezes eu gosto da gentileza, gosto da calma. Eu acho que mais do que tudo a gente tinha tempo de olhar para dentro da gente, saber quem você era. Hoje em dia você recebe muita informação de fora, para assimilar tudo já é uma loucura, então ninguém te convidou lá para dentro e aí fica todo mundo muito perdido, meio carente. Então, eu acho esse mundo contemporâneo meio complicado.

Você falou sobre talvez eu tenha vivido assim numa época. Você acredita em reencarnação?

Acredito.

Você é espírita?

Não, não sou nada. Eu sou super espiritualizado, mas não tenho uma… Eu sou católico de formação, vou à missa, mas eu acredito em quase tudo.

Tem algum interesse romântico aí, algum casal?

Pelo que eu sei ele vai usar as artimanhas de vilão, ele vai conquistar as mulheres meio que no interesse. Eu acho que pode ter uma rixa antiga de paixão, mas isso não foi revelado ainda. Não tem um par romântico por enquanto, tem várias possibilidades.

Essa novela ela fala sobre orgulho, essa questão também do preconceito, mas eu queria saber como você encara isso hoje em dia, essa questão dos preconceitos que a gente vive, os preconceitos daquela época. Por exemplo a questão da mulher inferiorizada.

Eu acho que houve uma evolução obviamente muito grande e naquela época por muito tempo tudo permaneceu igual e hoje em dia tudo muda muito rápido. Não dá mais para a gente aguentar preconceito na medida que não faz o menor sentido. Naquela época era tudo muito pela tradição, as pessoas não tinham uma educação diferente, hoje em dia o mundo está exposto, está aberto, está visceral. Como que você vai justificar o preconceito? Qual é a base de um preconceito? Alguém é diferente de alguém? Alguém é melhor do que alguém? Para mim é inadmissível. Não vem me dizer que você tem preconceito, porque eu não consigo mais compreender isso.

Você falou uma frase muito interessante, o mundo está exposto, o mundo está visceral. Mas quanto mais exposto, principalmente aqui no Brasil a gente encontra muita restrição. Você acha que a sociedade deu uma encaretada?

Acho que em questão de algumas coisas religiosas. As pessoas estão procurando retroceder. Eu não acho que encaretou, eu acho que as pessoas têm seus medos de acionarem suas questões interiores, então elas preferem negar, falar: “Não, eu sou dos bons costumes”, e talvez não investiguem para dentro delas, porque que bate errado essas coisas. Eu realmente sou um mente aberta, sou um artista e não consigo entender mais porque uma pessoa pode se julgar diferente de outras. Mas eu infelizmente acho que em função de alguns movimentos religiosos, está sendo doutrinado algumas coisas caretas e acredito que pode ser um retrocesso.

Nessa novela vocês estão falando sobre crise do café, trazendo uma literatura inglesa. Eu queria saber a importância de voltar a essas coisas, que são conhecidas pela nossa sociedade, mostrar isso a pessoas que muitas vezes não tenha acesso a uma educação tão boa aqui no Brasil, que tenha acesso a literatura inglesa ou que saibam sobre a crise do café.

O papel de uma novela também é informar, instruir e é cultura. As pessoas criticam muito novela, falam que é uma camada superficial, não é! Você colocando uma novela dessa no ar, você tem uma pesquisa absurda e vai ser tudo como era na realidade. Então eu acho que é uma forma de educar o nosso país, é uma forma de mostrar de onde a gente veio, da onde vieram nossas questões. Porque muitas pessoas estão hoje por aí e ninguém sabe de onde veio, de onde vieram os Italianos, como é que foi a abolição dos escravos, como é que começou o mercado novo de café, como é que o Brasil foi um grande país cafeicultor. Entender sobre a nossa origem, entender sobre a gente, eu acho isso fenomenal.

É uma aula de história.

Sem dúvidas, é uma aula de história. É importante saber o caminho das coisas.

Os jovens hoje também não se interessam em ler livros.

O jovem hoje recebe muita coisa, muita coisa por toda a internet, por todas as redes. Se especializar, se aprofundar é muito complicado e quase não dá tempo para isso, não está mais na moda. Então é legal a gente colocar no ar algo com a história do Brasil.

Essa novela tem coronéis, que é uma realidade que não é tão distante do Brasil. Queria que você falasse um pouco sobre.

Eu estive há 3 anos no interior de um estado que eu não vou dizer qual é, um pouco distante daqui, fazendo um trabalho. Um desfile em uma loja e o proprietário da loja me buscou no aeroporto com um carrão… Interior do interior, lá para cima do Norte. Ele me disse: “Aqui não tem problema nenhum.”, eu falei: “Não?”, ele respondeu: “Não! Aqui a gente resolve tudo. Aqui a gente mata doentinho”, e aí eu parei e pensei: “O que pode ser mata doentinho? Será que eles matam os doentes no hospital para resolver os problemas? E aí eu falei, mata doentinho é o que?”, ele respondeu assim: “Os viadinhos. Aqui nasceu viadinho a gente mata.” Se eu pudesse eu falava: “Você pode parar o carro? Porque eu quero pegar um helicóptero e sumir daqui!”. Gente, é um coronel. Mata! O cara nasceu gay, morre. Gente, há 3 anos. Por isso eu falo, o Brasil é muito grande e tem muita diversidade cultural, social. Tem muito coronel por aí! Então não adianta achar que isso tá bonito porque não tá. O cara me disse que matava os viado da cidade, porque nasceu viado. Então cadê a liberdade do ser humano? A existência do ser humano? É complicado.

* Entrevista feita pelo jornalista André Romano

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