Vera Holtz
Vera Holtz (Divulgação/ TV Globo)

Reconhecida por grandes trabalhos na televisão brasileira e, mais recentemente, pela vilã Magnólia, de A Lei do Amor (2016, Globo), Vera Holtz volta às novelas em Orgulho e Paixão, a próxima das 18h. Na trama, ela dará vida à Dona Ofélia Benedito que tem como objetivo de vida casar suas filhas com homens de posse.

Em entrevista ao Observatório da Televisão, Holtz conta sobre a sensação de voltar a contracenar com Tato Gabus Mendes, como no início de sua carreira; explica que a personagem vai ter leveza mesmo quando estiver brava e, ainda, fala sobre a importância de uma novela protagonizada por mulheres.

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Ainda durante o bate-papo, ela releva detalhes da composição da personagem, como o sotaque – que ela buscar com seus parentes no interior -, como lida com o tema maternidade e a relação com os seus seguidores nas mídias sociais. Confira.

Nos conta sobre a Ofélia, sua personagem em Orgulho e Paixão, essa matriarca que parece tão à frente do tempo dela?

“Até que a Dona Ofélia Benedito é uma mulher do tempo dela, a Elisabeta (Nathália Dill) que é a mais espevitada das filhas dela, é quem tem uma expectativa de quebra de padrão, quer morar em São Paulo, sozinha e acha que pode se sustentar com seu trabalho. A Dona Ofélia é uma mulher cujo único objetivo nesta fase da vida é casar as filhas com homens solteiros e de preferência com posses. A preocupação dela é terrível nesse sentido porque as filhas foram preparadas para isso. Elas sabem cozinhar, bordar, tocar piano. Aquela é uma casa alegre porque a Ofélia é alegre e está sempre procurando coisas para fazer, inclusive esses enxovais todos. Ela é mais engraçada, e tem um sotaque mais carregado do interior de São Paulo, que é algo que eu trago com bastante dificuldade (risos). O Marcos Bernstein (autor da novela) escreveu várias falas com um R cheio de sotaque, e falei para ele que vou usar como base minha galeria de primos do interior de São Paulo e vai vir todo mundo encarnar em mim para fazer esta personagem.”

Como foi o seu encontro com o Tato Gabus Mendes em cena?

“Para mim, o Tato tem uma coisa mais que especial, porque estreei na Rede Globo, fazendo a Fanny de Que Rei Sou Eu?, ao lado do Antônio Abujamra e o Tato Gabus Mendes era o Pichot, príncipe que estava sendo preparado para ocupar o lugar da mãe, e a minha personagem era apaixonada por esse homem, mas muito tímida. O primeiro beijo que fiz na televisão foi com o Tato, fui dirigida pelo Jorge Fernando na cena e eu morria de vergonha de beijar, porque não entendia desse universo. Ele muito delicado, pacientemente esperou para dar o beijo e saiu todo sem graça. 30 anos, depois o reencontro aqui, e foi lindo. Primeiro a constatação do tempo.”

E como é a sua relação com esse elenco jovem, com as cinco moças que fazem suas filhas?

“Sensacional, são diferentes umas das outras, mas a dinâmica do dia a dia gravando com as 5 meninas, com aqueles figurinos, é muito interessante. O que elas trazem também é ótimo, o que pensam, esperam, e esse frescor, que além de serem lindas, têm um temperamento muito especial, e nos deu muita energia. Nosso corpo artístico ficou com uma química ótima, inspirado, porque está todo mundo alinhado para fazer essa novela dar certo.”

Como é protagonizar uma trama em que as mulheres estão no foco já que elas estão cada vez mais lutando pelos seus direitos?

“Maravilhoso. Vou te falar uma frase que estava no roteiro, no primeiro dia que fui gravar que era: “Todo homem solteiro de posses, tem que estar precisado de uma esposa”. Quando fui gravar essa cena, eu tive uma visão, sei que estou fazendo uma novela, que todo mundo já leu esse livro, que a personagem principal vai viajar por muitos países, e foi um momento de comunhão com a dimensão de uma obra que é uma telenovela brasileira, e até onde ela alcança. Fico muito feliz de poder representar e poder ter um conhecimento dessa época, em que as mulheres estavam começando os movimentos, com expectativa feminina em relação ao trabalho. Acho interessante a reflexão vertical sobre os movimentos de conquista feminina, e o que cada geração esperou e espera em termos de mudança.”

Você usa muito as redes sociais. Como você enxerga de usar esse meio para se manifestar sobre o mundo à sua volta?

“O Facebook e o Instagram para mim, foram um momento de encontro com a Vera que fez artes plásticas e não conseguia se comunicar através das artes.  Eu fiz música, mas não compunha, o teatro foi minha grande epifania, porque percebi que aquele era meu destino. Quando descobri essas plataformas para me comunicar com as pessoas percebi que a Vera que gosta muito de artes plásticas, começou a aparecer e começou a se refinar. Entendi o que eu queria, e uso aquele espaço para me comunicar. Eu sinto antes do fato acontecer, e algumas realmente sou estimulada, a comentar. Como não sei usar as palavras como vocês jornalistas sabem usar, a imagem para mim é uma grande forma de comunicação para comentar os fatos sociais, é simbólica.”

A Ofélia vai ter aquele quê de mãe chata, que domina as filhas?

“A Ofélia inventa estratégias para que as meninas consigam esses casamentos, e as meninas não sabem, mas a mãe está sempre por trás de tudo. E ela se acha o máximo criando essas coisas e empurrando as filhas para os pretendentes. Ela por exemplo manda uma das filhas na chuva para a casa do pretendente, para ela ficar doente, e poder permanecer na casa à noite, ou por alguns dias e com a convivência o rapaz se apaixonar por ela. E ela acha o máximo conseguir fazer aquilo. Ela acha que se não ajudar as filhas, elas vão acabar solteiras na soleira da porta da casa dela. A Elisabeta não obedece e não quer saber de casamento, tem um sonho de deixar o vale do café, e ela acha se desespera por crer que a filha vá ficar sozinha.”

Ela é uma mulher que chega a brigar com as filhas?

“A Ofélia não chega nessa região de brigas, porque o temperamento dela é mais vibrante, e não vou leva-la para essa região de embate. Ela sempre brinca com as situações mesmo estando brava.”

O que você acha do casamento nos dias atuais?

“Casamento é uma plataforma para você viver sua vida, uma escolha seríssima, porque cada vez mais as gerações estão com muita dificuldade em dividir. As pessoas casaram-se com seus telefones, um grande parceiro que te traz o mundo nas mãos. Por que criar essa expectativa com outro? Sou a favor do casamento para quem quer casar.”

Você acha que ele é indispensável?

“Nunca foi. Mesmo entre as pessoas que foram induzidas ao casamento na minha geração, já existia a opção do divórcio. É uma escolha muito importante, principalmente para quem quer criar uma família junto, e ainda assim já se percebeu hoje que para criar família não precisa casar. É um lindo tempo de espera chegar ao fim ao lado de um parceiro que você escolheu para chegar ao fim da vida com você.”

Na novela a Ofélia tem 5 filhas. Como é a maternidade para você?

“Não é um tema que posso falar porque nunca fui mãe. A Ofélia tem 5 filhas, mas ela queria ter as 5. Acho que deve ter uma vida sexual ativa com o marido, porque não é possível né (risos). Acredito eu que ela seja bastante fogosa com o marido que é um intelectual, e acho que essa vibração da Ofélia faz esse atrito funcionar muito bem. Eu Vera, não tive filhos por escolha, sempre trabalhei desde cedinho e sempre me dediquei ao meu trabalho. Com 12 anos, eu já sabia que não queria ter filhos.”

Você se identifica com esse universo da Ofélia?

“Totalmente. Em minha casa tinham 4 mulheres, e convivemos na alegria de uma casa com 4 mulheres. O colorido das roupas, os namoros, a primeira menstruação, as temperanças, cólicas, a dificuldade para conseguir entrar numa universidade, uma roubava a roupa da outra… Na minha época, 2 anos de diferença era uma distância geracional absurda. Se eu tinha 12, e a outra 14, era outra geração, tudo diferente. O piano por exemplo, todas nós aprendemos piano porque sempre ficava tocando ao fundo e isso sempre existiu na minha vida tanto que pedi ao nosso diretor que deixasse o piano tocando no fundo das cenas.”

Como você enxerga esse descaso que tem acontecido com as artes?

“A classe está se reunindo para debater  o que está acontecendo, desde a ausência do incentivo financeiro, até o tipo de público que vai ao teatro hoje. Qual tipo de trabalho temos que fazer, e como dar continuidade a essa arte tão importante como expressão para todo mundo. Me falaram que até a parte de arte, não existe mas no currículo escolar ou parece que é opcional. Se você não prepara o aluno para aprender, ele não aprende nunca mais. É mais difícil formar uma pessoa para ir ao teatro com 40 anos pela primeira vez, o que seria diferente se ela tivesse ido com 6, desde pequena. A gente não gosta do que a gente não entende, ou aprende, e aprender mais velho é muito difícil. Chegar e respeitar o processo criativo, o artista, um quadro, é uma forma de expressão artística do ser humano.”

A Ofélia terá um pouco de comédia não, é? É diferente?

“A Ofélia está numa outra vibe se comparada a outras personagens que fiz, eu nem quero usar essas regiões mais graves e profundas, ela trabalha mais na tragicomédia. A Magnólia de A Lei do Amor era diferente, uma bandida. A Ofélia é trapalhona, lúdica. Ele vê o casamento como um bem para as filhas. Quando a Elisabeta vai embora, para ela é uma traição, porque acha que a menina está confrontando a autoridade dela por não querer casar.”

E o pai fica contra a Elisabeta?

“O pai apoia a Elisabeta em tudo, e a Ofélia fica brava com ela porque ele prefere a Elisabeta, mas a Ofélia tem xodó pela Lídia (Bruna Griphão), filha que ainda dará muito trabalho para ela.”

Consegue vislumbrar como seria se tivesse se casado?

“Eu nunca quis casar, então minha criação nunca passou por essas coisas. Nunca usei o imaginário para criar esse tema na minha vida. Sempre digo que me casei com meu trabalho.”

É difícil para você entrar no mundo da Ofélia?

“Não, porque minha mãe era essa Ofélia, que bordava, cozinhava. Era do interior, teve 14 irmãos. Como o pai dela ficou cego, ela foi a única a ficar ao lado dele e não estudou. Fez apenas o primário e virou uma grande dona de casa.”

Você é considerada nas redes sociais uma referência de feminismo, e sororidade. Como é isso para você?

“É uma surpresa incialmente, porque nunca tinha entrado na rede social até algum tempo atrás, porque não sabia o que eu queria postar. Depois que eu temi o que queria postar, e descobri que é uma responsabilidade.”

Você recebe mensagens de elogios na internet?

“Várias. Já até me mandaram coisas como: ‘Assumi meu cabelo branco por sua causa’. Fico honrada.”

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano.

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