Gabriela Duarte
Gabriela Duarte (Divulgação/ TV Globo)

Reconhecida internacionalmente pelo papel de Maria Eduarda, em Por Amor (1997, Globo), Gabriela Duarte está de volta à televisão para uma importante personagem de Orgulho e Paixão, nova novela das 18h. Na trama, ela fará a Julieta, dona de um império de café, na década de 10 do século passado.

Em entrevista ao Observatório da Televisão, ela revelou que a personagem não vai ser uma vilã, mas que tratá consigo todo o seu sofrimento do passado. Ela se casou com um homem mais velho e sofreu muito. Duarte conta ainda que a fortuna da personagem foi conseguida pela própria, mas os outros vão pensar que é uma herança.

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Ainda durante o bate-papo, a atriz explica um pouco sobre como enxerga o feminismo e fala da sociedade atual. Mãe de Manuela, de 11 anos, e Frederico, de 6, ela fala um pouco de como é criar duas crianças no mundo atual, com muitas mudanças e movimentos ideológicos, inclusive, contra o machismo.

Sua personagem é uma grande vilã? Ela passou por um problema no passado, né?

“Julieta esbarra na vilania, mas não chega a ser uma vilã… É que ela tem atitudes muito duras e radicais. Mas a justificativa é que ela foi maltratada pela vida, a vida deixou mais endurecida. Ela passou por um casamento não acordado, era de conveniência, com um homem muito mais velho que ela. Ela foi mãe muito cedo, vítima, provavelmente, de um estupro, uma coisa bem pesada. Você vê que a minha idade e a do Maurício Destri, são próximas, isso quer dizer que ela foi mãe muito jovem. Isso gerou um comportamento nela. Casada com um homem muito agressivo, ela provavelmente sofreu assédio moral, abuso, e isso tornou ela essa mulher dura.”

Você está longe das novelas, né? Sentiu falta dos folhetins?

“Eu fiz uma participação rápida em ‘A Lei do Amor’, há dois anos, e fui morar em Nova York. Meu marido teve uma oportunidade profissional interessante lá. Foi uma decisão familiar, viver uma coisa diferente, nova. Foi muito bom, missão cumprida totalmente. O tempo que eu fiquei lá, fiz muitos cursos, mas não trabalhei. Meu trabalho é aqui. Eu estava com saudade de fazer novelas. Eu gosto, é um desafio.”

Sua mãe está atualmente em ‘Tempo de Amar’. Ela vai passar o bastão para você, né?

“Pra mim, passar bastão é com todo mundo, de uma equipe pra outra. Mas o fato de a minha mãe estar terminando agora um trabalho às seis, e eu começar esse. Não deixa de ser bem chato, porque durante um tempo a gente pôde conviver aqui no Rio, enquanto as duas estavam gravando. Agora ela vai voltar pra São Paulo e eu, continuar aqui. É triste, mas é a vida. Eu sempre estive radicada em São Paulo, no Rio eu morei por períodos de no máximo 5 anos. Na época em que eu era adolescente, da novela ‘Top model’, eu morava aqui e estudava.”

Você gosta de café?

“Adoro café. Ela é a Rainha do Café. Julieta é um café expresso, intenso, forte. Nível de acidez bem alto.”

A personagem tem algo em comum com você? Quais foram as suas inspirações para criar essa mulher?

“Julieta tem uma personalidade diferente da minha. Eu tive que buscar caminhos para entendê-la. Sempre que você faz um trabalho de época, existe uma coisa interessante nesse mergulho na época, nos costumes. Eu adoro! Eu sou estudiosa. Eu acho que a minha profissão me ajuda a entender os aspectos da humanidade. Quando eu fiz ‘Chiquinha Gonzaga’, eu fui entender aquela época, aprender a tocar piano. Claro que não virei uma pianista, mas fui entender o fundamento, precisava ter uma familiaridade com aquilo. Esse lado antropológico da capacidade que a gente tem de se transmutar em tantas coisas, isso me encanta.”

É uma mulher a frente do tempo dela?

“A Julieta é de 1910, essa época do apogeu do café… Uma mulher de uma força enorme pra brigar contra o patriarcado na sua época mais agressiva. Imagina em 1910, uma mulher de negócios que constrói um império sozinha. Todo mundo acha que ela herdou tudo do marido, não é verdade. Ela vai deixando claro desde o início. Ela tem essa fama de herdeira, mas não é. Ela é a pessoa que levantou aquilo tudo. E ela tem muito orgulho disso. Eu acho um papel inspirador.”

Acaba surgindo uma dupla de vilania, né?

“Julieta é o crânio dos planos e a Suzana (Alessandra Negrini) executa. Elas fazem uma dupla explosiva, porque não medem esforços para conseguirem o que querem.”

Você se considera uma mulher feminista?

“O mundo muda numa rapidez muito grande. E essa questão do feminismo sempre ficou meio na superfície, nunca se aprofundou como está acontecendo hoje. Eu tenho uma filha mulher e um filho homem (Manuela de 11 anos e Frederico de 6), são dois desafios enormes. Como criar uma mulher no mundo de hoje, pra ter a força necessária, mas também ter a lucidez. E um homem? Eu sou como toda mãe, quero o melhor para os meus filhos, busco esse conhecimento a todo tempo. É muito diálogo, muita abertura… Mas essa abertura também tem uma medida. Não é fácil. Talvez a grande dificuldade do ser humano seja criar outro ser humano. Eu acredito muito nessa geração nova, que está vindo. A gente ficou no meio do caminho, entre o patriarcal e o livre, batendo cabeça, tentando entender. Essa nova geração vem com uma cabeça mais aberta, com mais segurança no mundo atual. Depende da estrutura que a gente vai dar pra eles.”

Gabriela Duarte como Julieta Bittencourt em Orgulho e Paixão
Gabriela Duarte como Julieta Bittencourt em Orgulho e Paixão (Divulgação)

Qual o maior ensinamento que sua mãe passou para você?

“O maior ensinamento que minha mãe me passou e que eu retransmito a meus filhos é o pé no chão. Simplicidade. Não importa o que você é, quem você é. Somos todos seres em transição. Uma hora a gente está aqui, outra lá. Uma hora está vivo, em outra não mais. Esse senso de transição dá pra gente uma simplicidade, uma coisa menos megalomaníaca da vida. Estamos todos de passagem. Isso faz um resumo interessante de uma existência menos apegada. Mais leve, menos agressiva.”

Como você com a distância em relação aos seus filhos?

“Com filhos mais crescidos, eles já entendem porque estou no Rio, longe. A gente se fala, eles sabem o que estou fazendo. Existe uma maturidade psicológica deles agora, fico mais tranquila. Tecnologia ajuda a matar a saudade.”

Como foi o convite para deixar os Estados Unidos?

“Só o convite pra fazer a novela já me faria voltar pro Brasil. Quando eu conheci a Julieta, fiquei mais encantada ainda. Essa personagem é tão diferente de tudo o que eu já fiz! Esse realmente é um desafio! Ela fisicamente não tem nada a ver comigo. A alma dela é mais pesada, a personalidade… O cabelo, a voz. Estou amando!”

Você pensa em voltar?

“Eu sempre soube que nos EUA teria inicio, meio e fim. Eu vivi, não fiquei pensando no que me fazia falta. Minha família estava próxima. Eu vim com bastante frequência pro Brasil, minha mãe ia pra lá sempre. Acostumaram a falar inglês e na volta, português. Pegaram rápido.”

Foi uma grande experiência viver fora?

“Sempre fiz tudo o que eu quis, nunca deixei de fazer nada por ser atriz, conhecida. Isso faz parte da minha ideologia. Não sou diferente de ninguém, não quero ser, não vou me privar. Realmente, você morar num lugar que ninguém te conhece é uma experiência interessante. Porque eu cresci sob os holofotes. Em NY, eu era muito reconhecida pelos russos e pelos dominicanos, por causa de ‘Por Amor’.”

Essa novela retrata grandes mulheres, né?

“Novela fala muito da luta da mulher pelo espaço, pela igualdade. Eu acho inspirador. A Julieta, tirando toda essa casca, pode ser inspiração. Porque ela busca o que quer de forma honesta, ela não faz o trabalho mais complicado. Os ideais dela são honestos. espero que essa novela seja uma inspiração pra novela. Susana só mostra os resultados, mas ela não quer saber de que modo ela executa as ordens que ela dá. É um jogo de interesses. Na época, uma viúva precisava de uma dama de companhia. Elas fizeram do limão uma limonada. O humor vai pro sarcástico. Ela não tem frescura. O grande obstáculo da vida dela é o amor pelo Aurélio.”

Você está preparada para criar uma filha em um mundo ainda muito machista?

 “Eu nunca me senti inferiorizada por ser mulher, à sombra do machismo. Eu estou atenta pra criar uma menina pra ser segura, dona de si, que saiba buscar as coisas sem perder a ternura. E o homem que se insira no contexto democrático.”

Você está muito parecida com sua mãe…

“Eu não consigo me ver tão parecida com a minha mãe, muitos me dizem isso. Acho que a gente está achando um equilíbrio: ela está muito conservada pra idade dela, e eu estou atingindo uma maturidade. Eu não sou mais a menina, e ela é jovial.”

Sua personagem é forte, né?

“Mulher forte, poderosa pra época, cheia de conquistas por seu próprio esforço, num mundo masculino, onde as mulheres tinham pouca voz e pouca vez. Ela trata o filho com mãos de ferro. Ela tem uma expectativa de que ele seja a continuação dela nos negócios. Ela tá me ensinando a ter um senso de autoridade que eu acho saudável. Não dá pra ser austera, mas também não pode ser mole, filho é filho. Ela me ensina a ter pulso forte. Eu sou uma mãe muito legal, muitas vezes.”

Seu filho na trama é um adulto, né?

“Eu sou mãe de um adulto pela primeira vez. Existem pessoas que mesmo jovens têm essa característica da alma dura, amargurada, e vai existir um contraponto quando ela se apaixonar, quando a alma vai encontrar a idade dela. As pessoas mudam o mundo com o amor.”

Você se inspira em sua mãe…

“É óbvio que minha mãe é uma inspiração pra mim, com tanto pique. Mas pode ser que amanhã eu mude. Eu não me vejo tão longe.”

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano.