Gabriela Fortes (Camila Morgado) em Malhação: Vidas Brasileiras
Gabriela Fortes (Camila Morgado) em Malhação: Vidas Brasileiras

Considerada uma das mais importantes atrizes da Globo, na faixa dos 40 anos, Camila Morgado ganhou sua primeira grande protagonista desde A Casa das Sete Mulheres, em 2003. A atriz vai interpretar a professora Gabriela de Malhação: Vidas Brasileiras, que estreia na próxima terça-feira (6).

Em entrevista ao Observatório da Televisão, a artista revelou características da nova personagem, que terá missão de atender às expectativas da família e dos alunos. Além disso, ela dá detalhes da preparação, fala do mundo atual e, também, o que passou pela cabeça quando recebeu o convite para o papel principal.

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As mulheres estão cada vez mais fortes na dramaturgia. Como é interpretar essa mulher que às vezes abdica da própria vida para ajudar os outros?

A Gabriela faz esse papel. Ela tem uma família linda, três filhos, se divide entre a casa dela e a escola em que trabalha, e tem muito amor por tudo isso, porque faz parte da vida dela. E eu assim como outras amigas mulheres podemos dizer que a ficção não mente, afinal estamos sempre divididas entre família e trabalho, sempre com pouco tempo. Estou muito contente de fazer um papel como esse, porque ela fala sobre educação inclusiva, um tema muito importante para ser tratado em nosso país. Outra coisa que acho interessante é ela falar com esse público jovem, uma experiência nova para mim. Eu já tinha feito alguns filmes com essa temática, mas não com o alcance de uma novela tão longa. Estou aprendendo ainda como vou conseguir fazer tantos capítulos.

Serão 17 histórias dos jovens da temporada. Como está sendo trabalhar com esse elenco?

Lindo, maravilhoso. Eles têm uma energia e me trazem um enorme frescor durante as gravações. Muitos deles já atuaram em peças e filmes, mas a televisão tem um público muito grande, vejo que eles estão ansiosos, querem que tudo dê certo, porque o projeto está lindo. É bom para mim fazer um trabalho para esse público que desconheço, porque os atores vão me ensinar muitas coisas. O jovem de hoje é muito mais atuante nas redes sociais e já pensamos como trabalhar isso também.

A Gabriela está ali para fazer o papel dela dentro da sala de aula, e acaba os ajudando fora dela não é?

A Gabriela é uma professora voltada para o outro, pensa mais no outro do que nela mesma. Ela é assim com os alunos e com a família. Tem uma coisa muito diferente na personagem que ela não está só na escola, ela rompe esse muro e vai até onde o adolescente está para entender o que está acontecendo com ele, o meio em que ele vive, e como a vivência dele o está influenciando dentro da sala de aula.

Você acha que ela chega a invadir e passar dos limites nessa questão?

A Gabriela não tem muitos limites, é um ser completamente falível, erra muito, mas tenta se modificar, e entender o que está acontecendo com aquele aluno e vai descobrindo esses limites. O professor hoje em dia lida com muita coisa, tem uma posição muito complicada, porque ele ora é professor, ora um agente social. É um aprendizado para ele entender até onde pode ir.

Você chegou a pesquisar as histórias dessas professoras que lutam pelos alunos? Muitas delas até sofrem violência…

Durante a preparação, a Globo fez um dia de encontro entre o elenco e algumas professoras convidadas para palestrar, e aquilo foi muito importante para mim. Percebi que é uma característica do professor entender aquele aluno não só como aluno, mas como indivíduo. Me chamou a atenção o discurso de uma professora que disse que vai até o banheiro ver o que os alunos estão escrevendo nas paredes, porque como ela conhece a caligrafia de cada um, ela sabe quem escreve o quê, e passa a entender o que eles estão passando.

E houve outro tipo de preparação?

Conversei com várias professoras, que tinham essa característica de agregar. Não sou professora, só estou tentando parecer uma. É uma profissão tão admirável, tão mal remunerada e peço licença a essas profissionais para representar uma professora.

Percebemos que na caracterização da Gabriela não tem muita maquiagem, não tem cabelão, nada disso. Como foi essa mudança para você?

Isso faz parte. Eu não sei de quem veio a ideia, creio que tenha sido da nossa diretora, mas eu adorei. Queríamos que a Gabriela fosse uma pessoa que pudéssemos encontrar na rua por exemplo. E uma professora é assim, às vezes não tem tempo de ir ao salão e se arrumar muito, porque vive para o trabalho dela.

Não bateu um medo devido à vaidade?

Não. Achei maravilhoso, porque estou interpretando uma mulher que vive para os alunos e para a família e com essa caracterização chegamos perto da realidade.

Geralmente em cena, o ator vive diversas emoções como euforia, alegria, tristeza, mas o corpo não sabe que ele está interpretando. Como você se prepara para isso?

Acho que o ator tem vocação e já prepara seu corpo todos os dias. Fico realmente muito cansada pela rotina intensa, porque é uma protagonista que tem inúmeras cenas. Chego na Globo às 8 da manhã e saio às 8 da noite, chego em casa e ainda vou decorar textos, então procuro me alimentar bem para não ficar doente, e me exercito justamente para meu corpo entender que preciso trabalhar, mas isso já faz parte da vida do ator, não tem moleza.

Como você era na época da escola?

Muito tímida. Eu não era aquela pessoa que se colocava muito, era bem reservada. Outro dia até reencontrei uma amiga da época de escola e ela disse: “Nunca imaginava que você seria atriz”, porque eu era a mais quietinha e envergonhada da turma.

Saiu uma nota sobre você no jornal Extra, sobre ter se recusado a trabalhar com a youtuber Bianca Andrade…

Essa nota é falsa, acho que já deu para perceber. Acho que se a pessoa é escolhida a exercer uma função, ela está apta para aquilo. Quem sou eu para falar alguma coisa? Achei estranho porque quando me falaram sobre a nota, e fui verificar, eu percebi que não conhecia a moça, e ela nunca fez parte das oficinas da casa, nem do processo de seleção de elenco. Não sei de onde partiu essa notícia falsa. O que fiquei chateada é que quando desmentiram a nota, colocaram a informação lá no final, mas a chamada não mudou. Isso é chato porque acabam me colocando de uma forma que não condiz com minha atitude. Inclusive acho estranho alguém dar uma notícia sobre mim sem me consultar. Não sei que jornalismo é esse.

Carmo Dalla Vecchia, Camila Morgado e Felipe Rocha
Carmo Dalla Vecchia, Camila Morgado e Felipe Rocha (Divulgação/ TV Globo)

A Gabriela tem um quê de cômico não tem?

Tem. Foi uma coisa que pedi à diretora, para trazermos essa leveza para a personagem. Ela fala de assuntos tão sérios, tem ideologia dela e para não ficar tudo muito sério e pesado, pensei em deixar ela leve com os alunos, família, e com esse amor do passado que é o Rafael (Carmo Dalla Vecchia). Ela é uma professora um pouco atrapalhada, e é uma característica boa porque sempre acho que pelo humor, a gente consegue conquistar mais.

Sobre os assuntos polêmicos, a novela vai tratar de várias coisas até mesmo as mais recentes, como nudes…

A internet é uma coisa complicada, porque tudo se multiplica em segundos, e eu mesma vivi isso com essa notícia fake que saiu sobre mim. O negócio se replicou de uma maneira que fiquei em choque. Temos que tomar muito cuidado com o que colocamos na rede hoje em dia.

Qual sua relação com a internet e redes sociais?

Não tenho, mas é por opção. Eu não entendo muito, acho que por ser uma coisa recente ainda estamos aprendendo, ainda vamos errar e acertar muito. As redes fazem parte da vida dos jovens, os meninos do elenco me mostram as coisas e dizem “Ai Camila, como você não conhece isso?”. Eu acho que vou abrir um Instagram porque o mundo virou isso, não tem mais jeito de voltar atrás. Todo mundo já me mostrou e comprovou que virou isso, até para trabalhar é bacana. Eu não tenho nenhuma rede muito pela falta de tempo, porque isso consome nosso tempo, e por privacidade também porque pode nos invadir muito, e sou super reservada. Eles (elenco) falam que para começar o Instagram é o melhor.

Pelo que já foi divulgado, o casamento da Gabriela com o Paulo, personagem do Felipe Rocha, é bem divertido, não é?

Eles têm um casamento muito legal, e são muito animados. O relacionamento deles é divertido, leve. O Paulo é uma pessoa que não consegue dividir a Gabriela, e a quer em todos os momentos só para ele. Ele vai ter que aprender a lidar com a rotina apertada dela, e com o ciúme que ele sente do Rafael, que é um antigo amor do passado da personagem, que por coincidência é o diretor na ONG com a qual ela estabelece parceria. Ainda não sei muita coisa, mas isso vai mexer bastante na relação familiar dela. Estou curiosa, mas não sei onde isso vai chegar, afinal são 300 capítulos e li apenas até o 29.

A Gabriela tem 3 filhos. Como você enxerga a maternidade em sua vida?

Sou bem sossegada. Nunca tive essa vontade de louca de ser mãe. Para mim nunca bateu como já bateu em várias amigas.

A Gabriela se sente culpada por às vezes dar mais atenção aos alunos que aos filhos?

Eu acho que ela fica dividida entre família e escola, porque são todos de certa maneira alunos dela. O professor tem um peso grande na nossa vida, não são nossos pais, mas nos educam e ela é meio que mãe de todos, tem essa vocação. A Gabriela fica dividida entre esses espaços. Ela é bem esse tipo de mulher moderna.

Quando a Globo te ofereceu esse projeto bateu um frio na barriga?

Sempre bate, porque não é uma personagem fácil de se fazer. Trabalhar com o público jovem é uma coisa nova para mim e este foi como todos os convites, não são agradáveis na hora que você recebe. Sempre penso: “Meu Deus, será que vou conseguir?”, espero que as pessoas gostem, vou tentar fazer o melhor que posso.

Você está sempre interpretando grandes mulheres, não é? Como a Manoela de A Casa das Sete Mulheres, ou mesmo a Olga nos cinemas.

Sim. Um papel é sempre grande o que muda é como você enxerga e como vai fazer. Todos os papéis são bons, mas Olga realmente foi muito forte porque fez parte da nossa história, tem tanta característica, e é difícil esquecê-la. Os meus alunos aqui na novela assistiram na escola, porque virou matéria de escola, então é muito bonito passar por isso e fico contente. Já A Casa das Sete Mulheres, muitos deles estavam nascendo e não tiveram oportunidade de assistir. A Jeniffer Oliveira que interpreta minha filha tem atualmente 19 anos, ela tinha 4 quando a minissérie foi ao ar. Acho engraçado como o tempo passa rápido.

Conversamos com você há anos durante a filmagem de Olga. Você dizia que estava louca para comer pão, mas não podia…

Foi sofrido porque estava fazendo um regime muito radical, e com isso eu tinha uma fome descomunal todos os dias. Fiz muitos sacrifícios para fazer aquela personagem, em todos os sentidos: Aulas de tiro, aulas de alemão, aulas de russo, e também fui para o exército, onde fiquei um tempo. Foi puxado mas valeu a pena.

O que você acha da situação política do país?

Pergunta difícil. Eu não compactuo com o governo que está aí, acho que a gente enfrentou um golpe, e estamos enfrentando outros. Vamos torcer pelas próximas eleições.

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano