Anderson Tomazzini (Divulgação/ TV Globo)

Em O Outro Lado do Paraíso, o núcleo de garimpeiros da novela tem chamado a atenção do público, seja pela atuação quanto pela beleza dos atores. Um deles é Anderson Tomazzini, que interpreta Xodó, personagem cada vez mais presente nas tramas escritas por Walcyr Carrasco. Nos próximos capítulos, ele se apaixonará por Cleo (Giovana Cordeiro) e tentará persuadir a moça para abandonar sua vida como prostituta. O Observatório da Televisão bateu um papo com o ator que contou que para se sustentar em São Paulo, antes de entrar na novela, foi motorista de aplicativo, e modelo, mas nunca abandonou o amor que sente pelo teatro.

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Como você está lidando com o sucesso do seu personagem Xodó? A mulherada está encantada por ele.

Eu tenho acompanhado esse sucesso, essa evolução do personagem mais pelas redes sociais. Como já disse, eu não sou uma pessoa muito de sair, de estar em balada, de estar em festa, acho que já passei dessa idade (risos). Eu sou mais reservado, mas nas redes sociais eu estou adorando, amando, é uma coisa que me dá carinho, que me dá a cada dia mais vontade de agarrar e continuar estudando, procurando coisas novas porque esse carinho que a gente recebe de volta, diferente do teatro que a gente recebe na hora quando termina o espetáculo, na TV tem um alcance que chega a assustar. Eu estou muito feliz, é muito gratificante, vale a pena tudo que a gente passa.

Você recebe muitas cantadas, bem no estilo: “só quero um xodó”? O nome do personagem já dá esse espaço imaginário.

Essa é clássica (risos). “Eu só quero um xodó”, “Vem ser o meu xodó”, tem umas coisas que são bem pesadas também.

E as cantadas surgem de mulheres e homens?

Tem mulher e homem, mas, assim, eu não tenho o menor problema com isso. Uma vez um seguidor veio me perguntar: “você não fica incomodado com esse assédio masculino?”. Eu falei: “cara, não. Eu recebo isso como um carinho, como uma admiração. Eu gosto, eu recebo até aonde vai o respeito. Agora, tem algumas pessoas, não só homem como mulher também, que passam (do limite) e isso não é legal.

Você começou a sua carreira como modelo. Agora está em uma novela com o personagem crescendo, prestes a gravar uma cena antológica com Fernanda Montenegro e Bianca Bin. Conta para a gente como foi a sua trajetória?

Eu sou de Brasília, fiz alguns cursos, fiz uma montagem lá do ‘Beijo no Asfalto’, só que eu achei que era pouco e, em um momento da minha vida, eu achei que era melhor eu ir atrás do meu sonho. Então eu fui para São Paulo e viver de modelo era uma forma que eu tinha de me sustentar e pagar a escola que era cara. O custo de vida em São Paulo é muito alto. Eu fiquei nesse trabalho de modelo por três anos. Quando eu estava terminando meu curso no Nilton Travesso, tentando testes e aquela coisa difícil, pensei em voltar (para Brasília), até porque eu tenho um filho de dois anos e meio e é muito difícil estar longe dele, a saudade é muito grande. Mas um dia o Walcyr Carrasco pediu para o meu diretor Ivan Feijó indicações de atores para a novela, e o Ivan me indicou junto com outras pessoas, sem eu saber. Depois a Bruna entrou em contato comigo para eu fazer no teste aqui no Rio de Janeiro. Fiz o teste e depois de dois meses ela retornou avisando que eu tinha passado.

E após essa espera você já iniciou as gravações?

Isso foi em março, a novela só ia em outubro ao ar. Então até outubro eu trabalhei muito. Teve uma época também que o mercado de modelo estava muito ruim, então eu trabalhei naqueles aplicativos de táxi por quatro meses porque eu não estava conseguindo me manter em São Paulo.

Então você passou por várias experiências antes de conseguir trabalhar como ator?

Sim, não tenho a menor vergonha de falar isso porque era o meu sonho. Eu estava tentando trabalho como modelo, peça de teatro dá pouco dinheiro, hoje em dia a cultura que a gente tem de teatro está morrendo. E bato sempre com as pessoas que eu converso que temos que resgatar isso.  Eu sei que a tecnologia está vindo, cinema, série, mas tem a coisa da catarse, a coisa do teatro. Eu acho que essa é cultura que devia ser mais aproveitada.

Você conhecia bem a cidade de São Paulo para trabalhar como trabalhar como motorista de aplicativo?

Não conhecia, só que eu sou um bom motorista (risos). Então eu tinha o aplicativo que me falava onde eu buscava e levava.

Nesses quatro meses como motorista você passou por algum momento inusitado?

Quando a gente toca o aplicativo a gente nunca sabe para onde vai. Eu procurava não sair muito do centro da cidade porque eu sabia que tinham lugares que não conhecia e que são perigosos. Um dia eu peguei um passageiro, fiquei conversando e ele morava em São Caetano, uma comunidade. Eu lembro que nunca tinha entrado numa comunidade como aquela, e a gente foi entrando. Daí chegou num lugar que só tinha uma pista, só podia passar um carro e estava tendo um baile funk na frente. Tinha um pessoal com arma e tudo, daí eu falei: “meu Deus do céu!”. O cara sentiu o meu desespero e falou: “fique tranquilo, eu conheço o pessoal aqui”. Ele mandou eu ir embora correndo, desliguei o aplicativo e sai correndo. Não olhei nem para trás, só fui para frente rezando para todos os santos (risos). Essa foi uma que eu passei bem apertada porque eu nunca tinha entrado (na comunidade) e as pessoas te olham de um jeito estranho. Nesse Carnaval eu estava reclamando de algumas coisas da vida e de repente eu pensei: “cara, no ano passado, no outro Carnaval eu estava trabalhando de Uber. Passando no meio da comunidade, tendo por esses perrengues e agora eu estou reclamando de quê?”.

Agora está trabalhando com atores consagrados como Fernanda Montenegro, Laura Cardoso, né?

Pois é! Trabalhando com a Dona Fernanda, com a Dona Laura. Eu peguei a Dona Laura no colo e foi um sonho, é uma coisa que eu já tenho guardada para o resto da minha vida. São pessoas que eu estudava até pouco tempo na história do teatro brasileiro.

Você imaginava que o Xodó teria um crescimento tão grande e rápido?

Desde que entrei eu ouvi muito que nas novelas do Walcyr todo mundo tinha uma oportunidade uma hora ou outra, e que você tinha que agarrar. Então quando eu passei no teste eu já comecei a fazer cursos que não fazia porque eu era do teatro. Eu fui estudando outros métodos, fui desenvolvendo e não esperava. Eu senti que teve uma hora que ele me deu uma chance, eu que vi apareci um pouco mais e que ele estava vendo se dava para escrever para o personagem. Eu fiquei muito feliz, eu acho que ele gostou porque agora que veio foi maravilhoso. Foi um crescimento para um personagem que era uma espécie de quadro, estava ali para ajudar o Mariano (Juliano Cazarré), a Sophia (Marieta Severo), dar um respiro na novela. Ele estava longe da trama principal, longe de todos os principais atores. Agora ele ganhou um grande amor, está vivendo uma história de amor que eu acho muito legal. Eu adoro romance e, era um sonho fazer isso.

Como você se sente ao perceber que chegou no estágio que sempre desejou na sua carreira?

Eu tento pensar que cheguei. Eu recebo como um presente porque quando acabar a novela estamos todos nós aí na batalha, na briga por outros projetos, correndo por fora porque não é fácil, não é fácil. Eu cuido bastante para não deixar nada disso entrar na minha cabeça e achar que eu já cheguei em um lugar. Estou fazendo um trabalho que eu tenho tido um reconhecimento muito legal, mas que eu acho que ainda posso melhorar muito. Eu sou muito crítico comigo, às vezes a minha agente fala: “para, você vai ficar doido”. Mas eu sou muito crítico comigo, é o meu sonho, eu tenho objetivos. É o meu primeiro trabalho, ainda vejo muitas coisas que preciso melhorar, mas eu me vejo muito bem por ser um primeiro trabalho e contracenando com grandes pessoas, por exemplo, o Cazarré um ídolo para mim. Outro dia eu fiz uma cena com ele, assisti e foi uma cena boa. Fazer uma cena boa junto com o Juliano Cazarré é muito difícil, é muito trabalho. Realmente, eu fico muito feliz.

O Juliano Cazarré tem muita bagagem, né? Inclusive, tem um livro lançado…

É o ‘Pelas Janelas’, é um ótimo livro só de poesias. Eu tenho o Cazarré como espelho porque ele é um artista, ele não é somente um ator. Ele escreve, pinta, sabe conversar sobre o mundo da arte, a gente passa horas conversando e cada vez eu o admiro mais com o artista que ele é. Eu falo que eu poderia fazer qualquer curso no mundo inteiro, mas esse trabalho junto com o Cazarré, com a Marieta Severo, com a Dona Laura, agora Glória Pires, todos que passaram pelo meu núcleo, pelo meu personagem, é grandioso. Às vezes não tenha trocado nem fala, mas eu vi como eles trabalham, eu sei como eles dizem com a verdade deles. Em nenhum lugar do mundo eu ia poder ter essa oportunidade de aprender e enriquecer o meu material de trabalho como estou tendo nessa novela.

A novela do Walcyr está sendo um grande degrau na sua carreira. Quais são os seus objetivos para o futuro?

Eu estou fazendo uma participação num longa agora, mas eu quero entrar para o cinema nacional. Meu sonho sempre foi esse, por isso que eu acho que tenho o Cazarré tão presente na minha formação porque eu tenho ele como um dos grandes, junto com o Wagner, o Selton, o Matheus, entre outros. Eu acho que o cinema nacional tem muito poder para crescer. E agora é aproveitar porque estar na Globo é um ótimo lugar porque ela produz muita coisa legal. A Globo produz muitas séries legais, eu quero estar nessas séries. Esse é meu sonho, estar nesse nível que eu acho que são os atores mais experientes que estão lá. É uma coisa melhor e mais difícil de chegar.

E como está sendo a sua preparação para atuar na novela? Você já disse que a linguagem é bem diferente do teatro.

Aqui no Rio de Janeiro eu estou trabalhando com um coaching que se chama Alexandre Brito, que ele tem uma técnica que ele mesmo desenvolve. Na verdade, é um laboratório que ele desenvolve. A técnica a gente experimentando algumas coisas, passamos por sensações, visualizações, é uma coisa bem contemporânea tendendo para uma linguagem supernatural, e eu já estou com esse trabalho com ele há cinco meses. Como falei, eu vim do teatro e precisava mudar essa linguagem para chegar no cinema, que é aonde eu quero chegar. Eu tenho esse trabalho com ele duas vezes por semana, às vezes aos domingos e passamos as cenas juntos. Eu faço tudo com esse coaching Alexandre Brito, que tem me ajudado muito. Todo trabalho refletido na novela não é só meu, é dele também.

Você usou características e experiências da sua vivência para compor o Xodó?

Na verdade, o meu avô tem uma fazenda e ele foi contar gado, e aí eu pedi para o meu pai me levar para passar duas semanas vivendo junto com o pessoal que trabalhava na fazenda. Inclusive, eu pedi para ele não falar com ninguém que eu era filho dele, que quem estava chegando era mais um funcionário. Foram duas semanas convivendo com eles, comendo junto com eles, fazendo tudo que eles faziam. Várias coisas do Xodó vieram deles, algumas brincadeiras, alguns jargões também. Muita coisa veio do jeito que eles convivem, a forma como eles manuseia as coisas, são pessoas mais brutas. Então tudo isso foi analisado nesse laboratório e foi muito legal. Eu passei duas semanas com pessoas ditas de classe social inferior, mas eu fui tão feliz em duas semanas.

O que você fez especificamente de trabalho durante esse período?

Acordávamos 05h da manhã, o sol não tinha raiado ainda. A gente ia tirar leite da vaca, depois voltava com o próprio leite, comia com queijo que eles faziam lá. Todo mundo sentado, um brincando com o outro, até o cachorro passava do lado e pegava um pedaço. Uma simplicidade. Depois todo mundo subia e íamos de cavalo pegar um pouco de boi aqui, um pouco de boi ali. Passava pela cancela, pesava, via se estava parida. Chega cedo, mas cansado em casa. Cansado do corpo, não da mente, a mente tranquila. O céu lindo onde você consegue ver as Três Marias, o Cruzeiro do Sul. E você dorme sem precisar de remédio para dormir, sem precisar calmante, nada dessas coisas que a gente precisa nesse mundo louco nosso.

E você tem dificuldades para dormir?

Eu tenho, mas não uso. Eu digo porque é uma coisa muito presente. As pessoas usam de forma discriminada, tomam um remédio para dormir como se fosse vitamina C. Eu acho isso perigoso.

A novela vai sofrer mais uma grande virada e todos vão saber que o Renato (Rafael Cardoso) é o grande vilão da trama. Você já desconfiava desse personagem?

Eu sempre acompanhei a atuação do Rafa e sabia que ele andava muito numa linha dúbia. Eu percebi que alguma coisa tinha ali, que ele não estava atuando na dubiedade à toa. Até porque o nosso autor deixa a gente com surpresa toda semana, então você desconfia de tudo.

O que você gosta de fazer nas horas vagas?

Eu estou sempre na praia. Se reparar eu estou todo queimado de sol, daqui a pouco o pessoal da caracterização vai até brigar comigo (riso). Eu estou sempre na praia, correndo, na academia, fazendo trilhas. Eu gosto de coisas saudáveis, da natureza mesmo.

* Entrevista feita pelo jornalista André Romano