Maria (Alice Wegmann) em Onde Nascem Os Fortes
Maria (Alice Wegmann) em Onde Nascem Os Fortes (Divulgação/ TV Globo)

Alice Wegmann estará na nova supersérie da Globo, Onde Nascem Os Fortes. Na pele de Maria, ela investigará o desaparecimento do irmão gêmeo Nonato (Marco Pigossi), na cidade de Sertão, e enfrentará figuras importantes do local, como Pedro Gouveia (Alexandre Nero), conhecido como Rei do Sertão, em busca de respostas. Em conversa com o Observatório da Televisão, a atriz contou que está conectada com a personagem, e destacou uma cena da personagem como a mais forte de toda a sua carreira. Confira o bate papo completo:

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Nos conte um pouco sobre a supersérie Onde Nascem os Fortes…

Onde Nascem os Fortes é uma supersérie de seres humanos muito fortes. Contamos a história de Sertão, uma cidade que se torna uma grande personagem. Minha personagem, a Maria, é uma menina que vem de Recife e junto com o irmão gêmeo, Nonato (Marco Pigossi), adora fazer trilha de bike cross. Eles vão para essa cidade, e ela conhece o Hermano (Gabriel Leone), um rapaz que trabalha como paleontólogo, se apaixona, e passa uma noite com ele. No dia seguinte, ela sente um aperto no peito e acredita que algo aconteceu com o irmão dela, e de fato aconteceu, porque ele desaparece. A história conta sobre a saga da Maria tentando descobrir o que aconteceu com seu irmão gêmeo e tudo vai acontecendo nessa cidade, e ela vai cruzando com personagens como Pedro Gouveia (Alexandre Nero), e Ramiro (Fábio Assunção).”

Conversamos com o Alexandre Nero, que é o Pedro Gouveia, e existirá em sua personagem uma desconfiança em relação ao personagem dele. Ela vai passar a investiga-lo?

“Exatamente! Ela vai investigar e colocar na cabeça que foi o Pedro quem desapareceu com o irmão dela por conta de uma briga que eles tiveram anteriormente num bar. Ela vai acreditar fielmente que foi o Pedro, e que ele é o culpado pelo desaparecimento do irmão. E ela vai ficar sempre com o pé atrás em relação a esse homem.”

Ela se apaixona pelo Hermano, filho do Pedro, o homem que ela acredita ser responsável pelo desaparecimento do irmão…

“É uma situação bem difícil. Claro, além de ser o pai da pessoa que a minha personagem está apaixonada, ele é o todo poderoso da cidade. Maria passa muitos perrengues, e muitos dele por causa desse homem.”

Onde Nascem os Fortes
Maria ( Alice Wegmann ) e Hermano ( Gabriel Leone ) em Onde Nascem os Fortes (Divulgação/ TV Globo)

Como você se preparou para viver a Maria?

“Essa pergunta é boa, porque não tive tempo de preparação (risos). O José Luiz Villamarin, nosso diretor, me ligou num sábado às 8 da noite, e na segunda de manhã, eu já estava na Paraíba para começar a gravar. Foi um processo muito rápido, e o mais difícil de todos na minha carreira, mas ao mesmo tempo, senti que eu já estava pronta. Temos tudo dentro de nós, e vamos aflorando caraterísticas para cada personagem, mas nesse caso, eu já estava conectada com a Maria há muito tempo. Sabe personagem que está escrito para ser seu? Foi esse. Na segunda cena que fui gravar, estava dirigindo uma caminhonete com muita raiva, fui passar a marcha e sem querer quebrei a marcha, continuei a cena mesmo assim, e o José (diretor) que estava no banco do carona disse: ‘Você é essa garota né?’. Acho que tem uma força, e estamos muito conectadas, o que me dá muito prazer. Estou muito apaixonada por esse projeto.”

Você teve esse reencontro com Patrícia Pillar. Como está sendo?

“Ela é um luxo. Já tinha gravado com ela Ligações Perigosas, onde eu fazia Cecília, e reencontra-la e poder ter mais cenas com ela, é uma oportunidade incrível. Faço cenas com ela e fico babando. Esqueço a fala, porque fico a admirando. Ela é muito generosa. Como foi um susto para mim a chegada às pressas, tê-la aqui foi um respiro, um alívio. Gabriel Leone, eu nunca tinha trabalhado, mas já era meu amigo antes, me acalmou e me fez confiar em mim mesma, e nas pessoas que estavam ali.”

Esse amor entre Maria e Hermano sobrevive às desconfianças dela no pai dele?

“Sobrevive! É muito forte o que eles têm. Têm encontros que temos na vida com algumas pessoas que não conseguimos muito explicar. É uma relação muito forte apesar de serem poucos dias que eles passam juntos, e estávamos falando sobre isso, porque eles têm poucos capítulos desse amor aliviado, confortável.”

Você acha que pela supersérie ser um produto mais curto que uma novela, o desafio é maior?

“Não que seja maior, mas é diferente. Uma obra aberta por exemplo, também é muito desafiadora por você não saber o que vem pela frente. Numa série conseguimos desenhar, detalhar e aprofundar melhor em cada momento da personagem. Artisticamente falando, consigo mergulhar mais.”

A Maria e o Hermano se separam?

“Eles vivem uma montanha russa (risos).”

Você cortou o cabelo para viver a personagem. Como foi isso para você?

“Foi muito bom. Eu sempre quis cortar o cabelo curtinho e não tinha tido oportunidade. Estava reservada para uma outra novela e estava deixando ele crescer. Mas depois de cortar, quando me olhei no espelho, me perguntei: ‘Caraca, por que não fiz isso antes?’. É libertador, primeiro porque você sai do banho e fica pronta em 5 minutos, já é um corte que tem uma personalidade, e esse corte me traduziu muito.”

Onde Nascem os Fortes
Maria ( Alice Wegmann ) em Onde Nascem os Fortes (Divulgação/ TV Globo)

Alguns sites estão vendendo Onde Nascem os Fortes como Romeu e Julieta do Sertão. Como é interpretar essa Julieta?

“Cara, não sei se é muito isso não (risos). Acho que a Maria é uma personagem meio icônica. Confesso que fico apavorada pensando no que pode vir a acontecer, porque é uma personagem muito forte e muito grande. Ela tem uma consistência, uma força feminina bonita de ver. Como mulher, eu levanto a bandeira do feminismo, me encantei muito por ela, acho que muitas outras pessoas vão se identificar.”

A personagem é muito determinada, né?

“Muito, muito. A Maria prova o tempo todo que não precisa ser homem para fazer determinadas coisas. Ela quebra tudo aquilo que ouvimos a vida inteira do tipo: ‘Até que você faz isso bem para uma mulher’. Quando você vê a Maria com essa força dela, poderosa, corajosa como é, e enfrentando essas pessoas que ela enfrenta, nossa… Apesar de ser uma menina de 24 anos, ela está enfrentando pessoas grandes, é tudo muito crível pelo jeito que ela faz. Os ideais e valores dela são muito críveis, e é difícil não se interessar por ela.”

Você disse que ela tem uma ligação com o irmão que provoca uma intuição dela a respeito dele. Você acredita nisso?

“Eu acredito muito. Sou do signo de escorpião e acredito muito. A Maria tem uma conexão inexplicável com o irmão. É quase maternal, algo forte. No dia que ela acorda, que percebe que tem algo errado, ela sabe que algo aconteceu.”

Na sua vida, você já sentiu algo assim?

“Eu sinto no dia. Não sei explicar, mas sei quando algo vai acontecer. Até brinco com minhas amigas sobre isso. Na última copa quando o Neymar ia bater um pênalti, eu tinha certeza do que iria acontecer na hora, e falei. Não que eu seja vidente, mas às vezes vem (risos).”

Em quais aspectos você se acha semelhante à Maria?

“Apesar de estar em situações diferentes das que vivi, e tomar certas atitudes que eu não tomaria, ela é a personagem mais parecida comigo que já fiz na minha vida. Acho que ela tem uma força, e uma coisa de acreditar até o fim. Fiz ginástica olímpica desde que eu tinha 3 anos de idade, e praticava isso, tinha muita disciplina, e determinação para superar meus limites, e a Maria é assim.”

Onde Nascem os Fortes
Os irmãos gêmeos Nonato ( Marco Pigossi ) e Maria ( Alice Wegmann ) em Onde Nascem os Fortes (Divulgação/ TV Globo0

Você está muito parecida com o Marco Pigossi, que vive seu irmão gêmeo na supersérie…

“Não me imaginava ser tão parecida com ele. Antes de fazer teste para essa supersérie, e antes de ser escalada para outra novela, eu encontrei com ele num show, trocamos ideia sobre a serie, mas acho que temos um colorido parecido por acaso, e calhou da gente se encaixar. Eu já tinha trabalhado com ele em Boogie Oogie, e rolou uma energia parecida para os personagens.”

Você vem de uma carreira crescente. Muita gente diz que você teve sorte, mas vimos você batalhar em cada novo papel. Qual o balanço que você faz?

“Sobre minha carreira, não digo que foi devagar, mas foi no tempo que teve de ser. Acredito muito que as coisas acontecem quando são para acontecer. Eu tinha feito teste para essa série, rolou, mas aí me escalaram para outra novela, e pensei: ‘Tudo certo’. Queria muito trabalhar com o Zé, e acreditei que uma hora daria certo, estava conformada. Quando veio essa personagem para mim, pensei: ‘Então era isso’. Acho que as coisas acontecem na hora certa. Estou no meu oitavo produto aqui na casa. Tem cerca de 7 anos, que estou na Globo, e não tenho pressa de nada. Eu amo trabalhar e na medida do possível quero estar realizando coisas, e descobrindo coisas em mim, com personagens diferentes. Fico muito feliz com o que tenho traçado e me orgulho das coisas que fiz.”

O amor entre a Maria e o Hermano é à primeira vista?

“Eu não digo que foi à primeira vista, mas eles vão se conquistando com uma conversa ou outra. Ela é uma menina de Recife, que foi para lá, ele é um menino bonito, interessante, que trabalha com fósseis. Ela admira o Hermano e eles vão construindo essa relação.”

Tem uma cena na qual sua personagem passa por uma tentativa de estupro. Como foi para você gravar isso?

“Foi a cena mais emocionante que já gravei e a mais forte que já gravei em toda a minha vida, e foi no dia do meu aniversário ainda. Essa coisa que falo que parece que está no céu, parece que a constelação estava alinhada para isso acontecer. Infelizmente não posso contar muito, mas é um momento forte e propicio para falar sobre esse tipo de coisa. O George Moura (autor da supersérie) fala isso de forma não muito didática e a força feminina está ali em todas as nossas personagens, muito claras. Essa é uma cena que representa milhões de mulheres, e todas nós em algum momento já passamos por algo desconfortável, e eu passei por uma situação muito chata, na qual me senti muito impotente, e essa cena da Maria mostra a força que ela tem. Na hora de gravar pensei nas mulheres que já sofreram isso e tudo me ajudou a fazer isso acontecer. Precisei sair dali e dar uma espairecida, ver o pôr do sol e consegui refleti muito.”

É difícil voltar para a casa depois de uma cena dessa?

“Não é tão difícil, porque o clima no set é muito prazeroso, e tem uma leveza. Da equipe, da galera ser parceira e acolher. Como é a personagem com a qual estou mais conectada, teve um dia que cheguei em casa e passei muito mal. Fiquei deitada no banheiro e não conseguia levantar. Tudo mexe com a gente por dentro. Eu choro lendo, fazendo, e assistindo.”

A Oprah em seu discurso no Globo de Ouro falou dessas mulheres que sofrem caladas esses abusos. Como é para você representar essas mulheres?

“Eu acho que nossa profissão é uma janela para o que acontece com o mundo, então fazer uma cena dessa significa muito para mim. Uma vez me perguntaram como era para mim na Globo, e aqui, felizmente, nunca passei por nada nesse sentido. Em todos esses anos de carreira, nunca me senti incomodada, mas sei que muitas mulheres em diferentes cargos passam por isso. Poder dar voz a esse tipo de coisa me emociona porque sou mulher, entendo o que é ser isso. Claro que tem uma coisa do feminismo que precisamos falar sobre o interssexualismo, a Oprah por exemplo, passa por outros preconceitos como mulher negra, são lugares de fala diferentes. Não sou capaz de imaginar o que elas passam, porque ainda é mais forte, mas dar voz as mulheres de alguma forma, é muito especial.”

A Maria vai atrás de justiça pelo irmão desaparecido?

“Ela vai atrás de justiça, e tenta vários meios encontrar o irmão e percebe que está sozinha naquilo. Ela se coloca em situações que ela não imaginou que se colocaria um dia, e nunca passou pela cabeça dela viver tudo isso.”

Como é trabalhar uma história sabendo que o sertão brasileiro tem fama de machista?

“Acho que na verdade, a sociedade inteira é machista. A gente vive isso todos os dias na pele, é um trabalho de formiguinha. É uma coisa que procuro me inteirar para poder falar sobre, é difícil. Temos que educar as pessoas, e reeducar a sociedade, é todo um processo. Não que eu seja a mais educada do mundo para falar sobre, mas é uma construção, e a Maria será muito exemplar nesse sentido.”

Você disse que passou por uma situação constrangedora na qual se sentiu impotente em relação ao assédio. Pode contar o que houve?

“Eu estava com umas amigas, uma delas pegou um Uber, e eu iria sozinha andando para a casa. Outra amiga parou o carro e disse que me levaria. Quando entrei no carro dela, um senhor com cerca de 50 anos, apareceu na nossa frente, viu que no carro só tinham mulheres, abaixou o short e começou a se masturbar bem ali. Aquilo foi muito impactante, até porque não sabíamos o que fazer. Foi desesperador. Até que que veio uma força em mim, abaixei o vidro e gritei, foi quando ele se assustou, os garçons do restaurante perceberam e chamaram uma viatura. A gente se sente com medo, e creio que a maioria das mulheres acabam não reagindo a isso, e como reagimos, ele se assustou, pois não esperava. É triste. Essa é apenas uma situação, mas imagina quantas mulheres passam por isso todos os dias no transporte público, como vimos acontecer recentemente?”

Você vai gravar cenas quentes com o Gabriel Leone, cenas que serão feitas em externa. Tem receio de algo nesse tipo de cena?

“Essas cenas são sempre feitas com muito cuidado e muita segurança. Não tenho do que reclamar.”

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano