Patrick (Thiago Fragoso) em O Outro Lado do Paraíso
Patrick (Thiago Fragoso) em O Outro Lado do Paraíso (Divulgação/ TV Globo)

Em sua carreira, Thiago Fragoso já viveu diversos advogados, mas Patrick, seu personagem em O Outro Lado do Paraíso se diferencia dos demais por ser considerado o melhor profissional criminalista do país. Na trama de Walcyr Carrasco, o rapaz chegou para ajudar a mocinha Clara (Bianca Bin) em sua vingança e caiu rapidamente nas graças do público, que torce pela união do casal. Em conversa com o Observatório da Televisão, o ator falou sobre a sensação de interpretar o personagem, e descartou qualquer hipótese que ele possa tornar-se um vilão.

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Como está sendo dar vida ao mocinho Patrick? O que vai acontecer com ele nos próximos capítulos?

“Eu sempre soube que ele era um mocinho, um cara do bem, e ele está dentro do fluxo de acontecimentos da história. Agora, o que vai acontecer, eu continuo não sabendo. Isso tudo aí está na cabeça do Walcyr, eu sei que ele tem muitas reviravoltas programadas. Ele (Patrick) tem essa representação da justiça, da bondade também, e, é um personagem um pouco coringa. Eu acho que o Walcyr tem uma coisa muito experimental. Ele não tem medo de mexer com a própria história e tem uma capacidade de analisar, de sentir com muita propriedade os gostos do público, de como o público está percebendo a história dele, de como o público está reagindo e de fazer até modificações na história, se ele achar que é interessante para o andamento da novela. E, eu sei que o Patrick entrou na novela no capítulo 47, se eu não me engano, e, é um personagem que tem essa caraterística de entrar para fazer a trama andar. Então, o que vai acontecer para mim, fica difícil saber, porque não é um personagem que está estruturado na trama em termo de sinopse.”

Você acha que o Patrick já conquistou uma torcida para um possível romance com a Clara (Bianca Bin)?

“Tem o ‘Clarick’, aí online. O pessoal está torcendo pra caramba, desde a hora que eles apareceram foi muito legal. Essa recepção foi um máximo, eu achei muito bacana para que eles ficassem juntos. É um casal que tem torcida mesmo sem ser um casal, já que ainda não ficaram juntos, não tiveram essa aproximação romântica. Eu acho que o Patrick tem um dado de lealdade. É um cara que claramente está ao lado da Clara sem nenhum outro interesse que não, realmente, cumprir o último desejo da tia dele que se tornou uma aliada da Clara no hospício nos últimos anos da vida dela. E ajudar essa mulher que está precisando de ajuda, sem querer nada em troca, sem querer dinheiro, inclusive, ele não cobra para isso. Realmente, ele tem essa motivação pura de fazer o bem ali. Isso fica claro e o público gosta de ver isso também, de ver alguma coisa legal acontecendo.”

Como se preparou para fazer esse advogado tão íntegro?

“É o quinto advogado que faço, eu acho. Eu já fiz advogado no século XIX, no início do século XX, no final do século XX. Já fiz advogado estagiário, em início de faculdade, e já fiz advogado no início da profissão. O meu avô é promotor de justiça aposentado e advogou, depois de se aposentar também, por muitos anos. Então, eu tenho muita convivência com esse universo, não só profissionalmente, como em casa também. Obviamente, o universo do direito no Brasil é muito diferente do direito que a gente vê nos filmes americanos, a gente tem muita familiaridade com as séries, com as cenas de tribunal, mas não é assim que funciona aqui. O direito brasileiro é uma coisa mais burocrática e até aquilo que é empolgante, é um pouco diferente do que a gente está acostumado. Para traduzir isso, o pessoal que faz as pesquisas nas novelas realiza um trabalho muito legal, e tem toda uma coisa que você precisa se acostumar também: a burocracia brasileira, a nomenclatura, a terminologia que a gente usa aqui. É uma coisa que leva tempo, e eu estou muito feliz fazendo. Estou muito empolgado com a forma como as pessoas estão recebendo o Patrick, foi além do que eu poderia esperar de carinho.”

Inicialmente, o seu grande inimigo na trama seria o Gael (Sergio Guizé). Mas você já recebeu capítulos que mostram o Renato (Rafael Cardoso) entrando nessa lista de inimizade, né?

“Essa coisa do triângulo amoroso fica muito nítida em relação ao Renato, e até nas próximas cenas tem muito disso. Eles estão muito próximos da Clara, se fazendo presentes, e o Patrick vai percebendo esse sentimento sendo criado. A relação deles é muito legal por isso, e eu acho que esse é o diferencial desse casal, eles se uniram por outros motivos e esse sentimento pode começar a surgir de forma espontânea, sem que eles percebam que isso está acontecendo e quando eles notarem, já estarão tomados por uma coisa diferente. Já o Renato foi tomado de imediato, aquela coisa de amor à primeira vista, que ele sentiu quando a viu. E, a Clara também já tem também um elevo por ele, é um cara que sempre foi muito solícito, muito legal com ela. Mas, ao mesmo tempo, tem uma história que é meio obscura, sempre fica pairando uma desconfiança em relação ao Renato. Então, tem essas duas histórias, o Renato para a Clara é mais óbvio, ela não entende o Patrick como um par romântico. Isso vai demorar ainda para eles entenderem. E eu estou achando que a forma como isso está sendo construído está parecendo muito comédia romântica, está bem legal a forma como o Walcyr está fazendo, vai dar para a gente explorar de formas bem legais.”

Será que não tem nenhuma chance do Patrick se tornar vilão? O Renato, por exemplo, parecia ser um mocinho, mas ainda é uma incógnita para o público, né? 

“Eu não sei ainda. Eu acho que o Renato tem muitas possibilidades. A princípio, ele pode ter feito só o bem até agora, a única coisa que pode questionar é: por que ele está naquela família esse tempo todo? Quais são as reais motivações dele? Mas é um cara que é médico, que está sempre fazendo o bem, e que sempre gostou da Clara. O Patrick não! Eu não vejo a menor possibilidade de ele (Patrick) ser um vilão.”

Como é para você interpretar um cara tão ético em uma época que, infelizmente, essa característica não está muito em evidência?

“Eu acho importante, porque a gente tem uma coisa da denúncia, da arte, do papel da novela, de que é importante falar desses tempos desonestos e da pessoa querer levar vantagem. Mas, ao mesmo tempo, tem uma coisa que é o espelhamento. Quando você joga um personagem legal e dá um espaço para ele, você também está dizendo que é possível e legal criar um modelo para crianças e para sociedade em si. Você está dizendo que aquilo é possível e que vale a pena ser um cara ético. Nas histórias isso também acontece, não é só na vida real que você precisa punir o bandido e exaltar o cara para fazer a sociedade funcionar. Claro que em história a gente pode fazer ao contrário também, a gente pode torcer para o vilão e não gostar do mocinho, principalmente se a história for bem contada, e o Walcyr é mestre nisso. Às vezes, com o Walcyr, a gente está torcendo pelo vilão.”

Você está tomando cuidado para o mocinho não ficar chato, perfeitinho demais?

“Eu tento fazer ele de verdade. Essa ideia de o mocinho ficar chato é quando ele fica monocórdio ou quando as cenas estão iguais. Eu acho que tem uma coisa de você não modular. No meu trabalho como ator, eu tenho uma tentativa de fazer, de pensar naquela cena como única. Vou tentar estar vivo na cena, de estar respirando na cena. Então, sendo bonzinho ou não bonzinho, você pode ter reações diferentes e inesperadas independente do papel que está fazendo.”

Existe muita diferença em interpretar o vilão e o mocinho?

“A grande diferença do mocinho para o vilão é essa. O vilão tem mais liberdade, ele transita, brinca mais, pode se trair, inclusive. Ele pode falar uma coisa e depois falar uma coisa que não tem nada a ver e que não faz o menor sentido. Mas, se o mocinho fizer isso, você pode falar que a história não tem sentido, o mocinho tem que carregar o sentido da história. O mocinho carrega um peso um pouco maior (risos).”

Recentemente, na reprise de ‘Senhora do Destino’, o público viu você bem jovem atuando. Agora, você está em ‘O Outro Lado do Paraíso’, bem mais maduro e seguro. Você acha que a paternidade lhe moldou como ator?

“Não sei. Eu acho que o nosso trabalho é um conjunto. O meu trabalho é feito em conjunto com o olhar do telespectador, então, eu tenho dificuldade de falar sobre o meu processo como ator. Para mim, o importante vai ser sempre continuar trabalhando, porque eu gosto de estar me desafiando, de fazer coisas diferentes e de buscar coisas que sejam interessantes e instigantes para mim. Eu acho que esse olhar que você está trazendo fala de coisas especiais que te comoveram por causa da sua história. Isso é muito legal, o telespectador tem um olhar muito interessante e eu gosto de ver qual é do olhar do telespectador. Inclusive, eu acho que no nosso trabalho de ator é importante também não esmagar o olhar do espectador. Às vezes, a gente fica tão preocupado como ator em fechar todos os ângulos, e a gente esmaga um pouco a possibilidade de interpretação da pessoa que está assistindo. Tem que deixar um pouco de ar, porque o público também tem que criar junto com você.”

Você é um ator multifacetado. O público viu você no programa ‘PopStar’ tocando e cantando. Além dessas qualidades, você tem alguma outra para ser revelada? Você escreve?

“Eu componho. Tenho uma porção de músicas, mas é uma coisa que eu não tenho mostrado. O programa ‘PopStar’, foi uma coisa que deu uma acendida nessa minha veia musical. Tenho vontade de escrever coisas no futuro, porque eu tenho um olhar sobre o roteiro, que é um olhar muito particular. Eu tenho histórias que já escrevi, rascunhos, mas que eu nunca cheguei a desenvolver, e fechar dentro de um roteiro. Tenho vontade de dirigir teatro, tem muita coisa que eu tenho vontade de fazer.”

Você é inquieto?

“Sou inquieto. Até para trabalhar tanto assim não dá para ser diferente. A pessoa pode me achar calma e inquieto, não sei. Mas eu trabalho para caramba, estou sempre fazendo coisas diferentes, então, se for parar para ver, eu sou um cara mais inquieto, porque estou sempre buscando coisas diferentes do que um cara que está acomodado.”

Você já citou os diversos tipos de advogados que você já interpretou. Dentro dessa galeria, como você pontua o Patrick?

“O Patrick é o maior advogado criminalista do Brasil (risos). Tem no texto isso o tempo inteiro, as pessoas descrevem ele assim. Ele seria, certamente, o melhor, o mais bem-sucedido de todos esses advogados que eu já fiz. Rivalizando com o Edgar (‘Lado a Lado’ – 2012), talvez. Mas o Edgar queria ser mais jornalista do que advogado, então, ele não seguia tão intensamente a carreira dele. Acho que não existia tantos advogados no século XIX, a população era mais restrita. Hoje em dia, a competição é mais ferrenha, então, eu vou dar esse crédito para o Patrick.”

Você entrou na novela depois de um bom tempo, e logo na sua primeira cena você foi bastante elogiado, principalmente nas redes sociais. Você já esperava essa aceitação?

“Eu sou muito consciente do trabalho que eu tenho que fazer para me harmonizar com o time, eu sou muito jogador de futebol. Eu acho que uma novela é um time sim, o elenco tem que estar harmonizado, e um ator de teatro tem mais essa noção de que todo mundo tem que estar afinado, falando a mesma língua. A nossa novela, inclusive, tem isso muito claramente. Tem muitas pausas, é uma novela que dá um espaço muito grande para o ator. Entrar fora do tom é uma coisa que acontece, e, eu estava preocupado, estava ativamente trabalhando para afinar com os outros atores do elenco. Então, quando essa reação foi tão positiva, eu fiquei muito feliz. Mas, isso é um trabalho para 200 capítulos, novela é uma maratona. Nesse primeiro capítulo, o pessoal teve uma reação legal, e aí a responsabilidade só vai aumentar, porque tem que manter esse nível até o capítulo 190.”

O seu personagem é bonzinho, porém não é ingênuo. Afinal, ele consegue descobrir que a Duda (Glória Pires) é a mãe da Clara…

“O mocinho tem que ter uma certa ingenuidade porque ele tem que ser enganado pelo vilão. É uma coisa de estrutura de novela. O ator tem que ter certas compreensões da estrutura de novela para também não cair em certas ciladas. Até agora, o que tem acontecendo com o Patrick, é que ele entrou em um momento em que a trama está muito ágil, e ele é um advogado e um cara que está resolvendo problemas. A gente está vendo ele entrando e resolvendo. É um cara crânio, e está dando tudo certo. Agora, eu não sei o que vai acontecer mais para frente. Novela é uma obra aberta e são 200 capítulos. O que eu acho, é que ele é um advogado extremamente bem-sucedido e muito competente, e que se ele não conseguir resolver alguma coisa, é porque está emocionalmente conectado com a Clara.”

A entrada para a novela mudou muito a sua rotina familiar?

“Eu tento dentro das possibilidades quando estou fazendo novela, principalmente dentro da carga horária da novela, fazer certas concessões. Lá em casa todo mundo sabe disso também. Às vezes quando eu começo a fazer novela, todo mundo sabe que vão ser 10 meses, que o negócio vai ser meio louco. Mas a prioridade lá é muito a gente conseguir ficar com o Benjamin (filho), e ter tempo de qualidade juntos. Esse é o principal para a gente, não deixar esses 10 meses afetarem.”

Com quantos anos o Benjamin está?

“Ele já tem seis anos, vai fazer sete. Já tem uma certa independência, mexe no controle da televisão, a gente tem que esconder.”

Ele te reconhece na novela?

“Ele não vê novela, a gente não deixa. Não dá para ver novela ainda. Mas ele sabe que estou fazendo ‘O Outro Lado do Paraíso’. ‘Malhação’, ele também não assistia. Imagina ver o tio Caio… O tio Caio era mau pra caramba.”

‘O Outro Lado do Paraíso’ reuniu grandes atores brasileiros, como Fernanda Montenegro, Laura Cardoso, Lima Duarte. Como é para você contracenar, tem contato com esses nomes?

“Eu fico de espião e ‘gravando’, porque quando está Fernandona e o Lima conversando, dá vontade de ficar no cantinho ouvindo e anotando. É fantástico! E eu tenho um privilegio, porque é a segunda novela que eu faço com a Fernanda, a segunda novela que eu faço com Lima, a segunda novela que eu faço com a Laura, e agora, os três juntos assim, é incrível. Quando os três se encontram, são as coisas mais memoráveis, eu chego em casa, pego a Mariana e falo: ‘Amor, você não sabe. Hoje eu estava no camarim conversando com o Lima, dona Laura Cardoso. Seu Lima estava falando do início da carreira, começou a falar do Shakespeare que ele fez, quando ele fez o primeiro Hamlet, que foi transmitido pela televisão’. Chego em casa contando essas histórias e que eu estava lá ouvindo isso tudo e vendo os dois batendo esse papo. É muito bom poder trabalhar com essa galera.”

*Entrevista feita pelo jornalista André Romano