Zeze Motta
Zeze Motta (Divulgação

Diva da dramaturgia brasileira, Zezé Motta é homenageada do Troféu Raça Negra 2017. Ao longo da carreira, a atriz já abraçou causas tanto na ficção quanto na vida real, participando de cargos no governo em defesa dos direitos humanos. Durante a divulgação do evento no Rio, Zezé falou um pouco dessa trajetória e ressaltou que é difícil acreditar que o racismo ainda é tão presente no Brasil.

Homenagem

“É uma emoção, uma alegria do tamanho do mundo. E é importante também pra gente que luta por uma causa tão terrível no Brasil que é a questão da discriminação, do racismo, da desigualdade. É importante esse tipo de reconhecimento, esse tipo de homenagem, porque toda vez que me chamam pra fazer uma palestra sobre a questão do negro eu fico me perguntando: ‘Meu Deus, até quando a gente vai se reunir para falar sobre esse assunto. Infelizmente a gente tem uma sensação de estar avançando, avançando, avançando e de repente você se depara com situações realmente dolorosas, chocantes, como tem acontecido de artistas serem perseguidos e atacados pelas redes sociais, os nossos atletas sendo agredidos durante o exercício do seu trabalho, nos campos de futebol, de atletismo…’”


Luta antiga

“A gente tá nessa luta há tanto tempo, até quando isso vai continuar. Esse reconhecimento dessa luta, essa homenagem (no Troféu Raça Negra) te dá um alento e gás para dizer: a luta continua. Enquanto houver discriminação no Brasil a gente não pode desistir, sair dessa luta.”

Divisor de águas

“Eu entrei nessa história de brigar por isso quando as coisas deram certo pra mim (no filme Xica da Silva), eu já tinha oito anos de carreira, o filme foi um divisor de águas na minha vida. E as pessoas começaram a me perguntar sobre essas questões do negro. Eu tinha a sensação de que tinha alguma coisa errada, mas eu não tinha um discurso articulado, mas aí eu comecei a prestar atenção em volta de mim, viajando com Cacá Diegues, dando três entrevistas por dia”

Enxergando a realidade

“Quando as coisas se acalmaram que eu olhei em volta: ‘cadê todo mundo’. E era uma meia dúzia de negro. As pessoas me perguntam: ‘mudou alguma coisa?’, mudou um pouquinho, a passos lentos, porque era assim, novela que tinha a Neusa Borges não tinha espaço pra mim, porque somos contemporâneas. Num filme, novela ou peça de teatro que tivesse a Ruth de Souza, não tinha espaço para a Chica Xavier, porque são contemporâneas. E por aí as coisas aconteciam”.

Veja também: Descubra como a telenovela chegou ao Brasil

Uma guru no caminho

“Eu tive a felicidade de um dia abrir o jornal, eu falei: ‘gente eu agora tenho uma grande responsabilidade, todo mundo me perguntando sobre isso, uma negra que protagonizou um filme, qual vai ser o próximo passo?’ Aí eu abri o jornal e vi um curso de cultura negra no Parque Lage, que sorte, com a saudosa antropóloga Lélia Gonzalez, que passou a ser minha guru pro resto da vida. Ao inaugurar, ela falou: “Não tem mais tempo para lamúrias, vamos arregaçar as mangas e virar esse jogo”. Isso aí foi fundamental pra que eu percebesse que estava na hora de fazer algumas coisa. Foi aí que surgiu o Cidan – Centro de informação e documentação do artista negro, cujo propósito é conquistar mais espaço para o negro da mídia. Nesses encontros também eu tenho observado, tenho ficado muito feliz, porque logo no início do movimento negro onde a gente não tinha onde se reunir, o professor Cândido Mendes sempre apoiou os movimentos e sempre nos cedeu espaço para nossas reuniões, nossos congressos, nas faculdades dele. Eu me lembro que no primeiro encontro na faculdade Candido Mendes de Ipanema, ele fez a abertura dizendo ‘a questão do negro não podia ser só uma preocupação do negro, mas de todo brasileiro consciente de que racismo é uma coisa monstruosa’.

Intolerância religiosa

“Mas nesse caminho tem notícia boa também. Eu tive o privilégio de ver no Centro Cultural da Justiça Federal, uma exposição sobre os Orixás, eu tive o privilégio de passar com Oxum e está realmente uma coisa de arrepiar. E a exposição está acontecendo realmente num momento em que voltou a intolerância religiosa com as pessoas quebrando terreiros”.

Defendendo os Quilombos

“Uma notícia boa é que eu vou participar da novela de Walcyr Carrasco, a próxima das nove, que o meu núcleo vai ser um Quilombo. Eu fiquei muito feliz com esse convite, o meu personagem vai ser uma Mãe Quilombo, eu já li alguns capítulos, e realmente vai se aproveitar esse núcleo para se fazer denúncia, de como vive os nossos quilombolas, que são totalmente marginalizados. Acho que a maioria dos brasileiros nem sabe que tem tantos Quilombos no Brasil. Então eu tô feliz de ser a matriarca do quilombo e que o Walcyr vai denunciar falta de saneamento, de professor, de médico, enfim, todas as dificuldades, que os quilombolas vivem. A falta de atenção que dão pra eles é como se eles não existissem mesmo. Eu acho que vai ser muito importante no horário nobre se mostrar como vivem os quilombolas”

Conhecimento de causa

“Quando eu trabalhei como conselheira dos direitos humanos eu visitei muitos Quilombos. A gente tinha uma reunião em Brasília periodicamente onde a gente tinha que levar temas, assunto que precisava ter mais atenção. Eu me lembro que levei a questão dos gays que estavam sendo assassinados, tinha até um padre que fazia parte do conselho, e eu deixei claro que eu não estava fazendo apologia e que seres humanos não merecem ser assassinados. A outra questão que eu me interessei em aprofundar foi a questão de como viviam os quilombolas. Aí no governo Fernando Henrique pela primeira vez eu citei alguns Quilombos, depois a Benedita da Silva me convidou para ser superintendente da igualdade racial e uma das pautas era dar atenção para a questão racial no Brasil, para os índios, para os ciganos e para os quilombolas. Hoje em dia eu conheço uns 30 Quilombos no Brasil. Eu sempre achei estranho que quase ninguém sabe que a gente tem uns três mil quilômetros no Brasil. No Rio eu só conheço o de Paraty, Campos também. O Quilombola é descendente de negros. Cada Quilombo tem sua característica, seu meio de subsistência. Uns vivem de agricultura, outro já de artesanato. Agora uma coisa que é comum entre eles é a falta de assistência para que eles tenham uma vida digna, falta de interesse. Entra alguém começa um trabalho, aí para. No meu caso, eu anotava as prioridades, levava para o governo…”

Dando voz aos quilombos

Eu tô feliz com a novela porque vai se denunciar que falta saneamento básico, falta professores, falta médico, as crianças andam quilômetros pra chegar na escola, não tem ônibus escolar, enfim, não tem água potável, é uma loucura. Eu acho que a novela pode chamar atenção. A própria imprensa pode levar essa discussão para a sociedade.

Convite para a personagem

Não sei porque o Walcyr me fez esse convite. Eu tive a informação quando eu estava em Lisboa (Portugal). O Walcyr falou que tinha muita vontade trabalhar comigo e achava que na próxima novela dele iria acontecer.

Novela em Portugal

Fiz uma novela lá (Ouro Verde), na TVI, foi uma experiência fantástica. Eles têm toda a manhã, têm bons diretores. Nessa novela éramos vários brasileiros entre os mais conhecidos estavam Silvia Pfeifer e o Gracindo Júnior.