Lucy Alves conta que sua personagem sofrerá preconceito social e racial em Tempo de Amar: “Ainda são dramas atuais”

Lucy Alves
Lucy Alves (Divulgação/ TV Globo)

Depois de viver a inesquecível Luzia em Velho Chico, Lucy Alves será Maria Eunice, em Tempo de Amar, próxima novela das 18h da Globo, que estreia em setembro. Durante a coletiva de divulgação da trama, a atriz bateu um papo com nossa reportagem e deu detalhes sobre o novo trabalho. Confira:

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Como surgiu a oportunidade de participar da novela?


Fui convidada pelo Jayme para viver a Maria Eunice, que é a governanta da casa da Celeste (Marisa Orth), e uma espécie de braço direito da patroa, inclusive na música. Ela é elegante, discreta, sabe ler e escrever, vive nesse ambiente cultural com a patroa, que proporcionou isso a ela. O grande drama dela é viver um amor com um médico, o Reinaldo (Cássio Gabus Mendes), que pertence à elite, enquanto ela é uma empregada, tem a pele escura, e ela vai sofrer esse preconceito social e racial.

Como é fazer uma novela de época?

Muito interessante, porque são outros costumes, outro jeito de falar, um jeito diferente de se vestir.

E como é fazer um tema assim denso como preconceito social e racial?

Engraçado que ainda são dramas tão atuais. Vemos o preconceito de todas as formas muito fortes, que o diferente ainda causa estranhamento e é bom como artistas termos espaço para elucidar as pessoas além do entretenimento. É uma novela de muitas personagens femininas fortes, e aproveitamos esse momento de efervescência do empoderamento feminino para falar sobre isso com propriedade. A novela se passa numa época em que a mulher começou a ser mais participativa e a lutar mais pelos seus direitos. A mulher passou a ter um pouco mais de presença, e para mim é maravilhoso viver essa personagem, que é tão diferente da minha primeira, em Velho Chico.

Como é o figurino?

Baseado nos modelos da época. Quando ela está trabalhando, fica apenas de cabelo preso, mas por viver nesse ambiente cultural, e um pouco mais moderno, já que a patroa é muito à frente do seu tempo, ela se veste de acordo com que é estabelecido na casa, mas o padrão de roupas é dos anos 20 e 30.

A novela é extremamente romântica…

Por isso eu acho que as pessoas vão achar maravilhoso. É tão bom sonhar, vibrar no amor ainda mais hoje que vivemos num mundo cheio de dificuldades, com muita violência e negatividade. É tão bom ligar a televisão e ver uma história de amor.

Sua personagem vai ter sotaque?

Estamos trabalhando para ter um sotaque neutro. Eu aqui falando com vocês estou de Lucy, tenho meu sotaque, que não quero perder nunca, mas na novela é diferente. Temos profissionais oferecidos pela produção da novela para ajudar a neutralizar o sotaque de todo mundo inclusive dos portugueses.

É difícil?

Eu encaro como aprender um outro idioma. Eu falo com o sotaque X, mas aí começamos a aprender uma outra sonoridade.

O seu figurino te ajuda a entrar na personagem?

Quando a gente coloca o figurino, maquiagem e entra no set, entramos na história, tudo isso me ajudar a viver a Maria Eunice. Eu estou adorando as roupas dela, virei outra pessoa.

Como você compôs a personagem?

Eu tenho observado muito as empregadas domésticas, as pessoas que trabalham servindo, e meu ambiente de pesquisa é a rua. Lanchonetes, restaurantes, e aos poucos estou construindo a Maria Eunice. Ela é muito centrada e elegante,

Como é sua relação com Velho Chico? Afinal foi uma novela muito marcante…

Muita saudade de Velho Chico, primeiro que foi minha primeira novela, trouxe o Nordeste para a televisão, com um elenco e direção incríveis. Foi um trabalho de muita arte, e o público teve uma visão completa de diferentes artistas, como bailarinos, atores, cantores. O Luiz Fernando Carvalho é muito cuidadoso, tem essa visão do teatro, do coletivo, e sabe extrair o melhor do ator. Fui muito feliz.

O Jayme Monjardim, diretor dessa novela já te conhecia?

Acho que ele teve referência do meu trabalho em Velho Chico e é outro grande artista, tem um outro olhar e outra forma de conduzir, e isso para mim está sendo maravilhoso. Ele chega a ser musical, até porque ele vem de uma família musical. É um presente trabalhar numa obra tão rica como foi Velho Chico.

Você é bem-sucedida na música, e bem-sucedida como atriz, que é uma carreira que talvez você não tinha imaginado. Passa um filme na sua cabeça?

Eu acho engraçado mas adoro ser surpreendida pela vida. Foi a vida que me trouxe para a dramaturgia, eu não procurei, mas os caminhos me trouxeram. Ser atriz ajuda nos palcos, e ser cantora me ajudou como atriz, afinal eu já falava as letras como se contasse uma história. As coisas se complementam.

Como você está fazendo para se dividir entre a atuação e a música?

Moro no Rio agora, e estou conciliando a agenda da novela com os shows. Ambos os trabalhos consomem muito, então é necessário ter muita disciplina. Inclusive estou também em processo de gravação de um novo CD, para ser lançado em 2018, depois da novela.

Seu álbum já tem um nome?

Ainda não. Estamos no processo criativo de ir para o estúdio e testar sonoridades e compor. Embora o álbum só fique pronto ano que vem, no próximo mês já conseguirei lançar um single.

Tem alguma música sua na trilha da novela?

Ainda não, mas o Jayme é muito generoso, e ele me deu total autonomia para mexer, pra sugerir, então talvez eu consiga mais pra frente trazer algo inédito para a novela.

Você vai tocar no Rock In Rio?

Sim, nunca sonhei tocar no Rock In Rio, e estarei lá no Palco Sunset, homenageando o João Donato que é um super representante da música brasileira, um grande instrumentista. A vida sempre me presenteando.

Você acha que o The Voice foi crucial para te lançar como atriz?

O The Voice foi maravilhoso porque me projetou para tanta gente, e foram várias portas que se abriram. Eu já tinha um público no Nordeste, mas depois um número bem maior de pessoas passou a me acompanhar, e consumir o que eu faço.

É difícil andar em várias cidades que você passa?

Existe sempre um carinho e eu adoro ser abordada. As pessoas não esquecem, dizem “a menina da sanfona”, e isso é uma identidade. É um instrumento que carrego desde menina e representa meu povo, representa o Brasil. A sanfona hoje é muito mais brasileira ao meu ver do que europeia.

*Entrevista realizada pela jornalista Núcia Ferreira